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Zé Pupo

O EcoViagem conversa com José Roberto Pupo, canoísta e proprietário da Canoar, primeira empresa de rafting do Brasil.

13 de Dezembro de 2000.
Publicado por Equipe EcoViagem  

O EcoViagem conversa com José Roberto Pupo, canoísta e proprietário da Canoar, primeira empresa de rafting do Brasil.

MERCADO DE AVENTURA: MUITA QUANTIDADE E MÉDIA QUALIDADE.

EcoViagem: Como você começou na canoagem?
Zé Pupo: Em 83, eu trabalhava com crianças, era professor. Um professor amigo meu fabricava caiaques e falou: "Zé, eu fabrico caiaques. Vou fazer um para você". A gente fez um caiaque, começou a descer e foi uma paixão. Tanto que até larguei um pouco o que fazia e quis ser atleta; queria fazer agronomia e fui para educação física. De lá até hoje, não parei mais.

EcoViagem: E o rafting?
Zé Pupo: O rafting veio da necessidade de ter gente para descer o rio comigo. Eu sempre tinha que convencer alguém para descer de caiaque comigo e era difícil. Quando eu fui competir canoagem, eu via, nos lugares onde ia, botes infláveis e empresas operando com rafting. Eu me animei de comprar um bote, não para montar uma empresa, mas para descer com meus amigos, porque era mais fácil levar a namorada, o amigo, a irmã... Isso foi em 88. Continuei levando os amigos para as descidas. Em 90, o Clube Hebraica me pediu para fazer uma descida comercial, para levar umas pessoas do clube. Assim começou a parte comercial da Canoar, o rafting.

EcoViagem: Quando você começou com o rafting, não existia mercado, ninguém sabia o que era. Como foi levar isso ao público?
Zé Pupo: Foi complicado, principalmente nos quatro primeiros anos. Até 94 a gente tinha quatro botes. Era difícil convercer a pessoa que havia segurança para descer um rio com corredeira. Hoje temos mais de 50 empresas de rafting no Brasil, mas durante aqueles 4 anos, a Canoar era a única. O pessoal pegou o mercado preparado e depois de um certo momento o esporte cresceu para valer. Não só no Brasil; o rafting teve um crescimento no mundo inteiro. Em países turísticos e que têm bons rios, tem rafting.
Foi dfícil convercer as pessoas de que aquilo era uma coisa viável; que não era para loucos e sim para pessoas normais. Qualque pessoa poderia fazer.

EcoViagem: Você acha que o "boom" dos esportes de aventura está abrindo espaço para pessoas despreparadas?
Zé Pupo: Sim. É claro que, eticamente, eu não citaria nomes. Tudo que a gente faz é comércio; o serviço é um tipo de comércio. Mas eu não acho que o turismo de aventura é uma prestação de serviço como o turismo convencional. No turismo convencional, você pode se qualificar rapidamente para prestar esse serviço; bem qualificado e não tão rapidamente. Mas eu acho que o turismo de aventura é um serviço para o esportista de aventura oferecer. A pessoa vivenciou o esporte durante anos, passou por aventuras, aprendeu com erros, etc, estando apta a constituir uma empresa e trabalhar com isso. E hoje no turismo de aventura tem um monte de gente que pura e simplesmente fez as contas de quanto custa um passeio, quantas pessoas dá para levar e montou uma empresa sem ter experiência, conhecimento e sem estar contratando profissionais que tenham essa formação. Eles jogam o preço lá em baixo, porque é o único argumento de venda que possuem e estão pondo em risco uma série de coisas. Isso é ruim para o nosso mercado.

EcoViagem: Que dicas você daria para um iniciante na hora de escolher uma empresa para praticar esportes de aventura?
Zé Pupo: Eu acho que tem que perguntar e não só olhar preço, porque sempre por trás do preço, se a empresa é séria, tem um motivo. É preciso questionar quantos anos a empresa tem, quem é o proprietário, ou melhor, o responsável; qual a experiência que essa pessoa tem, a quanto tempo pratica; quais equipamentos são oferecidos, qual esquema de segurança; e quanto tempo fica no rio, no caso do rafting. Tem empresas que cobram mais barato, mas ficam metade do tempo no rio, não fazem brincadeiras e uma série de coisas que envolvem uma descida e a tornam muito mais legal.

EcoViagem: Existem esportes que estão regulamentados?
Zé Pupo: O único que está regulamentado para valer é o mergulho. Os outros estão em processo de regulamentação.

EcoViagem: E como anda o rafting no quesito segurança?
Zé Pupo: O que eu sei é o que se passa a qui na região sudeste. Nos dois últimos verões, Deus foi muito generoso e não mandou água. Então, os rios não têm estado cheios direto. Dá problema quando o rio está cheio; no nível normal, geralmente é mais tranquilo.
Mas acho que, com a quantidade de empresas que temos hoje em dia, não estamos bem preparados. Poderia estar melhor. Em tudo existe risco, mas é preciso uma preparação.

EcoViagem: Qual é o trabalho da IRF - International Rafting Federation - nesse sentido?
Zé Pupo: A IRF está começando um processo de regulamentação mundial de guias. O guia vai ganhar uma carteirinha que vale para o mundo inteiro, uma habilitação. Mas esse processo ainda está lento. O Brasil já está fazendo a regulamentação profissional que, demorou, demorou, mas começou. Isso é louvável! A CBCa - Confederação Brasileira de Canoagem - começou o projeto piloto; as coisas não estão paradas. Eu estou acompanhando. Acho que até o final do ano que vem, estaremos com lei e quem não estiver regulamentado pela CBCa não poderá operar.

EcoViagem: Essa regulamentação está ligada diretamente à formação do instrutor?
Zé Pupo: Ao instrutor e ao alvará da empresa. O instrutor tem uma avaliação e a empresa também.

EcoViagem: Mas a formação depende da empresa a que o instrutor está ligado?
Zé Pupo: Hoje em dia depende.

EcoViagem: E o que é fundamental para um instrutor?
Zé Pupo: Socorrismo; ele tem que ter todas as qualificações, estando apto a prestar primeiros socorros. A parte de resgate na água e RCP (Ressuscitação Cárdio-Pulmonar); tem que conhecer as técnicas de resgate em rio. Conhecer um pouco sobre orientação, caso seja preciso sair pela mata. Saber se relacionar com as pessoas, que não são como coisas; saber como lidar em uma hora de imprevisto, de sufoco, de acidente (a parte psicológica é muito importante). E técnica de rio, de rafting e condução de bote.

EcoViagem: Como esportista e empresário, você já presenciou falta de profissionalismo?
Zé Pupo: Já presenciei.

EcoViagem: E nesse caso, o que o consumidor pode e deve fazer?
Zé Pupo: Muitas vezes ele nem precebe, pois não tem conhecimento para isso. Só sabe se um serviço é melhor que o outro, se experimentar os dois. Mas tem momentos em que dá para perceber o mau atendimento. Aí tem que botar a boca no mundo. Tem que voltar na empresa, reclamar, dizer "quero meu dinheiro de volta. Não relaxei, não foi agradável e não foi isso que comprei".

EcoViagem: Mas e se acontecer algo mais grave, como um acidente?
Zé Pupo: No caso de um acidente, é preciso ter bom-senso, porque o esporte está sujeito a isso. Então, não se pode culpar a empresa direto. Primeiro, é preciso procurar lavantar o que aconteceu. Se a pessoa não tem dados para isso, tem que procurar a confederação, explicar o que aconteceu no dia para ter certeza de que houve um culpado. Há uma porcentagem de risco, mas vários fatores podem amenizar isso e são obrigação da empresa. Tem que ver se a empresa fez tudo que poderia ser feito. Se a culpa é da empresa, o consumidor tem que ir atrás de seus direitos.

EcoViagem: Os esportes de aventura devem ser regulamentados por lei?
Zé Pupo: Por lei. Não lei interna da Confederação. A Confederação dá um selinho para a empresa que cumpre as normas, mas esse selinho é só um atestado. Só pode operar que tiver o selo, mas é preciso haver leis.

EcoViagem: Em geral, como você avalia o mercado dos esportes de aventura?
Zé Pupo: Está crescendo bastante em quantidade e moderadamente em infra-estrutura e qualidade. O número de adeptos está crescendo mais do que a qualificação. Devemos ficar atentos, pois isso é ruim. Deveria crescer ordenadamente, com gente que realmente tem bala na agulha e sabe o que está fazendo.

EcoViagem: A imprensa tem um papel importante?
Zé Pupo: Tem e é uma grande culpada, porque divulga qualquer um que a procura. As coisas não são checadas. Para divulgar alguém, tem que ter ido lá, feito o passeio, se informado com órgãos que já existam. Um exemplo é o que a imprensa está fazendo com Brotas. Só se fala em Brotas. Ninguém da imprensa está preocupado se a infra-estrutura lá está boa, se já tem gente demais. Apenas querem vender o que a pessoa quer comprar. E para isso existe anúncio. A imprensa vai muito por um modismo.

EcoViagem: Para finalizar, qual é a dica para quem quer experimentar o rafting?
Zé Pupo: O primeiro passo é escolher um rio de acordo com a qualificação. É importante pesar a experiência em aventura. Se a pessoa for iniciante nesse meio, o ideal é um rio básico, classe 2 e 3. Se a pessoa é iniciante no rafting, mas já praticou esportes de aventura, pode escolher uma classe 3 e 4. E o mais importante é observar a empresa, observar os itens que destacamos em uma das questões anteriores.

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