Waldemar Niclevicz

O EcoViagem conversa com Waldemar Niclevicz, alpinista paranaense que já trouxe muitas conquistas para o Brasil.

  
  

O EcoViagem conversa com Waldemar Niclevicz, alpinista paranaense que já trouxe muitas conquistas para o Brasil.

LEVANDO O ALPINISMO AO TOPO

EcoViagem: Como você começou a escalar?
W. Niclevicz: É a pergunta que todo mundo me faz! Eu comecei de uma maneira super natural. Na Serra do Mar, em Curitiba, com 15 anos, eu vi pela primeira vez uma grande montanha, que foi o Pico do Marumbi e foi paixão à primeira vista. Eu já era menino do mato; nasci em Foz, vivia subindo nas árvores e quando mudei para Curitiba, acabei redescobrindo a natureza na Serra do Mar, através das montanhas. Na verdade eu não comecei a escalar com 15 anos; comecei a andar, caminhar, acampar... Comecei a fazer montanhismo e, só com 18 anos, quando mudei para Itatiaia (RJ), onde vivi 3 anos, comecei a usar cordas, mosquetões e escalada técnica no Pico das Agulhas Negras. Então entrei para o Grupo de Excursionistas Agulhas Negras e lá comecei de fato a escalar. Também com 18 anos, foi a primeira vez que fui para fora do Brasil, para a Bolívia e Peru, onde tive o primeiro contato com as grandes montanhas, mas sem escalar ainda. A primeira grande montanha que eu escalei foi o Aconcágua (Argentina), em 88, dia 18 de fevereiro, data que considero o início da minha carreira como alpinista, quando comecei a dedicar minha vida integralmente às minhas expedições.

EcoViagem: De que forma o alpinismo se tornou profissão para você?
W. Niclevicz: Eu queria me profissionalizar em alguma coisa, ter um trabalho, uma renda e visualizei isso no turismo de aventura. Na viagem que fiz para Bolívia e Peru, constatei que lá havia agências de expedições e, mais tarde, indo para a Argentina, Chile e depois que voltei do Aconcágua, vi que poderia trabalhar como guia, ensinar as pessoas a escalar montanhas a partir do momento que eu já tinha alguns cursos. Comecei a trabalhar com isso no Brasil. Tive uma agência de expedições primeiro. Trabalhava nos fundos da Mont Blanc, fazendo mochilas para eles e ao mesmo tempo tinha um cantinho onde eu organizava grupos para fazer caminhadas na Serra do Mar, para cavernas, etc. Depois eu me formei em turismo na faculdade, visando trabalhar com turismo de aventura e aí eu montei uma agência com uma amiga da faculdade, a Orion Turismo. A gente quis se especializar em turismo de aventura e naquela época a EMBRATUR lançou o turismo ecológico, em 89, mas não pegou. Só tá pegando agora no Brasil, mas o certo é dizer turismo de aventura e não turismo ecológico. No mundo inteiro se diz turismo de aventura. Mais tarde, com a escalada do Everest, em 95, eu acabei conseguindo o tão procurado patrocínio, com a posição que obtive: o primeiro brasileiro a chegar ao topo da maior montanha do mundo. Abandonei a sociedade da Orion, porque o retorno financeiro era muito pequeno para muito trabalho. Eu podia me dedicar somente aos meus projetos e isso foi fantástico, porque possibilitou que eu tivesse uma ascensão no esporte. Se eu tivesse um trabalho que me tomasse tempo, não daria. Hoje eu dedico esse tempo a escrever meus livros, às minhas expedições, aos meus filmes, minhas fotografias... Todo meu trabalho envolve a montanha, inclusive as palestras que faço para executivos, que são uma forma de eu divulgar o alpinismo, fazendo analogias com a "escalada" que as pessoas fazem no dia-a-dia e a escalada na montanha.

EcoViagem: Como você se sente sendo o alpinista em maior evidência no Brasil, no momento?
W. Niclevicz: É gratificante saber que existe esse reconhecimento da classe dos montanhistas. Acredito que fiz um belo trabalho de divulgação do nosso esporte, colaborando muito para que o montanhismo e outras atividades junto à natureza tenham tido um aumento de interesse pelo público. É bastante gratificante saber que mais pessoas estão se voltando para a natureza, procurando mais a montanha, as floresta, os rios... Foi muito difícil chegar aonde cheguei e poucas pessoas sabem disso. A primeira viagem que fiz para a Bolívia, foi com 110 dólares no bolso, passando inúmeras dificuldades que continuaram até o Everest, quando as coisas começaram a mudar. Mas ainda hoje eu encontro dificuldade em conseguir patrocínio e em viabilizar os projetos. Cada projeto envolve muito mais que a própria escalada, envolve muito trabalho, muito profissionalismo, muita seriedade e planejamento.

EcoViagem: Quando você está na montanha, como administra os incômodos como frio, dores, falta de ar, etc para reunir forças e chegar ao topo?
W. Niclevicz: Todo esse desconforto não me afeta e não me incomoda em nada, muito pelo contrário. Eu tenho um prazer imenso de estar na montanha. Não vou dizer que gosto das pedras duras do caminho, mas não me incomoda esse chão duro, a barraquinha, ficar isolado do mundo durante dois, três meses... Isso faz parte da montanha e eu a aceito como ela é. É um mínimo que um alpinista tem que fazer, se quiser escalar uma montanha. Eu me sinto muito à vontade nesse ambiente. É lógico que fui me acostumando com o tempo. Em cada uma das minhas expedições fui me adaptando e adquirindo o equilíbrio emocional que hoje eu acredito que tenho. Eu sinto saudades, mas a vontade de ficar na montanha é sempre maior. Tem que ter calma e paciência.

EcoViagem: Quando é hora de desistir e voltar?
W. Niclevicz: A hora de desistir é a partir do momento em que você não tem mais condições de ter um controle sobre os riscos. Algumas montanhas são mais arriscadas e perigosas do que outras, mas em todas você pode manter um certo controle desses riscos, se tiver capacidade de avaliá-los. O que acontece, às vezes, é que alguns alpinistas não têm essa capacidade e acabam ultrapassando os próprios limites e se expondo a um perigo desnecessário. Fatalidades, às vezes, acontecem, mas são raras. A maioria dos acidentes é por imprudência ou por falta de respeito à própria montanha. A partir do momento em que se está vendo que o perigo é iminente, que sua vida está correndo risco, aí eu não arrisco. Se for preciso, volto para casa. A montanha continua lá. É lógico que é frustrante, depois de tanto investimento, tempo, dedicação, dinheiro... Você terá que passar por todo esse processo novamente. É um pedaço da sua vida que você tem que repetir. Mas eu poderia ter perdido a minha vida inteira se continuasse insistindo, por exemplo, na primeira vez que fui ao K2 com as condições de tempo do momento. Não adianta você querer superar uma natureza que é infinitamente maior que você, mais poderosa. Você tem que entrar em harmonia com ela.

EcoViagem: Como você interage com a natureza? O que ela significa para você?
W. Niclevicz: Eu tenho uma relação super espiritual com a montanha e com a natureza. É uma relação com Deus também, eu tenho uma fé imensa em Deus. É uma comunhão, uma simbiose; eu sinto troca de energia, sinto necessidade de me dar para a natureza, fazer meu papel como ambientalista, como ser humano e receber os benefícios da natureza. Eu me sinto saudável, relaxado, volto para casa com mais energia. É a melhor parte de tudo o que eu faço. Não é só o fato de chegar no alto das montanhas, mas sim conviver com ela, com a natureza, fazendo parte desse mundo que Deus criou e que muitas vezes o ser humano ignora.

EcoViagem: Valeu à pena correr tantos riscos para conquistar o K2?
W. Niclevicz: Valeu! Valeram todos os riscos que eu corri em todas as montanhas para ter a sensação que eu tive, o êxtase e o prazer. Para tudo na vida é necessário que se corra algum tipo de risco. O importante é saber administrá-los. Não escalaria o K2 novamente, pois vi riscos imensos, pelos quais não estou mais disposto a passar. Foi preciso eu ir até lá para descobrir como era. Não recomendo o K2 para nenhuma pessoa, pois o risco é muito grande. Eu me senti desconfortável.

EcoViagem: Qual a sensação de chegar ao topo?
W. Niclevicz: É difícil de descrever. É um pouco do que eu já falei, uma satisfação muito grande, uma realização enorme, uma gratidão a Deus e aos amigos, que estiveram torcendo e me impulsionando. Isso é muito importante para mim, pois me dá uma grande força.

EcoViagem: Chegar ao Everest foi diferente de chegar ao K2?
W. Niclevicz: Completamente. São montanhas muito diferentes. Parecem tão próximas, mas o K2 é muito mais técnico, mais exigente, fisicamente e emocionalmente. Ele é muito mais estressante, um desgaste violento em todos os sentidos, pois é uma montanha muito fria, que exige de você toda atenção, que não permite que você divague, que você entre em elucubrações espirituais. O Everest é uma montanha difícil, mas é mais envolvente no sentido espiritual, já embasado pela religiosidade que há no Nepal e que não há no Paquistão; a questão da mitologia do Himalaia, do budismo, dos templos, dos monges... É uma montanha sagrada. É uma experiência mais humana com você e mais espiritual com a natureza. É mais transcendental. Por um lado, eu posso dizer que me realizei mais com o Everest, porque eu gosto muito desse lado humano e por outro lado, me realizei muito no K2, porque sou um atleta.

EcoViagem: Na descida do K2, os outros dois alpinistas, o Marco e o Abele, se separaram de você. O que aconteceu exatamente?
W. Niclevicz: Bom, é uma longa história, que vai ocupar um bom pedaço do meu próximo livro. Não dá para explicar rapidamente. Na verdade, eu não perdi a lanterna. Eu abandonei a lanterna na subida. Foi uma imprudência, eu admito, porque eu pensei que desceria enquanto fosse dia. Foi uma burrice! O Marco abandou a mochila e a japona dele a 8.400m, onde estava a lanterna. Eu optei por sair do acampamento sem a mochila. Ao chegar no cume, ele estava morrendo de frio, já começando a ter um princípio de congelamento, que eu só tive durante a madrugada, que passei a 8.400m. Ele desceu na frente, correndo atrás da mochila. Eu e o Abele começamos a descer juntos, porque só ele tinha a lanterna. Foi uma descida dramática, difícil até os 8.400m e impossível depois daí, pois daí até os 8.300m tem um salto vertical de 100m que nós demoramos 10 horas para subir. Nós não conseguiríamos descer os dois com uma só lanterna. Iria acontecer uma tragédia. Eu achei melhor ficar para trás. Eu estava indo na frente e ele meio que me empurrou, "desça, desça!". Chegou um ponto em que eu falei "Melhor você ir na frente, porque dessa maneira eu vou acabar caindo.". Aí ele passou na minha frente e desceu mais do que deveria e mal conseguia me iluminar. Eu desci uns dois lances com muita dificuldade, quase caí duas vezes e no terceiro lance difícil eu falei "Vai você. Daqui eu não desço mais.". Já morreram 30 pessoas ali, quase todas durante a descida e eu não queria ser o próximo. Eu acredito que foi mais seguro ter ficado. Fiquei mais ou menos da meia noite até às quatro dentro de uma greta. Acho que o risco que corri passando a noite ali foi menor do que descer no escuro. Todo mundo ficou preocupado um com o outro. O Marco ficou no meio do caminho, no escuro, esperando a chegada do Abele e sentindo muitas dores nos dedos, que já estavam perdendo a vida. Foi uma história complicada...

EcoViagem: Quais são seus próximos planos?
W. Niclevicz: Eu voltei do K2 há dois meses e ainda não consegui descansar, ou melhor, não consegui relaxar. O sucesso foi tão grande, houve um reconhecimento enorme e estou procurando tirar proveito disso. Eu não posso deixar essas oportunidades passarem. Comecei entrando na EMA (Expedição Mata Atlântica), que para mim é uma forma fantástica de se integrar com a natureza, praticar esportes. Tenho um projeto ousado para o ano que vem, muito ousado! Que é chefiar uma expedição de brasileiros para escalar uma das maiores montanhas do mundo, um dos maiores desafios do alpinismo mundial e que nunca foi feito por um latino americano. Quero que o Brasil seja o primeiro país da América Latina a conquistar essa grande montanha, que eu ainda não pretendo revelar qual é! Será um belo projeto, que contentará muito os alpinistas.

  
  

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