Sergio Felix Pinheiro (Noel)

Noel, como é conhecido, conversa com o EcoViagem sobre a profissão de Guia de Turismo Ecológico e dá dicas para viajantes.

  
  

EcoViagem: De acordo com a sua experiência como você analisa o desenvolvimento histórico da profissão de guia de turismo ecológico no Brasil?
Noel: No início, muitas vezes, não se começa como profissão, às vezes o primeiro passo até é sem querer, por uma vivência, por um conhecimento, pela prática. Com o tempo a coisa vai se aprimorando e torna-se realidade. A profissão de guia no Brasil é isso: primeiro nós tinhamos os guias do turismo tradicional, que com o apelo do ecoturismo, que é uma atividade que está em pleno desenvolvimento, forçou o surgimento de guias especializados; E como começou a surgir esse guia? Como ele se desenvolveu e hoje ele esta dentro do mercado? Da seguinte forma: normalmente os primeiros guias de ecoturismo, por natureza, eram aventureiros, faziam trilhas, caminhadas, passeios de bicicleta mas como lazer pessoal; a partir do momento que esse atual guia conhece um lugar e leva alguns amigos e por conseqüência começa a fixar, conhecer bem o local e então a assumir a responsabilidade sobre um grupo de pessoas, mesmo que ainda numa fase de amizade, de amadorismo, é nesse momento que surge as primeiras agências de turismo ecológico; Conceqüentemente elas também precisaram de guias, então, os primeiros guias eram formados assim: com uma bagagem individual, que não era propriamente dita específica para ser guia, mas foi o aprendizado de cada um que com o tempo foi se revertenndo para o lado profissional. Esse guia foi se especializando, adquirindo conhecimento que é importantes na função e assim se desenvolveu e hoje a gente tem um grupo de guias bem mais estruturados, com um conhecimento mais amplo, ele não só conhece o lugar onde se vai mas tem todo um histórico do lugar, noção de geografia da região vistada, uma série de detalhes que enriquece o trabalho do guia.

Cesar Greco

Cesar Greco

EcoViagem: Como trabalha um guia ou como é o trabalho do guia?
Noel: Atualmente os guias não têm vínculo empregatício com uma agência, ele é um freelancer, ele pode até desenvolver muitos trabalhos para uma agência embora seja livre para trabalhar por conta ou com diferentes agências. O guia de turismo ecológico primeiramente conhece alguns lugares, a partir dai ele começa a prestar serviço para uma determinda agência. Como é que a coisa começa a desenvolver nesse sentido? A agência arma o seu esquema de viagem, reúne seu público e então encaminha o seu cliente para um determinado lugar que se propôs; Nesse espaço é que entra o guia, levar esse público e desprender seus conhecimentos pertinentes à região visitada e ainda relacionar-se com o grupo, assim é que a coisa vai se desenvolvimento. O guia necessariamente presisa ter boa comunicação, conhecer o lugar; É importante, quase que imprescindível, dominar técnicas de primeiros socorros, porque normalmente ele está junto à natureza e sempre acontecem pequenos acidentes, é importante que ele tenha esse conhecimento para sanar essa situações.

EcoViagem: Que tipo de equipamento o guia precisa estar levando para realizar passeios?
Noel: Todo guia, por iniciativa própria, tem a sua pequena mochila, o seu equipamento. Numa mochila de guia, independente do lugar que vai, ele tem sempre: sua bolsa de primeiros socorros, lanterna é imprecindível na sacola de um guia, um canivete, protetor solar, água, e sua bagagem pessoal, pode ser um saco de dormir ou uma barraca, o último item, em algumas situações é dispensável dependendo para onde vai. Se ele vai para montanha é necessário corda, mosquetão, equipamentos de montanha em geral, ou seja, dependendo do local visitado, será necessário recorrer a equipamentos apropriados.

EcoViagem: Como é o relacionamento do guia com as pessoas que conduz nos passeios?
Noel: A relação com as pessoas, no caso com os clientes, talvez seja o ponto mais difícil de tocar, porque cada pessoa é um mundo, tem suas características, sua personalidade, o seu comportamental, e quando você lida com um grupo obviamente você não pode atender uma pessoa individualmente, você está lidando com um grupo; mas aquela pessoa também não pode deixar de ser atendida individualmente, ou seja, você a vê dentro do grupo, procura posicioná-la dentro desse grupo, mas é preciso não deixar de respeitar as características dela, então a abordagem para um grupo não é igual para todos, você dá algumas coordenadas que servem para o coletivo, mas é importante sempre tocar a pessoa, o indivíduo alí, para ele se sentir atendido, sentir que tem uma atenção voltada para ele, isso é importante, porque no fundo as pessoas querem atenção. E dentro da característica de cada um o guia tem que ter essa maleabilidade, essa flexibilidade de poder entender aquele indivíduo e muitas vezes tentar passar para ele algumas coisas que em alguns momentos ele não esteja reagindo favoravelmente, mostrar para ele de que, se a sua situação é de guia, é porque dentro daquilo você tem um conhecimento maior do que o dele, por isso que você é o guia e não ele.

EcoViagem: No caso ele é imprescindível então?
Noel: Com certeza. O ditado é certo “Cada macaco no seu galho”, se você se propõe a fazer um passeio em um lugar que não conhece, com desconhecimento de algumas técnicas dentro de uma região que pode oferecer perigos e riscos, e você tem uma pessoa que conhece os perigos de tal incursão, você estará mais seguro com essa pessoa que conhece do que se estivesse sozinho, quer dizer, o seu espírito de bandeirante pode ser barrado em uma situação que não domine, se você está acompanhado de um guia ele já de antemão conhece as dificuldades e tem um conhecimento técnico, que você não tem obrigação de ter e ele tem, já que se propõe a ser guia.

EcoViagem: Qual parcela de responsabilidade que o guia carrega no que diz respeito à conservação do meio ambiente natural?
Noel: É fundamental. O contato dele com a natureza é muito grande, há um aprendizado constante do guia nesse contato, porque é o meio ambiente dele é onde ele está o tempo todo, ele vai desenvolvendo esse aprendizado, vai vendo um local de forma diferente da do turista, porque o visitante normalmente, com raras excesões, traz os maus habitos da cidade; e na cidade existe uma série de comportamentos que não se aplicam à natureza, por exemplo: a questão do lixo. Na cidade se joga lixo, mas tem os coletores de lixo, os varredores de rua, então a pessoa não toma consciência de que ela joga lixo hoje e amanhã vai estar limpo, ela não vincula o comportamental dela; Na natureza não é isso: se jogar lixo lá vai ficar lá, porque não tem coletor de lixo, não tem varredor, não tem nada disso, então, o guia que tem contato com a natureza, que a observa e vê a beleza dela ele tem uma visão natural daquilo, ele passa a ser um educador desse turista. Tem até uma frase que diz “Da natureza traz-se apenas (lembranças)... o que se pode bater é fotografia... e se deixa apenas pegadas, isso é interessante”. Você não tem que acrescentar nada à natureza e também não precisa tirar nada dela, você pode usufruir dela sem interfeir nela, esse é um papel que o guia deve desenvolver naturalmente.

EcoViagem: Atualmente os guias brasileiros são bem treinados?
Noel: Estão bem mais preparados, até pela própria necessidade que hoje a gente tem, a questão de conservação e preservação da natureza já é necessidade primeira, até por sobrevivência do homem. Muito tem se falado a respeito disso, os canais de divulgação tem mostrado, digamos, os dismandos do homem com a natureza. Por conseqüência uma pessoa que está no papel de guia tem essa visão, e se não tem vai formando essa visão e postura com o tempo, e é importante que passe a ser um exemplo disso: de conservação e preservaçao da natureza; Então a formação de guia hoje está muito voltada para esses princípios, outrora não, era uma coisa feita meio assim: quase até com uma certa displicência, era meio que um “auê”; hoje não, já está viculado o papel de guia, já existem os cursos feitos com um currículo de tudo o que deve ser abordado e visto dentro da função de guia.

EcoViagem: Quem certifica a profissão no Brasil?
Noel: Um dos lugares é o Senac, é um órgão que tem um curso de formação de guias e guardas parques, é um curso bem interessante, e tem uns dois ou três cursos ai que eu não sei se são oficializados, mas que tem a proposta de formação de guias.

EcoViagem: Existe corporativismo na profissão de guia no Brasil?
Noel: Não, não existe tanto, porque acontece o seguinte: é uma profissão que existe e está aí, mas que ao mesmo tempo ela está em uma escala, digamos, perante ao grande público, a uma grande cidade ela está em uma escala muito pequena de atividade e solicitação.

EcoViagem: A partir da sua visão de guia, como você analisa o ecoturismo hoje no Brasil?
Noel: Eu vejo o ecoturismo atualmente em pleno desenvolvimento e com tendências a crescer muito, e nesse crescimento um posicionamento mais consciente do ecoturismo, da preservação da natureza. Hoje já podemos ver cidades e prefeitura se empenhando em explorar as suas belezas naturais, mas com consciência do público que está alí, não uma coisa aleatória em que cada um faz o que quer. O ecoturismo realmente está se desenvovendo, porque de alguma forma o homem terá que voltar a natureza, perceber que ele é parte integrante dessa natureza. Em primeira mão ele deve conhecer as belezas, voltando a admirar a natureza e por conseqüência respeitá-la, buscando um convívio harmônico e é aí que entra o ecoturismo, que também é parte desse complexo: a agência, o ecoturismo, o cliente, o guia e as cidades que têm suas belezas naturais.

EcoViagem: Em quanto tempo nós vamos atingir um nível razoável de amadureccimento do ecoturismo?
Noel: É uma questão cultural do país, mas acredito que o grau de consciência das pessoas que estão buscando o ecoturismo será bem mais adiantado, principalmente hoje que se faz muitos trabalhos com escolas; É muito comum a gente ver grupos de escolas fazendo passeios ecológicos, isso é muito importante para a criança, quer dizer, essa criança amanhã vai ser um jovem consciente, vai ser um adulto consciente, então esse trabalho já está sendo feito. Acredito que daqui uns 15 anos a consciência ecológica já estará bem mais evoluída e já realmente sendo parte integrante da formação de um jovem e de uma criança.

EcoViagem: Para encerrarmos a palavra é sua…
Noel: O que gostaria de acrescentar de uma forma geral, em relação ao homem e à natureza, é a importância do homem perceber, principalmente o indivíduo que vive na grande cidade que ele, às vezes, perde a relação com a natureza e esse distanciamento o torna um tanto insensível... O homem vive muito massacrado dentro de uma grande cidade com muitos estímulos e solicitações no seu dia-a-dia que o afastam muito da natureza, e acho que a volta à natureza, pelo menos como comtemplador, pode trazer ao homem... pode remeter ele a ele mesmo de coisas absolutamente simples e básicas na vida dele; Então há de se ver o seguinte: um indivíduo de cidade, ele hoje toma água e não tem noção dessa água, ele acha que a água foi só captada alí e que vem através de tubulações, que chega numa caixa d’água, que chega na torneira, só que ele não tem noção da água em sí... Por conseqüênca, se ele está na beira de um rio ou em qualquer outro lugar, está ali como um mero comtemplador, se ele ficar apenas como comtemplador e não afetar em nada alí já está bom, mas seria ótimo que ele tivesse consciência de que essa água é vital para ele; então que a postura dele de relacionamento com natureza como um todo tem de ser um comportamento de consciência e principalmente de respeito, para não deixar que outros valores que são efêmeros ocupem tanto a vida dele. Se ele voltar à natureza vai perceber que precisa de muito pouco, e esse pouco que precisa é vital. Na cidade é ao contrário: ele se muni de tantas coisas que não são tão vitais assim. E é fácil de perceber que essas coisas que são estimuladas no homem, criam uma necessidade que, em realidade não existe. Se tirar essas coisas dele parece que o mundo acaba, ele não percebeu que vai sucumbir só quando a natureza deixar de fornecer o que ele basicamente precisa, e como ele faz parte desse sistema, dessa relação homem natureza, seria importantíssimo que ele tivesse consciência disso.

  
  

Publicado por em

Andrea santos

Andrea santos

10/08/2011 11:51:55
nosssa, adorei essa entrevista com o NOEL. Como pretendo seguir a profissão de guia de turismo ecológico, me foi muito útil todas as informações, vocês estão de parabéns... :)