Pólo gesseiro adota lenha sustentável e reduz impacto na caatinga

A lenha sustentável reduz o impacto ambiental sobre a caatinga e, também, o número de autuações e multas ambientais na região.

  
  

Cinco mil hectares de caatinga poupados no semi-árido pernambucano entre novembro passado e julho deste ano. Esse resultado foi possível graças a adoção de lenha sustentável pelo pólo gesseiro do Araripe.

Essa lenha é proveniente de áreas de vegetação nativa com planos de manejo florestal devidamente aprovados pelo Ibama/PE e pela Companhia Pernambucana de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (CPRH). A área equivale a cinco mil campos de futebol.

O fato ocorreu no maior pólo gesseiro do País e da América do Sul, localizado no Sertão do Araripe, a 700 km de Recife, próximo da divisa com Ceará e Piauí. Cerca de 400 empresas dos municípios de Araripina, Ipubi, Trindade, Bodocó e Ouricuri integram o Arranjo Produtivo Local (APL) do Gesso da Região do Araripe Pernambucano. Juntas, geram 12 mil empregos diretos e aproximadamente 60 mil indiretos, produzindo 2,8 milhões de toneladas de gesso por ano. O pólo é responsável por 95% da produção de gipsita do Brasil.

O programa Mata Nativa do Ibama/PE foi responsável pela solução encontrada para o antigo problema ambiental do pólo gesseiro que colocava empresários e órgãos ambientais em conflito constante. No momento, 15% da lenha utilizada no aquecimento dos fornos são de origem ambientalmente correta do próprio pólo.

A lenha sustentável reduz o impacto ambiental sobre a caatinga e, também, o número de autuações e multas ambientais na região. "O plano de manejo florestal se transformou em importante ferramenta de gestão ambiental", observa Francisco Campello, engenheiro florestal e integrante da equipe do Projeto Conservação e Uso Sustentável da caatinga do Ibama, Ministério do Meio Ambiente e Programa de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (Pnud).

Conscientização antes, multa depois:

Um total de 51 empresas do pólo gesseiro foram autuadas pelo Mata Nativa. Um ano antes, porém, Ibama, Ministério do Meio Ambiente e Sebrae realizaram campanha de conscientização sobre a capacidade da caatinga se regenerar, demonstrando tecnologia e técnicas disponíveis para o manejo sustentável, de acordo com Campello.

O Sebrae em Pernambuco foi importante parceiro na etapa da conscientização dos produtores de gesso nos cinco municípios integrantes do APL do Gesso, diz o engenheiro. "O que vem ocorrendo no Araripe mostra que é viável manter a matriz energética baseada na queima de biomassa, desde que feita com uso da tecnologia e conhecimento técnico".

No momento, Ibama/PE e Sebrae/PE estão discutindo um programa de eficiência energética a ser implantado no pólo. "Já temos um forno mais eficiente e vamos trabalhar com oficinas e capacitações. Há pequenas ações que podem garantir mais energia com menos lenha", diz Campello.

Segundo levantamento do Ibama/PE, o pólo gesseiro do Araripe consome 1,5 milhão de metros cúbicos de lenha por ano. Depois da adoção do plano de manejo florestal, 15% das empresas já estão utilizando lenha aprovada pelo Ibama/PE e CPRH do próprio pólo. Há nove meses, eram apenas 3% delas. Lenha autorizada oriunda da poda dos plantios de caju e algaroba de outras regiões da caatinga é utilizada por 65% das empresas. O restante (20%) usa lenha proveniente de matas nativas derrubadas para uso alternativo do solo (agricultura e pecuária).

Dessa última parcela (20%), mais da metade é lenha ilegal, isto é, sem licença adequada de retirada. Os empresários do pólo que insistem em utilizá-la estão sujeitos a multas, entre outras punições, previstas em lei. "Falta pouco para esse pólo atingir 100% de uso de lenha sustentável. A idéia é estimular a adoção do plano de manejo florestal, inclusive nas áreas onde se tira lenha das sobras da poda do caju e algaroba", acrescenta Campello.

Corte raso ou talhadia simples:

Durante décadas, a lenha utilizada nos fornos do pólo gesseiro do Araripe era retirada da mata nativa da caatinga, sem maiores cuidados e provocando desmatamento. Com a conscientização ambiental, ela foi substituída pela queima de óleo BPS (derivado de petróleo), apesar da emissão de gases de efeito estufa.

Em 2001, em decorrência da retirada do subsídio para o óleo BPS, pelo Governo Federal, a vegetação da caatinga voltou a ser parte da matriz energética para o aquecimento dos fornos. "Os custos da queima do óleo BPS se tornaram impraticáveis, pois acompanham o dólar", conta Charles Gerlanne Alencar de Barros, diretor da Gesso São Geraldo, empresa com 13 anos de atividade no município de Trindade. "A indústria do gesso teve que, forçadamente, consumir lenha da caatinga", justifica o empresário.

Charles foi o primeiro empresário do pólo gesseiro a investir no plano de manejo florestal para a retirada de lenha da caatinga. Em 2001, adquiriu uma área de 1,1 mil hectares de caatinga para realizar o plano de manejo. "Precisava encontrar uma alternativa, inclusive para diminuir a emissão de gases". A rotina de autuações e multas dos órgãos ambientais aos produtores de gesso tinha de parar.

Seguindo a orientação do engenheiro florestal e plano de manejo, o empresário dividiu a área de vegetação nativa em 14 talhões. "Retiramos a lenha do talhão número um em 2001", informa. "Serão necessários catorze anos para chegar ao décimo quarto talhão", revela Charles.

No momento, o talhão de número sete está fornecendo lenha para a Gesso São Geraldo e outras empresas do pólo. "Não tenho de plantar eucalipto ou outras espécies de árvores. Não alteramos o bioma caatinga", ressalta.

A retirada da lenha é feita por meio da talhadia simples ou manejo de cepa, que significa processo de poda, sem utilização de fogo, deixando tocos e raízes. Árvores frutíferas ou protegidas por lei são poupadas. "A vegetação se regenera num período entre dez e quinze anos", explica Campello. Essa técnica preserva a flora e fauna da caatinga que, renovada, absorve todo o carbono emitido pela queima da lenha. "Ou seja, o balanço energético é zero", acrescenta o engenheiro florestal.

No início, durante reuniões do APL e da Assogesso, Charles falava a respeito de sua iniciativa, mas não conseguia despertar interesse. "Poucos empresários acreditaram e continuaram a produzir com lenha ilegal", se recorda.

O que começou como alternativa de matriz energética para seu negócio se transformou no segundo produto da Gesso São Geraldo. "Recentemente implantamos a lenha picada (cavaco) e conseguimos reduzir em até 40% o consumo dela nos fornos", revela.

"O plano de manejo em si virou negócio", diz ele. A iniciativa de Charles faz sucesso. O empresário já deu várias entrevistas a respeito, até para mídia estrangeira. A Gesso São Geraldo foi agraciada com o prêmio 'Pernambuco que dá certo' do Diário de Pernambuco, em março passado. Foi a única empresa do pólo gesseiro do Araripe a recebê-lo.

Fonte : Agência Sebrae

  
  

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