Sede da CNEN no RJ é fechada por oito horas em protesto contra insegurança nuclear

Ativistas do Greenpeace fecharam por oito horas, nesta quinta-feira, a sede da Comissão Nacional de Energia Nuclear, no Rio de Janeiro, em protesto contra a insegurança nuclear no país. O protesto, que aconteceu no dia do anivers&aacu

  
  

Ativistas do Greenpeace fecharam por oito horas, nesta quinta-feira, a sede da Comissão Nacional de Energia Nuclear, no Rio de Janeiro, em protesto contra a insegurança nuclear no país. O protesto, que aconteceu no dia do aniversário de 20 anos da tragédia do césio-137, ocorrida em Goiânia, tem dois objetivos: expor os riscos da tecnologia nuclear e a falta de estrutura do governo brasileiro para garantir a segurança do setor no país; e prestar solidariedade às vítimas do acidente radioativo em Goiás. Em homenagem às pessoas contaminadas, um memorial foi cimentado à calçada em frente ao prédio da CNEN. O protesto começou às 10 horas da manhã e foi encerrado às 18 horas.

"A CNEN não ofereceu resposta alguma às demandas da sociedade civil e mandou a PM carioca para lidar com uma situação que é de sua responsabilidade. Nosso confronto é com o governo federal e seu programa nuclear, não com os soldados da PM", afirmou Marcelo Furtado, diretor de campanhas do Greenpeace Brasil que esteve no local.

Os ativistas se acorrentaram aos portões da sede da CNEN e exibiram faixas lembrando o acidente do césio-137 e exigindo a não construção da usina nuclear Angra 3. Policiais militares chamados pela diretoria da CNEN cortaram as correntes e derrubaram o memorial, agindo por vezes com truculência ao protesto pacíficio, chegaram a espirrar gás de pimenta no rosto de alguns atividades. Nenhum deles, entretanto, foi preso.

Uma mensagem SMS (torpedo) foi enviada por telefone celular para os colaboradores do Greenpeace no Rio de Janeiro, convidando-os a ir ao local da ação para prestar homenagem às vítimas do césio-137.

“Com a tragédia do césio -137, o Brasil sentiu na pele os efeitos devastadores de um acidente nuclear. Passados 20 anos, pouca coisa mudou: o Estado não reconhece nem ampara todas as vítimas, não tem capacidade estrutural de lidar com as instalações nucleares já existentes e não resolveu definitivamente a questão do lixo radioativo”, afirma Rebeca Lerer, da campanha anti-nuclear do Greenpeace.

“Ainda assim, o governo do presidente Lula quer investir bilhões de reais de dinheiro público na construção da usina nuclear Angra 3 e no ciclo de enriquecimento de urânio, o que deve agravar os problemas de segurança já existentes. É simplesmente inaceitável. A sociedade brasileira deve se mobilizar para dar uma resposta à altura: não queremos a ameaça nuclear”.

O acidente do césio-137, ocorrido em setembro de 1987, é considerado o pior acidente radiológico em área urbana do mundo. De acordo com a Associação das Vítimas do Césio-137, 60 pessoas morreram e mais de 6 mil foram expostas à radiação. Tudo começou quando dois catadores encontraram uma peça de metal no prédio abandonado do Instituto Goiano de Radioterapia, na capital do estado de Goiás. Vendida a um ferro-velho, a peça continha uma cápsula de césio- 137, um elemento altamente radioativo. A cápsula foi rompida a céu aberto e acabou contaminando os moradores do local.

Também no dia 13 de setembro, em Goiânia (GO), o Greenpeace participou do ato promovido pela Associação das Vítimas do Césio 137 na Câmara Municipal de Vereadores, que incluiu uma série de debates sobre a atual situação dos radioacidentados e problemas de segurança nuclear no país. Está programada para o final do dia de hoje uma marcha com cerca de 250 pessoas segurando velas acesas até a Rua 57, local onde moravam os catadores que encontraram a cápsula de césio -137.

Na época do acidente, o despreparo governamental em lidar com a situação foi evidenciado pela demora em identificar a causa da contaminação e pela reação improvisada da CNEN, que até hoje é o órgão federal encarregado de fiscalizar e controlar as atividades nucleares brasileiras. Mais recentemente, a falta de capacidade de controle e os problemas estruturais da CNEN foram detalhados no relatório Fiscalização e Segurança Nuclear, publicado em 2006 pelo Grupo de Trabalho da Comissão do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados.

Entre as principais conclusões do relatório, destaca-se a dupla função da CNEN. O documento indica que, ao acumular os papéis de fomentadora e reguladora das atividades nucleares, a CNEN torna-se fiscal de si mesma, o que está em desacordo com diversas convenções internacionais de segurança nuclear. Um exemplo concreto desta dupla função é o fato de que a CNEN é a controladora da INB – Indústrias Nucleares do Brasil, responsável pela mineração de urânio e fabricação de combustível nuclear no país.

O relatório da Câmara dos Deputados estima ainda que cerca de mil fontes de radioatividade encontram-se sem controle no Brasil e chama a atenção para a falta de confiabilidade do banco de dados da CNEN. Outro ponto ressaltado na investigação do Congresso é a ausência de base legal para a atuação de fiscais e a inexistência de legislação que tipifique infrações e penalidades no setor nuclear.

Para o Greenpeace, o governo federal deve suspender a expansão do parque atômico brasileiro, não construindo Angra 3, e adotar medidas emergenciais para garantir a segurança das instalações nucleares em operação no país.

A entidade apóia as propostas da Comissão do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados, especialmente a criação de órgão regulador autônomo e independente na área de salvaguardas, radioproteção e segurança nuclear, a criação de arcabouço legal para a atividade reguladora através da adoção de um sistema federal de fiscalização do setor nuclear e leis específicas, além do livre acesso público aos dados e informações na área de radioproteção e segurança nuclear.

Esta semana, o Greenpeace, em parceria com entidades locais, realizou atos públicos em memória às vítimas do acidente com o césio-137 em Salvador (BA) e São Paulo (SP). hoje (sexta-feira), a entidade vai protocolar no Palácio do Planalto e no Congresso Nacional, em Brasília, um manifesto de solidariedade às vítimas de Goiânia e sobre insegurança nuclear assinado por dezenas de parlamentares e instituições de todo o país.

Fonte: Greenpeace

Del Valle Editoria

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