Agricultura orgânica cresceu nos últimos dez anos no País

Um dos ensinamentos clássicos do capitalismo liberal diz que o valor de um produto é determinado pelo mercado. A regra se aplica exatamente aos alimentos “orgânicos”, que, na década de 60, foram abandonados em detrimento do uso massivo de insu

  
  

Um dos ensinamentos clássicos do capitalismo liberal diz que o valor de um produto é determinado pelo mercado. A regra se aplica exatamente aos alimentos “orgânicos”, que, na década de 60, foram abandonados em detrimento do uso massivo de insumos químicos na agricultura e a conseqüente produção de hortaliças, frutas e cereais mais vistosos, porque, naquele momento, resistiam mais às doenças.

Em função dessa revolução tecnológica, hoje, em sua quase totalidade, a mesa do homem moderno inclui alimentos que cresceram à base de produtos da indústria química, seja em função da adubação ou do combate a ervas daninhas, insetos, fungos, vírus e bactérias.

A produção de alimentos com técnicas tradicionais passou mesmo a ser depreciada, por não serem tão `bonitos` e `crescidos`, como aqueles que levavam adubação química. Quem nunca comprou um tomate por questões estéticas? Quanto maior, mais firme e vermelho, melhor.

Hoje, sabe-se que o uso de insumos no plantio - como adubos químicos, inseticidas, fungicidas e herbicidas - pode causar problemas à saúde de quem os aplica, ao meio ambiente e à saúde dos consumidores. Com o volume de descobertas nesse sentido, o caminho, agora, é inverso.

Os produtos orgânicos, nos últimos 10 anos, ganharam espaço nas prateleiras dos supermercados das grandes cidades, principalmente a partir do gosto dos consumidores de classe alta. Isso porque o preço para quem exige esta qualidade ainda é mais alto.

Em muitos estados brasileiros, produtores, principalmente os de base familiar, adotaram a agroecologia como opção e “filosofia de vida”, como classifica o pesquisador da área de transferência de tecnologia da Embrapa Soja, o agrônomo Lineu Domit.

A unidade de pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária está sediada em Londrina (PR) e estuda opções para a melhoria na produtividade da leguminosa, incluindo aí ações para o combate de seus inimigos naturais.

Os principais são as ervas daninhas (que disputam luz, espaço, nutrientes presentes no solo) e insetos como a lagarta da soja e o percevejo, chamado em algumas localidades de fede- fede.

`Esses produtores simplesmente não querem mais usar produtos químicos, porque constataram que há mais prejuízos que ganhos, inclusive econômicos. Como são pequenos agricultores, não conseguem pagar herbicidas e inseticidas, muito caros dentro do custo de produção`, comenta o pesquisador.

Segundo Domit, só os herbicidas podem representar de 17% a 20% do custo da lavoura familiar, que, em geral, não contabiliza custos de mão-de-obra - trabalhadores são contratados apenas em épocas específicas, como a capina e a colheita.

A tecnologia trouxe mais recentemente outra opção ao consumidor e ao produtor, os transgênicos. Com a produção ainda não regulamentada no Brasil, os alimentos geneticamente modificados são produzidos principalmente no Rio Grande do Sul e trouxeram uma nova realidade à agricultura brasileira.

O plantio ainda está restrito à soja modificada - no caso, a Roundup Ready, desenvolvida pela multinacional norte-americana Monsanto. Resistente ao herbicida glifosato, a soja RR, como é chamada, permite que o produtor aplique o produto diretamente na planta.

No plantio convencional, só se usa o glifosato na fase de preparo do solo, conhecida como pré-emergência, e, depois, nas entrelinhas, na pós-emergência, quando a planta já emergiu e está pequena.

Produzida em propriedades maiores, com intensa ocorrência de ervas daninhas, a soja RR atende às necessidades de agricultores que não conseguiriam deter a infestação a tempo pelo sistema manual, adotado nas unidades familiares.

Eles argumentam ainda que a quantidade de princípio ativo aplicada na variedade transgênica é bem menor do que no plantio convencional, perto dos 50%, e classificam o fato de vantagem ambiental e econômica. No mercado, esse diferencial ainda não se refletiu, pois o preço da variedade transgênica é semelhante ao da convencional.

De acordo com o coordenador das unidades produtivas da Cotrimaio - Cooperativa Agropecuária Alto Uruguai, Nelson Hammes, paga-se R$ 34,40 pela saca de 60 quilos de soja convencional sem certificação, enquanto a soja comprovadamente não modificada é comprada dos produtores por R$ 35,78, e a transgênica é cotada da mesma forma que a primeira.

Animais “naturebas”

Em compensação, o preço de mercado da soja orgânica comprova o valor de se adquirir um produto isento de químicos, considerado mais saudável pelo consumidor. Tanto que a saca é cotada em dólar. São pagos US$ 15 pela soja para consumo humano e US$ 12,5 pela soja destinada à ração animal.

A Cotrimaio, cuja sede fica em Três de Maio (RS), desenvolve o programa Produção Orgânica desde 99, que conta, hoje, com 150 produtores da região noroeste do estado. A cooperativa compra outros grãos orgânicos, como milho e trigo, os quais, respectivamente valem 40% e 30% a mais que os convencionais.

Segundo Hammes, a maioria dos produtores orgânicos planta em unidades de, no máximo, 30 hectares. `Dois deles apenas têm propriedades de 60 hectares`, afirma o técnico agrícola.

Hammes faz uma previsão otimista, em termos de mercado, caso as culturas geneticamente modificadas sejam liberadas.Ele acredita que o preço das culturas convencionais, também comercializadas pela cooperativa, suba em relação às transgênicas.

`No caso da soja, como o plantio é ilegal, o produtor acaba não pagando os royalties para a empresa que detém a tecnologia na hora de comercializar o produto. Na medida em que estiver legalizado, o produto sairá automaticamente mais caro`, prevê.

A cooperativa, garante ele, é a favor da liberação, mas pede a rotulagem para informar ao consumidor quando um produto for geneticamente modificado.

`A decisão tem que ficar na mão de quem consome`, completa.A soja orgânica é exportada pela Cotrimaio principalmente, para França, Alemanha e Dinamarca. O valor mediano, segundo Hammes, é de US$ 300 a US$ 400 a tonelada.

`Isso inclui custos de embarque, contêineres usados no porto e o transporte feito de navio`, explica o técnico.

A cooperativa trabalha com outros produtos orgânicos vendidos no mercado, como o açúcar mascavo, melado, leite de soja, farinha de trigo integral, farinha de trigo especial, farinha de milho, farinha de centeio, gérmen de trigo, leite e farinha de mandioca.

O diretor técnico da empresa compradora de grãos e cereais orgânicos Terra Preservada, Luiz Cláudio Bona, também acredita que a liberação dos transgênicos, especificamente da soja, que está com estudos e plantio adiantados, refletirá positivamente no mercado.

Para ele, os produtos orgânicos terão o preço ainda mais valorizado, porque o consumidor acabará preferindo o produto ecológico.

`Mas ele acabará não pagando mais porque, apesar de o orgânico ser um produto elitizado, há uma tendência de aumento na oferta e isso faz qualquer produto baratear`, avisa.

Apesar do otimismo com relação ao comportamento no mercado, Bona antevê uma imposição ainda maior aos orgânicos da apresentação de contraprova.

`Com a liberação, haverá mais lavouras transgênicas e, aí, mais chance de contaminação das culturas orgânicas. Isso talvez se reflita um pouco negativamente no mercado para o produto orgânico`, avalia.

Hoje, para comprovar a origem do produto, todo orgânico é certificado, uma exigência das empresas compradoras internamente e também no exterior. Os produtos, comprados pelo sistema de parceria, diretamente do produtor, pela Terra Preservada, são certificados pelo Imo - Instituto para o Mercado Orgânico.A empresa certificadora é de origem suíça, tem sede em São Paulo e fiscalizada as propriedades desde a época do plantio.

`É uma incoerência. Um produto que é bom para a saúde de todos, como o orgânico, ser penalizado com a necessidade de se comprovar como tal. Mas, enfim, é a lógica de mercado`, resigna-se Bona.

A Terra Presevada atua nos estados de Mato Grosso, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, comprando soja para consumo humano e animal, feijão preto, feijão carioca, feijão azuki, arroz, milho, trigo, centeio, erva-mate e ainda açúcar mascavo.

A filosofia da conservação ambiental e de vender um produto de qualidade também está na linha de atuação da Apol - Associação dos Produtores Orgânicos de Londrina. Com 30 produtores familiares associados, a entidade compra soja, café, produtos da oleicultura e frutas para vender no mercado interno.

A Apol foi fundada em 1999 justamente porque um grupo de seis agricultores fez a opção de se livrar dos produtos químicos, por motivos de saúde.

`Estavam contaminados por aplicarem agrotóxicos em suas culturas`, explica a assistente técnica Juliani Gambini.

Hoje, numa parceria com o Iapar - Instituto Agronômico do Paraná, os produtores usam variedades produzidas nos laboratório e recebem assistência técnica. A certificação é feita pelo Instituto de Desenvolvimento Biodinâmico de Desenvolvimento, de Botucatu (SP).

A vantagem econômica, em relação aos produtos convencionais e transgênicos, é de 25% a 30% a mais no preço de mercado, principalmente no caso de grãos e cereais, de acordo com Juliani.

Fonte: Agência Brasil

  
  

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