Botos sofrem matança desordenada no entorno de Mamirauá (AM)

Os pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) alertam para um problema grave que está acontecendo no entorno da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (RDSM): a matança desordenada de bot

  
  

Os pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) alertam para um problema grave que está acontecendo no entorno da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (RDSM): a matança desordenada de botos. Alguns animais foram encontrados mutilados por anzóis e redes de pesca. Segundo a pesquisadora do INPA e do projeto Boto (RDSM), Vera da Silva, a cena é triste, mas serve de alerta para as agressões que os golfinhos de água doce: boto- tucuxi, Sotalia fluviatilis, e o boto-vermelho ou cor-de-rosa, Inia geoffrensis, estão sofrendo.

A matança está acontecendo porque os animais servem de iscas para a pesca do peixe piracatinga, Calophysus macropterus, o qual é apreciado como alimento na Colômbia e encontrado em muitas partes da bacia do Amazonas, por exemplo, na área coberta pela RDSM.

A piracatinga é um peixe necrófago, ou seja, alimenta-se de cadáveres de animais aquáticos, por isso, ele não é consumido do lado brasileiro. Dessa forma, toda a pesca é exportada para o país vizinho por meio de barcos lotados com o peixe, além de outras espécies de peixe-liso. “Os barcos sobem pelo município de Tefé deixando o gelo nas comunidades ou com os pescadores e quando voltam coletam o pescado e, junto, a piracatinga. Existe também um outro ponto que sai de Fonte Boa direto para Tabatinga até chegar na Colômbia”, explicou Silva.

A situação foi constatada durante as expedições feitas pela equipe do projeto Boto, o qual é desenvolvido na reserva Mamirauá desde 1992. Durante os trabalhos de campo, os cientistas capturam, marcam e soltam os animais para, então, realizar o monitoramento da variação populacional. Por meio do dados coletados, foi constatado a diminuição do número de botos, que até 2000, era previsível e normal.

Além da equipe do projeto Boto, existem outros técnicos e pesquisadores que fazem o monitoramento dentro da reserva. Eles detectaram os mesmos problemas nas proximidades de Mamirauá e em algumas localidades entre Coari e Tabatinga. Segundo Silva, existem comunidades que estão, praticamente, sobrevivendo da pesca da piracatinga. Contudo, não é só o boto que está sofrendo, o jacaré também, mas a preferência continua sendo pela carne do boto. “Como ele é um mamífero, a musculatura é mais rígida, com isso, a isca dura mais. Quando o animal é esquartejado pelos pescadores, ele solta muita banha atraindo a piracatinga. Ela é puxada com as mãos para dentro de caixas de madeira dentro d'água”, disse Silva.

“Nos últimos quatro anos estamos capturando animais com cabos de nylon em volta da cauda, o que indica que foram mantidos amarrados. Outros foram encontrados com restos de malhadeira e cabos de nylon presos pelo corpo, provocando lesões sérias, inclusive alguns correndo o risco de perder a cauda. Também encontramos animais com a nadadeira peitoral cortada, com ferimentos feitos por objetos pontiagudos com nomes escritos e até mesmo animais retalhados”, resignou-se Silva.

De acordo com a pesquisadora, os botos se alimentam de peixe e aprenderam que rede na água é sinal de comida fácil e tentam tirá-la da malhadeira. Todavia, quando tentam livrar-se da rede podem morrer e/ou destruí-la. “Devido a isso, os pescadores, de um modo geral, não gostam do boto, mas ainda assim, existia os que protegiam. No entanto, nos últimos sete anos começou há haver uma captura direta. Até então, as mortes dos botos nas redes eram acidentais ou provocada pelo pescador quando o animal ameaçava sua pesca. Mas, agora, não, está havendo uma matança indiscriminada”, lamentou Silva.

Conforme algumas entrevistas feitas pela equipe do projeto com os moradores das comunidades da região, a matança está associada à encomendas dos donos dos barcos e de comerciantes que levam os peixes à Colômbia. Além disso, os peixes capturados não entram nas estatísticas pesqueiras do Estado, pois não são comercializados do lado brasileiro. “Acreditamos que os colombianos não sabem que estão levando gato por lebre, porque a piracatinga é necrófaga”, afirmou.

Em relação às medidas para conter a situação, a pesquisadora afirmou que denunciou as ocorrências para o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e está aguardando uma posição. “O Ibama não tem fiscais suficientes para fiscalizar toda a Amazônia. Além do mais, os fiscais precisam pegar o infrator em flagrante, o que é quase impossível. A saída, então, é o controle maior do que é pescado, no caso, a piracatinga, pois sabe-se qual é o destino”, destacou.

Processo de vida do boto – Semelhante ao do homem, ou seja, com fases bem definidas: filhote, infantil, juvenil e adulta, ele pode viver por até 45 anos. A fase de reprodução da fêmea inicia-se aos oito anos de idade, enquanto a do macho acredita-se que com 10 anos ou mais. A fêmea tem apenas um filhote por gestação, que dura quase um ano. Durante os dois primeiros anos, ela dedica toda a atenção à amamentação do seu filhote. Devido a isso, a próxima gestação acontecerá somente no terceiro ano.

“Alguns pescadores acreditam que os botos se reproduzem como coelhos, o que não é verdade. Quando se tem uma retirada maior do que a reposição de animais na natureza, há o decréscimo rápido e considerável da população”, alertou Vera da Silva. Ela disse que antes da matança o boto-vermelho estava na categoria vulnerável, um tipo de classificação de conservação, a qual sub-divide-se em: vulnerável, ameaçado e criticamente ameaçado. Entretanto, caso a pressão continue da forma atual ele, rapidamente, entrará na categoria ameaçado.

Na China – A única espécie de golfinho de água doce da China, Lipotes vexillifer, foi, recentemente, declarada tecnicamente extinta. A declaração foi feita após uma expedição realizada em novembro de 2006, que reuniu 26 especialistas de todas as regiões do mundo. Na época, eles procuraram pelos animais, durante três semanas, por todo o rio Yang-Tsé, também conhecido como rio Amarelo, e não encontraram um único indivíduo.

No passado, o rio Amarelo era semelhante ao rio Amazonas, margens com grandes várzeas e repleto de golfinhos ou botos. Contudo, em conseqüência dos projetos de desenvolvimento e da grande população chinesa, o rio foi totalmente alterado perdendo as características naturais. “Nem a caça comercial de baleias levou à extinção das mesmas como a alteração do meio ambiente levou os golfinhos da China. Eles são a primeira espécie de cetáceo, que incluem as baleias e os golfinhos, extinta”, alertou Vera da Silva.

Segundo a pesquisadora, os golfinhos de água doce da China não eram mortos deliberadamente como está acontecendo na Amazônia. Mas, a alteração do hábitat, por exemplo, a construção de barragens de rios para fins de irrigação e geração de energia, sobrepesca, morte acidental em aparelhos utilizados na pesca levou a extinção da espécie. “Temos que ter cuidado com o boto da Amazônia, pois ele só ocorre aqui e não pode ser extinto por causa de um peixe que é exportado para outro país. Vale ressaltar que não sabemos se eles também estão sendo dizimados em outras partes da região porque o projeto só abrange a área de Mamirauá”, destacou.

Projeto boto: Dedicado à pesquisa de duas espécies de golfinhos que ocorrem na bacia Amazônica – o Boto Inia geoffrensis e o Tucuxi Sotalia fluviatilis, o projeto com os golfinhos foi iniciado em 1993 pelos pesquisadores Vera da Silva (INPA) e Anthony Martin, do Conselho de Pesquisas do Ambiente Natural do Reino Unido (NERC). Desde a sua primeira expedição, em janeiro de 1992, o projeto vem crescendo a cada ano e atualmente possui uma base de pesquisa, voadeiras e a presença contínua no campo de pelo menos três pessoas.

(Fonte: Luís Mansuêto / Ascom-INPA)

  
  

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