Thomaz Brandolin

O EcoViagem conversa com Thomaz Brandolin, aventureiro e empresário.

  
  

O EcoViagem conversa com Thomaz Brandolin, aventureiro e empresário.

ATRAÇÃO PELO MUNDO GELADO

EcoViagem: Mesmo com o boom dos esportes de aventura, hoje ainda há pouca divulgação e informação. Como foi, então, começar no alpinismo no início da década de 80?
T. Brandolin: Foi extremamente difícil. Eu comecei em 1980, quando não existia curso, não existia nada. Você ia treinar nos clubes, mas ninguém sabia onde estavam os clubes. Para mim, foi uma batalha conseguir achá-los. Os próprios veteranos é que te ensinavam. No meu caso, foi aqui no Pico do Jaraguá (São Paulo). Todo domingo eu treinava e eles iam me ensinando sobre as técnicas e os equipamentos. Era realmente uma família, pois eram pouquíssimos escaladores com uma grande dificuldade de conseguir equipamentos, todos importados e caríssimos. Eram coisas tão técnicas que nem dava para pedir para um amigo que estivesse indo para os Estados Unidos comprar. É diferente de você comprar um aparelho de som ou uma filmadora.Você é que tinha que ir para o exterior ou pedir para um amigo alpinista comprar. A minha sorte é que eu fui "paitrocinado" no início e isso aliviou as dificuldades.

EcoViagem: Em 1984, você foi para São Francisco, nos Estados Unidos, onde morou por 3 anos. Morar fora do Brasil foi importante para evoluir dentro do esporte?
T. Brandolin: Morar fora do Brasil é importante para evoluir em todos os sentidos, tanto profissional, esportiva, quanto pessoalmente.Para mim, especificamente no alpinismo, foi importante. Conheci novos e mais modernos equipamentos, novas lojas, alpinistas muito mais experientes e montanhas por perto, com ou sem neve. No caso de quem mora em São Paulo, você está longe das montanhas e no Brasil, em geral, não há nenhuma grande montanha. Essa é a facilidade do estrangeiro: no inverno, às vezes, ele vai esquiar, ele sabe o que é o ambiente de montanha, mesmo que ele não pratique. Aqui no Brasil, a gente não sabe.

EcoViagem: Como você avalia a evolução do alpinismo nesses 20 anos em que esteve envolvido com o esporte?
T. Brandolin: A evolução foi espantosa. Os equipamentos, as técnicas, as informações, os novos lugares...Eu estou impressionado com a quantidade de lugares. Por exemplo, no Estado de São Paulo, na minha época era Jaraguá, Campos do Jordão; Itatiaia, no Rio de Janeiro e Paraná. Não tinha Bragança Paulista, Analândia e outros lugares. A Pedra do Baú tem várias vias e naquela época tinha bem poucas. E o grau de dificuldade em que se está escalando hoje. Quando eu comecei, a via mais difícil do Brasil tinha 6º grau. Hoje, iniciante começa com 6º grau, quase. Existem várias vias difíceis.

EcoViagem: Qual a melhor maneira de enfrentar os perigos, muitas vezes, imprevisíveis em uma montanha?
T. Brandolin: Eu não gosto de usar a palavra imprevisível. Eu acho que tudo tem que ser previsível. São fatores incontroláveis. Você vai para a montanha e não pode falar "ah, eu não sabia que fazia frio, não sabia que podia entrar uma tempestade". Ou tem abelha, cobra, a rocha quebra, ou tem gente que atira lixo lá de cima, no Pão-de-Açúcar ou Corcovado, por exemplo. Você tem que ir para a montanha com experiência, planejando o que você vai fazer e sabendo que existe uma série de coisas que podem acontecer e como se preparar para isso. Você pode quebrar um braço. E aí, como é que teu amigo te resgata?

EcoViagem: Mesmo assim, o número de mortes de alpinistas experientes ainda é grande?
T. Brandolin: É uma atividade de risco. Dependendo do grau de risco que você assume, você está indo para um ambiente perigoso. Quando eu fui para o Everest, em 91, sabia que existia chance de não voltar de lá vivo. Existem avalanches e outras coisas, que não são imprevisíveis. Eu sei que pode acontecer, só não controlo a hora e nem onde. Se acontecer, talvez não tenha solução. Você não consegue transformar uma escalada em um ambiente 100% controlável. A preparação é para minimizar os riscos, mas não os elimina. Uma escalada não pode ser 100% segura. Aliás, nada no mundo é totalmente seguro.

EcoViagem: Qual foi a sua melhor escalada?
T. Brandolin: Não sei se tem melhor escalada... É que nem filho! Bom, depende das circunstâncias. Quando eu estava começando, eu me emocionava muito com as coisas que eu fazia.Talvez as primeiras tenham sido mais importantes. Quando eu escalei o McKinley, no Alasca, eu tinha só 6 anos de alpinismo e fui com um amigo que nunca tinha pisado em neve. Minha primeira expedição no Himalaia foi no inverno. Eu não cheguei ao topo, mas foi uma experiência importante; eu chefiei uma equipe brasileira. As escaladas em rocha em Yosemite, na Califórnia, onde aprendi muito. Mais importante que as escaladas foram as pessoas que estavam comigo. As pessoas é que tornam a escalada importante, não só a montanha. Às vezes, você vai com pessoas com quem você não tem muita identificação. Se é um grupo bom, não precisa nem ser uma montanha difícil.

EcoViagem: No Himalaia, como foi a experiência de conviver com os sherpas, que sobem as montanhas naturalmente, muitas vezes, quase sem equipamento?
T. Brandolin: Os sherpas acrescentam muito em uma expedição. Quando eu cheguei em Kathmandu, para ir para o Everest, os sherpas da nossa equipe foram nos recepcionar no aeroporto. A gente os contratou através de uma agência e não sabia nem quem eram. E entre eles, estava o Ang Rita, super humilde. O cara tinha escalado só 7 vezes o Everest e foi me recepcionar no aeroporto, eu, que só tinha visto o Everest uma vez na vida. Eles são figuras que você dá um super valor. O que se aprende com eles...A habilidade, a naturalidade com que eles convivem nesse meio, às vezes, com menos equipamentos ou de qualidade inferior. Tem expedições que não os contratam, porque existe um custo. Mas é legal ter uma pessoa local. Para mim, o alpinismo não começa na montanha. Começa quando você sai de casa viajando ou até antes, durante a preparação, quando você começa a sonhar, a pôr energia naquilo, compra um equipamento pensando na montanha onde vai daqui a um ano. Tem todo um contexto. Se o Everest fosse no México, em Cancun ou do lado de Miami, não sei se teria a mesma graça. Se fosse no meio de um país de primeiro mundo, super moderno que nem a Europa, que tem teleférico para subir a montanha...

EcoViagem: Eles são mais instintivos do que técnicos?
T. Brandolin: Eles são técnicos e instintivos. A motivação deles é que é outra. Eles não estão atrás da oportunidade da vida deles, subindo uma montanha. Às vezes, é a décima vez que um sherpa está subindo a montanha. O tesão pela montanha é outro. Tanto que, enquanto os ocidentais não foram para o Himalaia, nunca nenhum sherpa tinha escalado. O primeiro homem a subir o Everest sem oxigênio não foi um sherpa, foi um ocidental. Eles nunca tinham tentado. O Ang Rita mesmo, subiu 7 vezes, todas sem oxigênio. Agora ele já deve ter subido umas 14 vezes.

EcoViagem: O Everest é uma montanha muito cobiçada por expedições, que acabam deixando o lixo por ali. O que você acha disso?
T. Brandolin: O ocidental trata a montanha diferente. Ele não lida com aquele ambiente como lida em casa. Nós, na base do Everest, dividimos o acampamento com 2 equipes canadenses e uma delas era poderosa, muito rica, com um orçamento de 750 mil dólares. A gente esqueceu de levar o liquido para a bateria de carro para realimentar as baterias das filmadoras. A gente foi pedir a bateria para eles, que só venderiam se a gente comprasse junto um kit de rádio de não sei quantos mil dólares. A gente só queria a bateria, mesmo porque não tinha dinheiro. Eles não venderam e jogaram no lixo. A sorte é que a gente viu antes dos sherpas, senão eles pegariam para eles. E se ninguém visse, estava uma bateria de carro lá na base da montanha. Canadenses, que se gabam de pertencer a um país de primeiro mundo. E por aí vai, os europeus... É tudo igual. Eles destroem as nossas selvas, a Amazônia, fazem móveis com a nossa madeira, mas o país deles, eles preservam, pois eles são vigiados, fiscalizados e punidos. E não se iluda não; a maioria das expedições para limpar o Everest é uma maneira de conseguir patrocínio para ir para lá, pois é uma causa nobre.

EcoViagem: Você caminhou no Ártico durante 20 dias. O cachorro que te acompanhou era treinado para isso?
T. Brandolin: O cachorro era para me proteger de ursos; para me avisar da presença deles e realmente me proteger caso eu fosse atacado. Ele estava em casa. Ele é um cão-esquimó, que me passava muita tranqüilidade. Depois eu encontrei um holandês, cujo cão não passava tranqüilidade, estava sempre assustado. Foi uma experiência fantástica. Ele me ajudou e me salvou de situações. Quando ele percebia que o gelo estava fino, ele me avisava do jeito dele; me protegeu quando apareceu urso e vigiou o acampamento. Ele salvou minha vida algumas vezes.

EcoViagem: Você estava sozinho com um cão. O que faria se tivesse um problema grave?
T. Brandolin: Eu tinha um rádio. Mas o problema é que, para ele funcionar, você tem que direcionar a antena para a vila, que está a 200km de distância e para saber onde ela está você tem que usar o GPS. Você tem que estar lúcido e enxergando, pois um dos acidentes é você ficar cego de neve. Você tem que montar a antena, que é um processo demorado e não é fácil, pelo fato de estar sozinho. Tem que esticar 2 fios de 15 metros para cada lado. São 2 fios de cobre, só que no frio não desenrola numa boa. Então você prende uma ponta no gelo, que é neve compactada e não tem consistência para prender. Prende uma ponta, 15 metros. Anda no gelo mais 15 metros para fixar a outra ponta e quando você faz isso, a outra escapa. Prende essa, vai até lá e essa solta. Às vezes, esse vai e volta leva um tempão. Aí você esquenta a bateria na barriga. Enquanto prende a antena, você já põe a bateria na barriga, pois demora 1 hora, 1 hora e meia pra esquentar. Você liga no rádio e torce para alguém captar teu sinal. Não é um processo fácil, se você estiver acidentado, ferido ou inconsciente. Ou se você perder o rádio, que pode afundar na água.

EcoViagem: Existia uma equipe com coordenadas para te procurar?
T. Brandolin: Existe o pessoal do avião. Você é colocado no Ártico, no ponto em que vai iniciar, pelo avião, que também vai te buscar no ponto combinado. Com uma freqüência combinada, você passa a posição em que está. Se você desaparecer, eles vão procurar a partir da última posição dada. Você combina o tempo que quer que eles aguardem caso não haja contato. Eu escolhi 3 dias.

EcoViagem: Como é a experiência de estar em lugares que pouquíssimas pessoas vão estar?
T. Brandolin: Quando você viaja, aprende muito. Dizem que o melhor investimento é a viagem. Num tipo de viagem dessas, onde você está sozinho, tendo que tomar decisões a cada momento, se colocando à prova, você aprende muito, principalmente sobre você. É uma terapia. E, se conhecendo melhor, você passa a ser mais tolerante, a se aceitar mais, diminui a ansiedade. Eu me conheci mais, até onde eu posso ir, o que realmente me motiva, o que me dá tesão, o que não me chama a atenção... A gente vai ficando mais velho, evoluindo. Começa a ver que muita coisa é mesquinharia, sua e dos outros. A gente se preocupa com coisas que não têm nada a ver. Lá no Ártico, eu comecei a dar valor para correr no Ibirapuera, num dia de sol e calor. Pouquíssimas pessoas se dão a oportunidade de ficar sozinhas consigo mesmas, se colocar a prova e ver como reagem. Nesse meio urbano, a gente vive protegido, com muletas culturais, artificiais, que nos protegem, mas nos restringem. Muita gente não abre mão dessa proteção a vida inteira. Quer estar na zona de conforto dela 24 horas por dia. A maioria das pessoas não sai da caixa.

EcoViagem: Quais são seus novos projetos?
T. Brandolin: Tenho vários. Estou estruturando um para fazer a travessia do Alasca durante 9 meses. Mas estou pensando em outros: gelo continental na Patagônia; tem uma outra viagem maluca, de 9 meses, mas prefiro não falar por enquanto...

EcoViagem: Você não pensa em mudar de paisagem?
T. Brandolin: Não. Eu fiquei 1 mês no Deserto da Austrália, junto com uns holandeses. Eles achavam do cacete: "Nossa esse lugar é demais". A paisagem para mim era interior do Tocantins, sertão da Bahia. Não tem nada de diferente, a não ser, que não tinha água nenhuma. Eu quero voltar pro Ártico, conhecer a Groelândia, conhecer melhor a Sibéria, o interior do Alasca...São lugares que me atraem mais.

EcoViagem: É possível viver de esporte de aventura aqui no Brasil?
T. Brandolin: Difícil. Eu sou um dos poucos da minha geração que conseguiu passar pela fase difícil da época, onde para ser conhecido era preciso fazer vários projetos e se dedicar. Isso envolve abrir mão de emprego ou um negócio. Na época, o alpinismo não dava dinheiro. Hoje, é mais fácil. Bom, eu vivo de subprodutos da aventura. Além dos patrocínios dos projetos, eu tenho direitos autorais de livros, dou palestras motivacionais para empresas, que são minha maior fonte de renda e tenho uma empresa que trabalha com aventura direcionada para executivos. Através de situações de aventura na natureza, as pessoas aprendem o que é liderança, o que é tomar decisões, trabalhar sobre pressão, a importância da comunicação, estar fora da sua zona de conforto, como lidar com novas idéias e colocá-las em prática, assumir riscos. As pessoas estão vendo que a natureza é uma escola.

  
  

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