Senadora Serys Slhessarenko

A Senadora Serys Slhessarenko (PT/MT) foi uma das palestrantes mais aplaudidas no III Encontro Verde das Américas, que aconteceu no início de setembro.

  
  

A Senadora Serys Slhessarenko (PT/MT) foi uma das palestrantes mais aplaudidas no III Encontro Verde das Américas, que aconteceu no início de setembro. A Senadora é Presidente da Comissão Parlamentarista Mista para a Agenda 21 Local, a primeira frente parlamentar, constituída por Senadores e Deputados Federais, voltada às questões ambientais. Confira a entrevista que a Senadora concedeu ao EcoViagem durante o evento e conheça seus pontos de vista sobre a causa sócioambiental no Brasil, as políticas públicas nessa área e o trabalho da Comissão Parlamentar para a Agenda 21 Local.
E-mail: serys@senadora.gov.br

Quando começou o seu trabalho e da Comissão Parlamentar para a Agenda 21 Local?
Chegando no Senado, recém eleita e preocupada com a questão ambiental, eu e uma equipe começamos a procurar a existência de alguma organização no Congresso Nacional que atuasse na defesa do meio ambiente. Constatamos que, apesar de a Agenda 21 Local ser algo que surgiu, que emergiu na Eco 92 no Rio de Janeiro, nada ou muito pouco existia em termos de Congresso Nacional. Existiam até algumas atitudes isoladas, mas não existia uma frente mista que, no meu ponto de vista, era o mais importante, composta de Senadores e Deputados Federais. Então começamos a articular e organizar e a Comissão, que hoje é formada por 106 Deputados e 30 Senadores. Ou seja, pela primeira vez o Congresso Nacional se organizou como congresso para entrar realmente nessa batalha, enquanto que as organizações não governamentais, em relação à Agenda 21, já estavam razoavelmente organizadas.

Qual o objetivo desse trabalho?
A sociedade está com uma certa organização já despontando há algum tempo, mas as “organizações institucionais ou governamentais” muito pouco têm participado disso, muito pouco têm contribuído e pouco mesmo têm feito em nível de ações pelo meio ambiente. Então, eu diria que o grande objetivo da Frente de Desenvolvimento Sustentável e Agenda 21 Local do Congresso Nacional é estimular a ponta, lá no município, que se organize, que a sociedade se organize, que os prefeitos realmente busquem atuar nesse sentido, que as Câmaras de Vereadores comecem a não só se conscientizar, como a tomar atitudes concretas, como organizar os Fóruns Municipais de Desenvolvimento Sustentável e Agenda 21 Local, a discutir as propostas de desenvolvimento sustentável para os seus municípios, numa organização tripartite – a sociedade, as Câmaras, as prefeituras – e paritária, com as três partes participando, elaborando as suas propostas de desenvolvimento sustentável, tendo essas propostas aprovadas pelas Câmaras Municipais, para então os executivos realmente implantarem e implementarem, obviamente sempre sob os olhos e a fiscalização da sociedade, porque essa mudança deve acontecer é na sociedade, de baixo pra cima.

Quais as suas expectativas em relação a esse processo?
Eu espero que esses programas que venham a emergir tragam no seu bojo as questões da saúde, da educação, do lixo, enfim, como essas coisas serão resolvidas no Município, como efetivar isso. Os adultos hoje já estão tão habituados a jogar o papel na rua, a usar o copo descartável – que leva 200 anos pra ser reabsorvido pela Natureza! – a jogar o saco plástico em qualquer lugar, entupindo os bueiros... Nossa Senhora, não tem Natureza que dê conta de absorver esse tipo de coisa! Deve haver uma mudança de mentalidade do empresariado, desde aquele que fabrica o saquinho de lixo, que deve saber que precisa investir em pesquisa para descobrir outras formas de fazer o transporte das mercadorias, num material que seja mais rapidamente absorvível. Há também a questão da mentalidade das nossas crianças, eu aposto nas nossas crianças e nos nossos jovens. Eles é que realmente terão de fazer os adultos ficarem vermelhos de vergonha por não ter essa consciência, aqueles que jogam o lixo em qualquer lugar, que vai entupir o bueiro, que vai causar depósito de lixo, contaminar as águas, transmitir doenças e aí emenda com a saúde... Na questão da preservação e da recuperação do meio ambiente é fundamental que todos os setores, todas as partes envolvidas se aglutinem em torno de cada um fazer a sua parte para que a gente possa ter um mundo saudável, preservando a vida, porque não adianta você dizer “eu estou preservando a minha vida, buscando meu auto sustento” ao mesmo tempo em que “detona” a Natureza, porque daqui a pouco é ela que vai nos detonar.

A senhora falou sobre a importância da conscientização das nossas crianças. Nós sabemos que muitas delas, quando não estão nas escolas, estão na frente da TV. A Comissão já está pensando em algum trabalho nesse sentido, na mídia de massa, principalmente a televisão, com educação ambiental voltada para o público infantil?
Sim, quando eu coloquei que a mídia tem um papel fundamental, é justamente nesse sentido, inclusive o Ministério do Meio Ambiente está fazendo todo um programa onde as pessoas estarão mostrando, principalmente às crianças, como é politicamente correto agir com relação ao meio ambiente. Os meios de comunicação têm um papel fundamental, os órgãos governamentais devem trabalhar essa questão via meios de comunicação, mas trabalhar de forma radical. Estamos realizando campanhas envolvendo educadores, pois eles são a fonte máxima para atuar junto às nossas crianças, aos nossos jovens, e aí atuar via os meios de comunicação, mas também via as escolas, com concursos de redação de textos, de poesias, elaboração de cartilhas, enfim, as mais variadas formas que façam com que as crianças se sintam co-partícipes das ações de preservação e conservação do meio ambiente.

Há quanto tempo, de fato, a Comissão Mista já está atuando, e quais as conquistas institucionais e práticas alcançadas nesse período?
A Comissão, na verdade, ainda está em fase de organização. Há mais ou menos dois meses começamos a nos organizar, já temos uma diretoria, estamos nos regularizando em nível cartorial, que é necessário até para buscarmos investimentos, e nos dividimos em vários subgrupos, que cuidarão de mídia, campanhas, elaboração de cartilhas, concursos nas escolas, reforma tributária ecológica, enfim, são vários os subgrupos que estão organizados e trabalhando no sentido de levar as temáticas que foram determinadas para cada um, para aprofundar o estudo e ver os mecanismos e as ações que podem ser realizadas. Além disso, estamos também com a programação de visitas à instituições e projetos que já estão trabalhando para o desenvolvimento sustentável. Nós precisamos, como Frente Parlamentar, conhecer esses trabalhos, não só para dar visibilidade e pra divulga-los, como para ver possibilidades de que essas ações se propaguem para outros municípios, grandes e pequenos. Os municípios devem juntar suas forças, fazer consórcios. A questão não é preservar o meio ambiente porque se gosta do meio ambiente e pronto, mas porque se gosta da vida, porque se quer a vida.

Como a Comissão está atuando junto às organizações não governamentais?
A preocupação maior da Frente é com o institucional, porque o não governamental já está razoavelmente organizado. Se precisarmos de estímulo, de alguma força no sentido de legislações, entre outros assuntos, a Frente estará totalmente disponível para o tipo de atuação que as não governamentais venham a exigir. Mas a nossa atuação real, nossa busca real é junto às organizações governamentais, que têm atuado muito pouco e deixado muito a desejar. De 100% das instituições ambientalistas, 90% são não governamentais e apenas 10% governamentais. Então nós, como uma instituição governamental, o Parlamento brasileiro maior que é o Congresso, o Senado e a Câmara, temos que participar e fundamentar nossas ações como instituição governamental.

Durante sua palestra, a senhora falou em como casar o conhecimento das comunidades tradicionais com os conhecimentos técnicos e interesses políticos. A senhora falou em liberdade total de idéias das comunidades locais, acesso à informação e participação “na feitura das regras do jogo”. Sabemos, porém, que na prática isso é difícil. Como as comunidades locais podem ter esse acesso às Câmaras?
Aí nós entramos numa coisa muito maior, que é democratização das relações de poder, que está no processo de construção da democracia. Eu acredito que a democracia está começando a se desenvolver no Brasil. Ninguém pode dizer que ela é ampla, geral e irrestrita, ela está nascendo vigorosa, mas ainda precisa muito para avançar. A democratização das relações de poder é fundamental para o processo democrático e, com o avanço desse processo, nós teremos essas relações facilitadas. As pessoas têm que ter acesso às informações, elas têm que poder dizer o que acham, o que pensam a respeito de uma coisa, sem serem incriminadas, recriminadas. O Ministério Público precisa participar, a sociedade, de um modo geral, Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, todos devem participar com a sua parcela de contribuição, e participar com liberdade de poder dizer o que acha, sem discriminação, caminhando para o debate, para a discussão, para ampliar e abrir os horizontes, entender as questões de forma diferenciada, e que sejam questões de interesse sempre coletivo e não individual, porque o grande problema da nossa cultura ainda é o individualismo, “eu quero salvar a minha pele, não importa que a pele do outro vá arder logo ali na frente”. Devemos pensar sempre no coletivo e, para isso, é necessária uma abertura muito grande na sociedade, e essa abertura é dada pela democratização das relações de poder: qualquer cidadão tem direito a discutir na Câmara de Vereadores, a ter a participação do Prefeito, a saber qual a sua idéia, combate-la se acha-la ruim ou estimula-la e fortalece-la em conformidade com o que as pessoas sintam que reforça os interesses coletivos.

A senhora também falou da importância da participação das mulheres nesse processo...
A participação da mulher é fundamental. Nós, mulheres, temos sido discriminadas através dos tempos. A dor da discriminação, da repressão, da violência que ainda existe de forma muito amarga contra a mulher numa sociedade que impõe os ditames do macho, faz com que ela tenha uma participação fundamental nesse processo. Eu costumo dizer que nós precisamos feminilizar o poder, porque a mulher, por ter essa história de opressão e discriminação, jamais irá querer virar simplesmente moeda, de opressora virar oprimida. A mulher tem um grande potencial para construir a sociedade justa, a sociedade igualitária pois é ela que pare a vida – ela não gera a vida sozinha, mas a gesta sozinha – e quem gesta a vida, quem dá a vida, certamente tem competência para fazer políticas públicas para preservar essa vida.

  
  

Publicado por em