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Peter e Sandra Goldschmidt

O EcoViagem entrevista Peter e Sandra Goldshmidt, os aventureiros do projeto Giro pela América

26 de Setembro de 2001.
Publicado por Equipe EcoViagem  

O EcoViagem entrevista Peter e Sandra Goldshmidt, os aventureiros do projeto Giro pela América.

GIRO PELA AMÉRICA: UMA GRANDE AVENTURA.

Eles largaram tudo que construíram durante mais de dez anos e partiram para uma grande aventura. Peter e Sandra Goldschmidt, ambos com 37 anos, foram fundo no ideal de mudar de vida. Venderam tudo que tinham e embarcaram, junto com os filhos Peter Erick e Ingrid, num motor-home numa bela e fascinante viagem. O objetivo é girar toda a América dentro de cinco anos. A primeira etapa desta jornada, que incluiu o sul do Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e Parguai, já foi concluída. Agora eles estão divulgando o material produzido e preparando-se para a próxima viagem.

EcoViagem: Como foi que a família Goldschmidt tomou a decisão de deixar tudo e partir para uma aventura como esta?
P. e S. Goldschmidt: Partir para essa aventura surgiu a da idéia de mudar de vida. Eu tinha uma produtora de vídeo há 12 anos que consumia muito tempo da gente. Trabalhávamos 16 ou 17 horas por dia e as crianças iam ficando em segundo plano. Somado a isso, estávamos vendo que não tínhamos uma vida saudável. Então resolvemos mudar radicalmente. Pensamos numa maneira de juntar família, trabalho e o quê nós gostávamos de fazer em um único projeto. Foi aí que surgiu, até em forma de brincadeira, o projeto Giro pela América. A Sandra, que era a responsável por tirar essa idéia da nossa cabeça, não tirou e eu também não. Foi então que começamos a fazer o projeto que acabou realmente mudando a nossa vida. A gente hoje procura viver mais perto da natureza, passar o maior tempo possível perto dos nossos filhos. Além disso fazemos o que gostamos afinal, nossa profissão de vídeo-maker está incluída no projeto, além de escritor, jornalista e fotógrafo. Não é uma forma fácil de se mudar de vida. Não foi fácil a primeira viagem, assim como a segunda também não está sendo. Mas é uma questão de determinação. Determinamos que queremos mudar nossos valores. Estamos tentando viver de acordo com o que a gente acredita. É um pouquinho mais difícil, mas é possível.

EcoViagem: Vocês foram influenciados por outras expedições e aventureiros?
P. e S. Goldschmidt: Alguns aventureiros abriram o caminho mostrando que é possível viver da aventura. Fomos incentivados por histórias de sucesso, afinal se deu certo para eles pode dar certo para nós também. A partir daí desenvolvemos um projeto único e diferente sempre visando o que tínhamos em mente que era em primeiro lugar a unificação da família. Manter os quatro sempre trabalhando juntos, desenvolvendo o que a gente sempre gostou de fazer que é viajar e documentar tudo isso. Unimos o útil, que é o trabalho através da vídeo-produção e da fotografia, família e lazer.

EcoViagem: Conte a respeito da preparação da viagem.
P. e S. Goldschmidt: A preparação foi bastante difícil porque não tínhamos nenhuma experiência em preparar uma expedição. Fomos aprendendo um pouquinho aqui, um pouquinho ali. Fizemmos um projeto muito bom, muito sólido e começamos a apresentar isso para as empresas. Este foi um passo um pouco mais difícil. Mas a crise do dólar pegou nosso projeto pela metade e derrubou-o no chão. Recomeçamos do zero. Mas batalhamos, até que a gente teve que tomar uma decisão: ou investiríamos ou deixaríamos o projeto de lado. Como somos muito teimosos, resolvemos investir na primeira fase e quem sabe colher os frutos na segunda. Vendemos a produtora de vídeo, os carros e tudo que pudemos. Restou apenas nossa casa. Investimos em 90% do projeto pois conseguimos patrocínio para apenas os 10% restantes. Essa foi uma decisão de família. Agora estamos voltando e trabalhando para tentar recuperar alguma coisa. Mas foi uma decisão que não foi fácil. Nós tínhamos que abrir mão de um patrimônio conquistado nos últimos doze anos. De repente começamos um novo investimento, desconhecido e incerto. Mas por outro lado a vontade de estar juntos, de viver as mesmas coisas juntos e começar algo novo nos motivou muito mais. E foi algo que não deu para parar e pensar em desistir. Não. A gente dá um jeito e continua. Afinal, se você trabalha por idealismo e você tem motivação para continuar é diferente. É isso que move o ser humano a dar continuidade a seus sonhos, seus objetivos, seu trabalho e sua vida.

EcoViagem: Por que o projeto foi dividido em três fases não contínuas?
P. e S. Goldschmidt: Primeiro por uma questão de logística. A princípio tínhamos pensado em fazer uma viagem só, um único giro pela América. Mas a gente ia ficar muito tempo fora e não teríamos tempo para consertar os erros que eventualmente fossemos cometer. Então dividindo em três teríamos como consertar esses erros. Existe também a questão do acúmulo de material. Só da primeira fase nós temos 5 mil fotos, 17 horas de vídeo, 37 matérias escritas. Agora imagine triplicar isso? Não teríamos como utilizar esse material adequadamente. Então para fazer algo bem feito era melhor voltarmos e aproveitarmos melhor esse material.

EcoViagem: Como foi viver em um motor-home durante quase um ano?
P. e S. Goldschmidt: Foi uma experiância incrível. Todos nos perguntavam: como vocês vão viver dentro desse ônibus? Mas desde o primeiro momento em que entramos nele nos sentimos bem como se fosse o espaço idel para nós. Não vou falar que nós não tivemos problemas de adaptação. Nos dois primeiros meses até a gente se acostumar com coisas como onde se liga a água, onde se liga a bateria, etc. Mas é apenas uma questão de adaptação. Para a gente 27 metros quadrados foi o espaço ideal. Cada um tinha seu espaço e o dividíamos com respeito pelo outro. Até em ocasiões que poderíamos estar fora do motor home a gente estava lá dentro. Além disso, a gente tinha um quintal do tamanho do mundo e as crianças amavam isso.

EcoViagem: A receptividade com os brasileiros é grande nos países que vocês conheceram?
P. e S. Goldschmidt: A gente não imaginava que nossos irmãos fossem tão amáveis e receptivos. Não imaginávamos que poderíamos conhecer pessoas como as que nós conhecemos. Algumas nos acolheram como se fossemos um ente querido. Então o que a gente tem a dizer para quem quiser se arriscar por essas terras afora é que vá realmente porque vai se surpreender com a hospitalidade.

EcoViagem: Como foi o contato das crianças com as diferentes pessoas e culturas?
P. e S. Goldschmidt: Eles aprenderam a ser bem maleáveis. Se adaptaram fácil a cada região, a cada situação, a cada amigo novo. Em questão de um mês eles já estavam se comunicando em castelhano. As crianças às vezes faziam artesanato para vender e saiam se virando por aí. Essa adaptação foi fácil por causa do ambiente favorável. As pessoas eram muito hospitaleiras, bem receptivas. Foi um envolvimento natural e quando vimos elas estavam até fazendo escola e sem constrangimento nenhum. Chegamos num ponto no qual estávamos nos sentindo mais argentinos do que os próprios argentinos. Pegamos uma época de festas pátrias e a escola envolveu muito eles com isso. Eles participaram fazendo poesia, acrósticos e até participando diretamento dos eventos. O envolvimento foi realmente grande.

EcoViagem: Durante a viagem, as crianças continuaram estudando via internet. Como foi essa experiência?
P. e S. Goldschmidt: Nós saímos daqui com o planejamento da escola e os livros e fomos ensinando eles durante a viagem. Por internet enviavamos as provas ou alguma dúvida, mas eles estudadavam com a gente. Durante uma época ficamos parados muito tempo e eles passaram a freqüentar a escola adventista desse lugar. No final do ano eles voltaram e entraram na turma normal deles. Acompanharam normalmente e tiraram médias boas, sendo aprovados como qualquer outra criança. Eles se tornaram até um pouco autodidatas. Leram muito e estudaram muito sozinhos. Uma coisa que eles perceberam foi é a importância de aprender. Eles aprendiam alguma coisa e já viam o uso prático daquilo. Não podiam fazer um conversão de moeda sem saber tabuada. Até para olhar o mapa eles precisavam saber um pouco de geografia. Eles aprenderam ainda algumas coisas que jamais eles poderiam aprender numa escola.

EcoViagem: Além do frio intenso, quais foram as outras dificuldades encontradas?
P. e S. Goldschmidt: O frio foi uma das dificuldades. A outra foi a dificuldade econômica porque os países que visitamos, principalmente Uruguai e Argentina são extremamente caros. E quanto mais ao sul, mais caro fica. O terceiro problema foi mecânico e tivemos custos extras, além de nos atrasar o cronograma. Deveríamos ter passado o inverno no Chile e tivemos que passar na Patagônia. Por outro lado isso trouxe algumas coisas boas também.

EcoViagem: Conte um pouco sobre sua estadia em Comodoro Rivadavia.
P. e S. Goldschmidt: Nós tivemos um problema no motor há 800 km de Comodoro. Lá foi feito um conserto que acabou piorando o que já estava ruim. Andamos mais 100 Km e quase que o motor fundiu. Paramos então numa pequena cidade de 10 mil habitantes. Só tinha um mecânico na cidade, mas mesmo assim conseguimos trazer um peça de 2.500km de distância e consertar uma parte do motor. Ficamos quinze dias ali. Conseguimos então rodar mais 700km para chegar em Comodoro Rivadavia. Lá deveríamos fazer o conserto. Mas aí faltava peça, houve problema de falta de dinheiro, falta de mecânico, falta de disposição... Ainda por cima fecharam todas as estradas por causa da neve. Ficamos ilhados lá quase três meses. Há mais de dez anos que não nevava tanto quanto naquele ano. Tanto que saímos de lá e quinze dias depois começou a nevar e só parou quando estávamos quase chegando no Brasil. Foi uma janela no tempo, como uma benção. Foi um momento de muita depressão, muita dificuldade e cansaço físico. O frio você pode por uma roupa a mais, ligar um aquecedor, mas o lado psicológico é difícil. Você longe de casa, sem dinheiro... Tinha dias que ficávamos a cinco mil quilômetros de casa com 20 dolares no bolso e com o cartão de crédito bloqueado. Outro problema é que não estávamos acostumados a ficar parados. O desespero era ver aquele ônibus parado sem o motor que é o coração da viagem.

EcoViagem: Nesse momento passou pela cabeça desistir?
P. e S. Goldschmidt: Não. Queriamos dar um jeito de voltar para casar com o roteiro cumprido. E conseguimos. Rodamos os 31.000 Km previstos e chegamos na data marcada. Mas ficamos marcados por todo esse tempo parado. O único pânico era ficar ali, parado, perdendo tempo.

EcoViagem: Como está sendo o "pós-viagem"?
P. e S. Goldschmidt: Estamos trabalhando em cima do material, divulgando o projeto, etc. Estamos também lançando uma fita de vídeo e ainda vamos lançar três livros.

EcoViagem: Como será a próxima etapa do projeto?
P. e S. Goldschmidt: Vamos percorrer todo litoral brasileiro, cruzar a Amazônia, chegar até a Venezuela e Caribe. Aí voltaremos por Porto Velho, Mato Grosso, centro do Brasil e finalmente Atibaia. Depois iremos trabalhar o material da segunda fase e só então partir para Peru, Bolívia, Equador e Colômbia.

EcoViagem: E como andam os preparativos?
P. e S. Goldschmidt: Agora estamos fazendo o projeto, pondo tudo no papel. Vamos começar a procurar patrocinadores em fevereiro. Estamos também dando palestras para instituições, empresas e outros.

EcoViagem: O que o Brasil e os brasileiros têm a aprender com os nossos vizinhos?
P. e S. Goldschmidt: A gente tem muito o que aprender. Vivemos de costas para a América Latina. Ficamos olhando para Europa, Estados Unidos, quando temos uma grande riqueza aqui atrás. Riqueza natural e cultural. Temos uma Suíça aqui no Chile. Temos ainda importantes locais históricos, até mesmo para a história do Brasil. Além disso, nossos vizinhos são muito hospitaleiros. Isso é uma coisa que não esperávamos e que nos emocionou muito. Outro ponto interessante é que eles têm um patriotismo invejável. No Chile passamos por vilarejos de três ou quatro casas e todas elas tinham a bandeira do país. Enquanto isso queríamos que nos comprassem uma bandeira do Brasil aqui e ninguém encontrava porque não era ano de Copa.

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