Conservation International e SOS Mata Atlântica lançam coletânia de artigos sobre a Mata Atlântica

Aconteceu na manhã de ontem (27), em São Paulo, o lançamento da coletânea dos artigos finalistas do Prêmio de Reportagem sobre a Biodiversidade da Mata Atlântica 2002, no Auditório do Citibank da Avenida Paulista. Criado em 1999 por uma iniciativa da Cons

  
  

Aconteceu na manhã de ontem (27), em São Paulo, o lançamento da coletânea dos artigos finalistas do Prêmio de Reportagem sobre a Biodiversidade da Mata Atlântica 2002, no Auditório do Citibank da Avenida Paulista. Criado em 1999 por uma iniciativa da Conservation International (CI), do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ) e da Federação Internacional de Jornalismo Ambiental (IFEJ), o Prêmio foi introduzido no Brasil em 2001, numa parceria entre a CI e a fundação SOS Mata Atlântica.

Seu principal objetivo, segundo Haroldo F. Castro, Vice-presidente do Departamento de Comunicação Internacional da CI e Diretor Geral do Prêmio, é “inspirar a produção de uma maior quantidade e uma melhor qualidade de artigos sobre a questão ambiental, assim como reconhecer publicamente as melhores reportagens que já estavam sendo escritas. Decidimos também que a maior parte dos fundos deveria ser utilizada no treinamento e na capacitação profissional dos ganhadores”.

No evento de ontem, aberto ao público, estavam presentes os autores das sete reportagens finalistas do Prêmio do ano passado: Liana John, da Agência Estado, Maria Fernanda Vomero, da Revista Superinteressante, Mauricio Tuffani, da Revista Galileu, Ana Paula Luckman, de A Notícia (Joinville, SC), Carlos Fioravanti, da Revista Pesquisa Fapesp, Guilherme Sierra, da Revista do Explorador e Rachel Martins, da Gazeta de Vitória (ES); além de jornalistas, ambientalistas, estudantes e convidados ilustres, como o pioneiro da causa ambiental no país, Dr. Paulo Nogueira Neto, envolvido como com a questão desde a década de 50.

Segundo a assessoria de comunicação da SOS Mata Atlântica, o lançamento dessa coletânea visa transformar o trabalho jornalístico dos vencedores do Prêmio em ferramenta de educação ambiental. O material será distribuído para ONGs da Mata Atlântica e instituições governamentais que desenvolvem atividades de educação ambiental, além de escolas de primeiro e segundo graus.

Durante o evento, a jornalista da Agência Estado, Liana John, grande vencedora da última edição do Prêmio com a reportagem “Siga a anta: ela é um detetive ecológico”, ministrou uma interessante palestra traçando a trajetória do Jornalismo Ambiental no Brasil. Complementada com ricos comentários de participantes ali presentes, a palestra foi uma verdadeira aula para os estudantes de jornalismo, que tiveram uma preciosa oportunidade para esclarecer muitas de suas dúvidas sobre a questão. Confira abaixo a entrevista que Liana concedeu ao EcoViagem:

EcoViagem: Você deu um panorama da evolução do Jornalismo Ambiental no Brasil. Por que razões você acredita que, no início, não lhe era dada credibilidade (ao Jorn. Amb.), ou seja, o que justifica essa falta de visão dos editores e donos dos jornais?
Liana: Nos anos 70, Ecologia era uma ciência nova em todo o mundo (nem sempre tratada como ciência, inclusive) e as preocupações ambientais apenas começavam a tomar vulto. Não se falava em desenvolvimento sustentável, nem em biodiversidade, quanto mais na sua importância. A par disso, o Brasil vivia uma ditadura e a atenção dos jornalistas estava voltada para as questões políticas e econômicas, de modo que escrever sobre meio ambiente era algo marginal, considerado um tema secundário, sem importância.

EcoViagem: A partir de quando as coisas começaram a mudar? Você acredita que a Eco 92 tenha sido um marco? Por que?
Liana: As coisas começaram a mudar nos anos 80, com a distensão política e coincidindo com uma atuação maior do Ministério Publico na área de Direito Ambiental (que também praticamente inexistia, antes). Também se produziram mais relatórios científicos sobre temas novos e aumentou o controle da poluição. Os jornalistas ambientais da segunda geração, digamos acém, já passaram a trabalhar temas mais científicos, diversificando as pautas e ganhando mais espaço. Eu me incluo nesta geração. Tudo isso foi preparatório para a Rio-92, que certamente foi um marco por ter reunido mais de cem chefes de estado, discutindo alternativas para conter a degradação ambiental e usar os recursos naturais de forma mais sustentável. As mudanças necessárias, para alcançar o desenvolvimento sustentável, são difíceis e de longo prazo, como ponderou hoje a Vera Diegoli, da TV Cultura, mas certamente tiveram seu começo escrito e assinado na Rio-92. O problema, encerrada a Rio-92, foi colocar em prática tudo o que foi assinado. Alguns acordos funcionaram bem, outros não saíram do papel, mas isso já era esperado, porque as resistências a mudar padrões de vida são sempre muito grandes.

EcoViagem: Qual a importância prática de Prêmios como esse?
Liana: Infelizmente, hoje são muito raras as redações em que os jornalistas ambientais são estimulados a buscar temas novos, usar a criatividade e caprichar no texto. Isso deveria acontecer no dia a dia dos jornalistas, mas não acontece. Então, prêmios como esse trazem o estímulo de fora. Ao ter seu trabalho reconhecido e destacado, o jornalista fica estimulado a produzir outras matérias interessantes e todos ganham, o leitor incluído.

EcoViagem: Gostaria de saber se há, de fato, alguma especialização acadêmica para Jornalismo Ambiental e, se não, que conselho você daria aos estudantes e até mesmo graduados que queiram atuar na área, ou seja, aonde buscar essa `especialização`? Algum curso em outra área, por exemplo?
Liana: Já existem alguns cursos de especialização nas universidades. A USP já teve um curso, para falar a verdade não sei se continua. A Unicamp inclui jornalismo ambiental na pós-graduação do Labor (Jornalismo Cientifico) e a UFRGS acaba de criar uma cadeira de jornalismo ambiental na graduação. Alem disso, existem cursos oferecidos por ONGs ou institutos, como o WWF e o Fórum de Clima. Também acho válido buscar cursos em áreas específicas, como Biologia, Sensoriamento Remoto, Ecologia, etc. Agora, independente de fazer cursos ou não, é preciso ler muito, fazer um arquivo pessoal, criar o hábito de pesquisar antes de fazer qualquer matéria e sair para uma entrevista com informações básicas, sempre.

EcoViagem: Você disse que houve uma abertura para o meio ambiente na mídia, mas que está novamente regredindo em função da crise financeira que atinge as redações. Como você enxerga o futuro do jornalismo ambiental?
Liana: O futuro do jornalismo ambiental depende dos jornalistas ambientais. A principal mensagem que procurei passar é a de que não podemos baixar a guarda e achar que o aumento do nível de consciência ou preocupação com o meio ambiente garante o nosso espaço na mídia. Temos de garantir este espaço diariamente, aproveitando todas as oportunidades, usando nosso poder de insistência, como ressaltou o Dr Paulo Nogueira Neto. Noto, em alguns estudantes de hoje, uma certa acomodação, a busca de um mercado que já exista, onde eles já possam iniciar trabalhando no cargo ideal. Isso é uma ilusão. O mercado tem que ser conquistado continuamente, dentro e fora das redações. E o cargo ideal é o que cada um constrói para si. Tenho 25 anos de jornalismo e já tive milhares de pautas deturpadas, adiadas ou derrubadas, mas tenho outras centenas que foram publicadas corretamente e são estas que contam. Um jornalista ambiental deve saber bater o pé e persistir, mesmo em condições adversas. Senão é melhor procurar outra profissão.

Prêmio de Reportagem 2003

As inscrições para a edição 2003 do Prêmio de Reportagem já estão abertas. Serão aceitos artigos publicados entre 1º de abril de 2002 e 31 de março de 2003. Mais informações: www.conservation.org.br, www.sosmatatlantica.org.br e www.aliancamataatlantica.org.br.

  
  

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