Peter Goldschmidt

Peter Paulo Goldschmidt, 41 anos, é produtor de vídeo em Atibaia, mas não é por seus filmes que tornou-se conhecido em todo o Brasil.

  
  

Peter Paulo Goldschmidt, 41 anos, é produtor de vídeo em Atibaia, mas não é por seus filmes que tornou-se conhecido em todo o Brasil. Há 5 anos, Peter decidiu mudar de vida e, junto com a esposa Sandra e os filhos Erick e Ingrid, resolveu desbravar a América do Sul a bordo de um Motorhome. A expedição, intitulada Giro pela América, acaba de retornar de sua segunda fase, com mais de 90 mil kms percorridos no total, 3 mil deles de barco só na Amazônia. Confira a entrevista exclusiva que Peter deu ao EcoViagem, em um dos momentos mais cansativos do Projeto: a correria de São Paulo.

EcoViagem: Quando surgiu a idéia de realizar expedições em família?
Peter: Essa idéia surgiu numa viagem muito gostosa que fizemos com as crianças para o Chile em 1997, viajamos de carro por bastante tempo e eles se adaptaram bem. Aí pensamos (eu e a Sandra) “Quando viajar podemos levar as crianças”, que tinham cerca de 6, 7 anos na época. Eu também sempre tive um ideal de fazer documentários, mas não fazia pois me tirava muito de casa. Esses projetos e sonhos foram ficando acumulados, até que em 1998 a produtora já estava bem, mas eu trabalhava cerca de 15 a 16 horas por dia, não via mais minha família, as crianças e a esposa reclamando e, numa tarde conversando com a Sandra na cozinha, ela comentou: “Vamos mudar de casa?”, e eu respondi: “Vamos mudar de vida?”. A partir daí ficamos pensando o que poderíamos fazer, aí peguei todos aqueles sonhos antigos e concluímos que iríamos morar num ônibus. Em três horas eu já estava com o logotipo e o esboço do projeto prontos. Então começamos a correr atrás de patrocínio, montamos um projeto legal, foram 10 meses procurando patrocínio e não conseguimos nada além de um apoio que correspondia a 10% do projeto total. Foi aí que eu sentei com a Sandra e perguntei: É isso mesmo que a gente quer? É! Vamos fazer? Vamos! Então vamos vender a produtora, os carros, vídeo cassete... vamos deixar só a casa. Ela topou, vendemos tudo em uma semana (em suaves prestações (rs)) e investimos tudo no projeto. Em 4 ou 5 meses estávamos saindo na primeira expedição Giro pela América, na qual fizemos, em 331 dias, o sul do Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai. Saímos em novembro de 1999 e voltamos em outubro de 2000. Eu costumo dizer que nós saímos com recursos próprios e voltamos com dividas próprias também (rs). Foi muito difícil, mas serviu pra mostrar que a gente falava sério e trabalhava direito: conseguimos uma boa divulgação na imprensa, cumprimos o cronograma e os compromissos com nossos apoiadores, demos o retorno adequado, publicamos livro, fizemos uma fita de vídeo... e a partir daí começamos a nos preparar para a segunda fase da Giro pela América, dessa vez nós conseguimos patrocínio.

EcoViagem: Foi bem mais fácil?
Peter: Mais fácil em têrmos, o primeiro contato fica mais fácil porque você se torna mais conhecido, mas o processo continua sendo difícil, foi mais um ano e meio de trabalho para poder realizar essa segunda fase, que durou 434 dias e quase um ano e três meses, pra percorrer praticamente só o Brasil, deixamos a Venezuela e as Guianas que estavam programadas para ser feitas agora para outra expedição.

EcoViagem: Apesar de terem um roteiro pré-formatado, vocês chegaram a ser pegos de surpresa por algum lugar muito belo ou interessante, que fizesse vocês darem uma esticadinha alterando um pouco a programação e até em função disso não conseguirem ir às Guianas e à Venezuela?
Peter: Apesar de viajar em um Motorhome, um veiculo de 13 toneladas, mais um carro, a nossa viagem é como se estivéssemos de mochila nas costas. Eu tenho programados lugares para os próximos 3 meses, mas se dentro desse período aparece alguma cidade, alguma coisa interessante, a gente muda todo o roteiro, adia, liga, resolve... através de um escritório que temos em Atibaia. Isso aconteceu, por exemplo, em Pedro II: nós estávamos em Parnaíba, no Piauí, visitamos ali o parque de 7 cidades, Ubajara, Camocim, Jericoacoara, Lençóis.... Então, quando estávamos indo para Teresina, um pessoal local perguntou se conhecíamos Pedro II e contou que lá havia fabricação de rede artesanal, uma mina artesanato em opala... Aí eu pensei: “Nunca vi opala, só aquele carrão (rs)... Eu quero conhecer...”, então adiamos uma semana, fomos para lá e conhecemos esse lugar maravilhoso que não estava em nossos planos, uma cidadezinha muito simpática, vimos as opalas, fomos num garimpo que havia sido recém descoberto, vimos o pessoal achando opalas na hora que valiam 2, 3, 4 mil reais, foi muito interessante, muito instrutivo, uma dica de viagem que valeu a pena. E assim aconteceu com vários outros lugares, tanto na primeira como na segunda fase da expedição, a gente dificilmente rejeitou uma dica.

EcoViagem: Como era a receptividade dos locais? Já houve alguma surpresa nesse sentido?
Peter: No geral fomos bem recebidos. Em alguns lugares que não tinham uma recepção mais acalorada, era onde normalmente as prefeituras eram desorganizadas, o prefeito ausente, e nós fazemos questão de passar pelo lugar, não pela recepção. Em outros lugares, porém, a recepção surpreendia. Em cidades como São João Batista do Glória em Minas Gerais, ou em Rio Tinto na Paraíba, chegamos sem nenhum aviso prévio e fomos recebidos com fogos, banda de música, prefeito, vereadores, as televisões locais, carreata, a cidade inteira esperando na praça, crianças levando flores... Coisa de 300, 400 pessoas te esperando, pedindo autógrafo, muito legal.

EcoViagem: Como esse aviso prévio era dado?
Peter: Toda a viagem foi programada, temos uma equipe que fazia os contatos com 3 meses de antecedência, porque nos queríamos ouvir da cidade o que ela tinha p/ nos mostrar. Nós não chegávamos falando: “Queremos conhecer isso ou aquilo”, mas perguntávamos: “O que vocês têm para nos mostrar?” Então é isso que vamos conhecer, e isso é o que faz o nosso perfil. Então nós sempre tivemos o apoio das prefeituras, em 90% dos lugares, mas não pedíamos e nem esperávamos dos lugares uma organização, uma recepção... e as vezes, como disse anteriormente, era uma baita festa, parecíamos o rei da Suécia chegando (rs)! Nós não estávamos emocionalmente preparados para isso, e essas coisas ficam, você faz amigos maravilhosos... Eu queria recomeçar uma viagem hoje de novo só para rever todos os amigos.

EcoViagem: Você e a Sandra sempre gostaram de viajar juntos?
Peter: Desde garoto, quando ainda estudava no Colégio Adventista de Itapecerica da Serra, chegava nos finais de semana eu falsificava uma autorização de saída, pegava minha mochila, ia para a Imigrantes e descia de carona, sempre viajei. Quando comecei a namorar a Sandra, passei isso pra ela, que era uma moça toda certinha, professora, fazia faculdade, e ela começou a viajar bastante comigo. Eu não era o futuro genro ideal, depois a família dela começou a se acostumar comigo, até gostam de mim hoje (rs), mas eu não fui o genro que eu espero para a minha filha. Eu era meio louquinho, sempre viajava, levava a Sandra pra viajar comigo de carona, naquela época em que ainda dava para fazer isso, ia sem eira nem beira. Com o tempo, compramos uma barraquinha e começamos, depois um carro, sempre evoluindo, sempre viajando. Depois de um ano de casados, resolvemos aprender inglês, aí vendemos mais uma vez o que tínhamos – não era muito! – e com 3 mil dólares fomos para a Inglaterra. Ficamos dois anos lá aprendendo inglês, a cada seis meses pedíamos demissão do emprego, juntávamos nosso dinheiro e viajávamos pela Europa por um mês de trem, ou íamos para as Ilhas Britânicas, fazíamos sempre alguma loucura, tanto que não voltamos com muito para o Brasil, porque gastamos bastante lá. São coisas impagáveis, que se não fizesse naquela época me arrependeria muito. Eu graças a Deus não me arrependo de ter deixado de fazer nada.

EcoViagem: E é muito bom fazer tudo isso com uma companhia querida né?
Peter: Uma coisa que a gente trabalhou e tornou objetivo dessa viagem foi incentivar o turismo em família, que a família não seja um empecilho mas sim uma desculpa para você viajar, porque é muito legal você chegar num lugar como, por exemplo, o Glaciar Perito Moreno na Argentina, gelos de 70 metros de altura que despencam na sua frente, uma avalanche, maravilhoso... aí olhar pra sua mulher, seus filhos... O Érik dizia: “Poxa pai eu vi isso!” E hoje quando eu comento isso com eles, todos se arrepiam da mesma maneira que eu porque viveram esse momento comigo. Então forma-se uma memória coletiva na família, a gente comenta juntos, relembra e curte juntos as memórias da viagem. É importante a família viajar junta, isso a gente faz desde quando éramos só eu e a Sandra, é muito mais divertido, quando acontecem os problemas é muito mais fácil suportá-los, é muito mais interessante que viajar sozinho.

EcoViagem: Aproveitando esse gancho, quais as vantagens e desvantagens de viajar em família por um longo período de tempo? O espaço de cada um é respeitado?
Peter: A desvantagem praticamente inexiste porque, quando eu quero ficar um pouco sozinho, eu simplesmente saio e fico sozinho. É claro que as crianças às vezes não entendem isso, eles não compreendem porque o pai ou a mãe às vezes querem ficar sozinhos, mas pra isso existe porta (rs)... Às vezes você solta um: “Não enche!” e se tranca (rs)... Mas não consegui ver desvantagens em viajar em família, a não ser o custo que aumenta! (rs)

EcoViagem: O estudo das crianças não acaba ficando precário?
Peter: Não fica... Pode até ser que o estudo formal fique um pouco precário, mas o estudo formal em um mês com o auxílio de uma professora eles recuperam, porque além de serem bastante esforçados, “têm o HD limpo” como eu costumo dizer. Agora o estudo verdadeiro que é a vivencia, fica reforçado, porque eles vêem na prática o que aprendem nos livros, eles aprendem sobre montanhas, colinas, vales e vão andar nas montanhas, colinas e vales, eles aprendem sobre camadas geológicas e vêem as camadas geológicas, descobrem fósseis, já fizeram escavações na Ilha de Marajó, conviveram com arqueólogos em Manaus, viram a importância da matemática, que não era uma coisa só de livro, porque eles aplicavam a matemática para calcular o tempo de uma viagem, a velocidade do barco, a quilometragem, viram a importância do português para escrever um texto, enfim, tudo o que eles tinham nos livros eles viam no dia a dia, e isso é muito interessante, a vivência permite um aprendizado melhor. Eles também tiveram contato com pessoas diferentes, de culturas diferentes, de classes sociais diferentes, de cores diferentes, com deficiências físicas, que tinham uma vida normal. Uma hora estávamos num lugar super simples, outra num lugar super chique, uma hora você falava com o governador do estado, outra você estava conversando com o faxineiro da prefeitura... E eles foram aprendendo a tratar essas pessoas da mesma maneira, a respeitar todas elas, e aprenderam a conhecer o Brasil. Acho que hoje eles são umas das crianças mais brasileiras que tem, porque eles conhecem o Brasil mesmo, sabem da cultura, comeram comidas diferentes, andaram em lugares diferentes, passaram calor, passaram frio, e com isso acho que eles se tornaram seres humanos melhores... Mas isso nós vamos ver daqui uns anos, quando eles puderem expressar isso, por enquanto estão só coletando, depois começam a externar isso e aí nós vamos ver no que deu.

EcoViagem: Durante a palestra de vocês na Adventure Sports Fair do ano passado, eu notei que era o Érik (filho) quem mudava os slides. Com vocês é assim, tudo em família?
Peter: A idéia é que todos da família façam tudo. Ministramos uma palestra motivacinal para empresas chamada “Ações e Decisões”. Os 4 fazem parte da palestra, a Ingrid começa apresentando a família, o Érik fala por mais de 20 minutos, depois a Sandra e eu termino a apresentação. O Érik e a Ingrid me ajudam na operação do equipamento, como é uma palestra toda audiovisual temos que colocar a imagem certa no lugar certo, para não correr o risco do operador fazer alguma coisa errada, nós mesmo é que fazemos tudo. As crianças gostam disso e participam, durante a viagem eles também fotografam e filmam, participam da edição, fazem comentários, dão sugestões, boas sugestões! Então a gente procura que todos façam de tudo dentro do projeto.

EcoViagem: Quais os frutos dessa expedição?
Peter: O que a gente mais tem trabalhado é a palestra, em breve vamos lançar um livro sobre essa segunda fase, em seguida vamos lançar uma fita de vídeo de 4 horas com o resumo desse ano e meio de viagem. Da primeira fase já temos lançados um livro e uma fita de vídeo que estão a venda em nosso site (www.familiagold.com.br), agora vamos lançar um CD room e estamos trabalhando para lançar um programa de TV com 15 capítulos contando a viagem em detalhes. Além disso, tem as outras expedições que a gente já pretende fazer, o Projeto Giro pela América, de três fases vai passar para quatro, a terceira será no final desse ano ou começo do que vem (se tudo correr bem) com Amazonas, Venezuela, as Guianas e Amapá, e um ano depois, na fase final, Peru, Bolívia, Equador e Colômbia, terminando o Giro pela América com todos os paises e estados da América do sul percorridos.

EcoViagem: Esse livro seria dicas de viagens, o que exatamente?
Peter: O livro a gente tenta fazer um mesclado, ele conta o que foi a viagem mas, ao mesmo tempo, dá dicas de viagens, onde o leitor pode se hospedar, onde contratar os passeios, mapas para se localizar, traz curiosidades de cada lugar, tem receitas culinárias... É uma mistura disso tudo e guia, um livro bem eclético, para todos os gostos, a molde do primeiro.

EcoViagem: E as crianças não ficam com medo?
Peter: Não da pra ter medo senão não sai de casa. Eles enfrentaram bem, ninguém nunca reclamou de medo. Logicamente numa viagem assim todos nós temos medos, eu tenho medo, isso faz parte. Nós viajamos, por exemplo, 8 dias de Belém para Manaus, numa balsa com 36 carretas, e só tínhamos nós de passageiros e a tripulação. O problema é que a balsa no Amazonas só tem dois instrumentos de navegação: o piloto e uma lanterna (rs), não tem bússola, não tem nada, e de dia, à noite, faca chuva ou faça sol, a balsa vai seguindo, subindo o rio. Chega à noite eles acendem o farol a cada um minuto mais ou menos, para ver onde está a margem, deixam-no aceso por uns 10 segundos aí apagam, rodam mais um ou dois minutos no escuro completo, independentemente das condições climáticas.. é assim, não pára. Isso dá medo, não vou dizer que não dá, mas o que você pode fazer? Você tem que confiar em Deus, olhar pra Ele, pedir pros anjos abrirem caminho se tiver alguma coisa na frente e dormir, porque senão você não dorme durante 8 dias! Mas vale a pena, é uma viagem maravilhosa!

EcoViagem: Tem algum lugar em especial, mais fortemente marcado na sua memória?
Peter: Não tem um lugar mais forte, têm lugares diferentes, que chamam mais a atenção por sua beleza, até por chegarmos no momento certo, pegar um tempo bom, encontrar as pessoas certas... Por exemplo, o norte do pais é fantástico: Ilha do Marajó, Belém do Pará, Manaus... são lugares mágicos, diferentes do que a gente está acostumado aqui no sul, o próprio nordeste... descobrimos que cada estado do nordeste é um país, a gente vê o nordeste como uma coisa só, e não é, você sai de Pernambuco, entra em Alagoas e é outra coisa completamente diferente, muda o biótipo, a comida, o sotaque, a música, o jeito das pessoas andarem... Essa descoberta que o nordeste é uma república de países foi muito interessante. Conhecemos também outros lugares maravilhosos como o Pantanal, as três Chapadas (Veadeiros, Diamantina e dos Guimarães), Lençóis Maranhenses, Parnaíba no Piauí, os Parques Nacionais também são fantásticos, Alagoas tem um litoral belíssimo, Minas Gerais... Olha, é tanto lugar que não dá pra falar de um só.

EcoViagem: Aí você se refere mais às belezas naturais, mas e sobre as comunidades locais, qual mais surpreendeu vocês?
Peter: Quanto mais ao norte você vai mais abertas são as pessoas, mais simpáticas, mais acolhedoras, mais hospitaleiras, porque elas estão acostumadas a um clima bem quente, ficam fora de casa, chega 5 horas da tarde todo mundo senta em frente de casa para conversar. Eles se preocupam com o visitante, nunca você vai passar fome por lá, é um outro tipo de mentalidade, eles não têm preconceitos de cor, classe social, não têm problemas de assalto, e se tem um pouquinho pra mim vai ter pra você também entende? Isso no norte e nordeste em geral, chegou na Bahia a coisa já começa a ser assim. Eles são mais sossegados, vivem mais, aí você começa a perceber que eles são inteligentes e não nós que vivemos em São Paulo, nas grandes cidades... estamos num atraso de vida tremendo, eles vivem a vida, aproveitam cada dia e a gente não.

EcoViagem: Você chegou a ver alguma injustiça social ou degradação ambiental que te deixou indignado?
Peter: Sim, vimos pouco, mas basicamente dois problemas: nós vimos no amazonas muita gente jogando lixo no rio, pelo volume de água parece não fazer muita diferença, mas é uma coisa chata essa questão cultural da água. Outra coisa é o turismo massivo em alguns lugares... e é meio difícil lidar com isso porque as pessoas querem conhecer e têm o direito de conhecer, eu sou contra Parque Nacional fechado... não sei como resolver esse problema, se é viável uma alternação de trilhas, de atrativos... Mas alguns lugares estavam bem degradados pelo fluxo de pessoas.

EcoViagem: Você acha que os benefícios desse turismo de massa, por mais que degrade o ambiente, de alguma forma são revertidos para as comunidades locais, para o “povão”?
Peter: Não, muito pouco. Você não vê as comunidades locais envolvidas nisso, a maioria são empresários que empregam, mas são poucos os lugares que têm a consciência de envolver as comunidades nisso. Algumas cidades no nordeste têm projetos, principalmente voltados ao artesanato, mas o grosso não, porque gringo chega de avião, já pega um ônibus, já está tudo programado, e não dão muita importância para a cultura local. Em alguns poucos lugares, porém, como a Chapada dos Veadeiros, foi feito um trabalho interessante pelo governo de Goiás junto ao Ibama: eles criaram o Parque Nacional e tinha uma cidade, São Jorge, que vivia da mineração de quartzo. A criação do parque acabou com a mineração, mas se preocuparam em capacitar a comunidade para estruturar o turismo na região, dando cursos para montarem pousadas, restaurantes, campings, comércio, serem guias... Hoje eles estão totalmente voltados para o turismo, que traz um sustento bom para a cidade, as pessoas ganham mais hoje e trabalham menos do que com a mineração, e foi uma boa solução para se preservar o lugar e, apesar de alguns ainda falarem com saudades da mineração, que marcou muito suas vidas, sua cultura, hoje elas têm uma outra alternativa de renda. O mesmo aconteceu na Chapada Diamantina, em Andaraí: hoje o melhor dos guias na minha opinião, o Nil, é ex-gerente de draga, ex-caçador, ex-pescador, um cara que depredava tudo, não por maldade, mas porque essa era a cultura dele. Quando o Nil foi convertido ao ecoturismo, tornou-se um dos melhores guias e um dos principais defensores da região. Então você vê a modificação na vida das pessoas, na sua qualidade de vida e no amor que elas têm pela natureza, através de um trabalho bem feito.

EcoViagem: Fale um pouco sobre os projetos sociais desenvolvidos durante a expedição.
Peter: Nós realizamos dois projetos durante a expedição. Um ligado a Furnas Centrais Elétricas, onde incentivávamos as pessoas a economizarem energia elétrica, principalmente através de palestras para as crianças. A outra campanha foi feita em parceria coma a Abiclor chamada `Água + Cloro = Saúde`, onde através de palestras para crianças e agentes de saúde, ensinamos as pessoas a clorar a água antes de consumi-la, impedindo assim que doenças como difteria, cólera, tifo e hepatite se proliferem através da água contaminada. Distribuímos cerca de 60 mil gibis da turma da Mônica que falavam sobre a água, feitos em parceria com o Mauricio de Souza e com a Funasa, demos cerca de 70 palestras, falamos direta e indiretamente para quase 1 milhão de pessoas e conseguimos, em algumas cidades, melhorar a qualidade de vida da população através simplesmente da adição de cloro na água, com os resultados sentidos ainda durante a viagem.

EcoViagem: Durante uma palestra você declarou que “recuperou o Peter que já estava sendo soterrado pela correria do dia a dia”. Como é voltar agora para a rotina, o stress e os compromissos da cidade, depois de um ano e meio vendo todas essas belezas em família? É muito difícil ou você se adapta rápido?
Peter: É muito difícil. Mas a vida é feita de fases, a gente tem que pagar preços em determinadas fases, eu paguei um preço muito alto pra começar esse projeto, e pago um preço pra terminá-lo. Mas eu acho que isso faz parte do projeto, essas temporadas na cidade, correndo atrás de patrocínio, nessa loucura, vem pra São Paulo, passa 12, 15 horas rodando de lá pra cá em reuniões, isso tudo faz parte, e a gente tem que ter paciência. Ou você nasce rico, milionário e pode viver num lugar maravilhoso, ou você tem que batalhar por isso, o que é o meu caso. Eu ainda tenho muito pra rodar na vida, e essa é uma fase pela qual eu tenho de passar, como qualquer um tem que lutar para chegar naquilo se quer e viver uma vida um pouco mais tranqüila.

EcoViagem: As pessoas conhecem o Peter viajante, mas sabemos que você desenvolve uma série de outros trabalhos. Quais são eles?
Peter: Nós organizamos viagens para as pessoas conhecerem aquilo que nós conhecemos, só para os lugares em que nós estivemos. Nós assessoramos a pessoa a viajar, ou fazemos algumas expedições guiadas, levamos pessoas para o Deserto de Atacama e para a Patagônia, por exemplo, vamos de avião, alugamos um carro e conduzimos o grupo. Com o tempo, pretendemos fazer isso com o Motorhome. Ou então, se alguém quer viajar sozinho ou com a família, nós montamos todo o roteiro, com dicas, história, geografia, mapas, reservamos os hotéis, damos tudo mastigadinho para a pessoa fazer uma viagem tranqüila e segura.

EcoViagem: Vai a família inteira dar essa assessoria?
Peter: (rs) Não, mas sempre vai um ou outro (rs). A esposa, ou um filho, eles sempre querem acompanhar porque pretendem fazer isso no futuro.

EcoViagem: O que o público já pode esperar da Família Goldschimidt para agora?
Peter: Esse monte de produtos que te falei – fita, livro, palestras e acessórias – já está tudo rolando. Quem quiser saber mais informações visite nossos sites www.familiagold.com.br ou www.giropelaamerica.com.br.

EcoViagem: Qual a lição mais importante que você tirou de toda essa experiência?
Peter: A vida é muito mais simples do que a gente pensa que é. A gente que complica. Temos que descobrir meios de simplificar nossas vidas, e tentar evitar fazer coisas que nos complicam tanto.

  
  

Publicado por em

Jaqueline Takahashi-Postles

Jaqueline Takahashi-Postles

27/01/2009 13:15:51
Peter,
estava fazendo algumas pesquisas sobre Atibaia e acabei lendo toda sua publicacao na site, super interessante. Quando voces nao estao viajando vcs ficam em Atibaia? Seria super legal se pudessemos bater um papo, meu marido e Ingles e estamos pensando em mudar a Atibaia daqui a uns anos, como esta o seu Ingles? praticando muito? Boa sorte e tudo de bom a vc e familia!