Descoberta nova espécie de inseto no Piauí

Pesquisadores brasileiros descobriram na caverna Cristovinhos, a quatro quilômetros da cidade de Picos, no Piauí, uma espécie de inseto do grupo dos flebotomíneos - popularmente conhecidos como mosquito-palha - sem relato anterior pela ciência. Depois

  
  

Pesquisadores brasileiros descobriram na caverna Cristovinhos, a quatro quilômetros da cidade de Picos, no Piauí, uma espécie de inseto do grupo dos flebotomíneos - popularmente conhecidos como mosquito-palha - sem relato anterior pela ciência.

Depois de analisar as características do inseto de coloração castanha-clara os especialistas concluíram se tratar de um novo gênero deste grupo, nomeado de Edentomyia, que significa mosca sem dentes.

Os pesquisadores acreditam que a nova espécie, denominada Edentomyia piauiensis pode contribuir na compreensão e busca pela cura dos vários tipos de leishmaniose.

“A espécie também foi encontrada em outras localidades do Piauí”, informou Eunice Aparecida Bianchi Galati, professora do departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade São Paulo (USP).

O inseto será estudado também na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Universidade Federal do Piauí (UFPI) para se verificar se ele é vetor de algum tipo de moléstia e sua relação com os demais grupos de flebotomíneos do mundo.

Eunice Galati diz que `para se saber se este inseto tem alguma relação com a transmissão da doença são necessários estudos moleculares sobre seu comportamento por um determinado período`.

O novo flebotomíneo – subfamília de insetos muito pilosos, de coloração castanha-clara, que mantêm as asas eretas e entreabertas quando pousam – também está presente nos parques Nacional das Sete Cidades, da Serra da Capivara e na Pedra do Castelo. Todas os registros foram feitos em ambientes cavernícolas.

“Não se pode afirmar que as ocorrências são exclusivas destas localidades. Os estudos da fauna flebotomínea de cavernas são poucos ainda”, lembra Eunice.

Os flebotomíneos constituem um grupo de insetos com origem provável ainda no Período Jurássico. Eles são encontrados em todos os continentes.

“Atualmente, são conhecidas 880 espécies aproximadamente. São 410 descritas no Velho Mundo ou Oceania e 470 na América”, diz a professora da FSP, que desde os anos 80 estuda os insetos.

O seu interesse nos flebotomíneos se deve ao fato de algumas espécies transmitirem leishmaniose. O trabalho com a descrição do novo gênero foi publicado na Revista Brasileira de Entomologia (volume 47, nº 1).

Assinam também o artigo a entomóloga Alda Lima Falcão e o biólogo José Dilermano Andrade Filho. Ambos são do Centro de Referência Nacional e Internacional para Flebotomíneos do Centro de Pesquisas René Rachou (CPqRR) da Fiocruz.

Os cientistas que analisaram os exemplares do novo gênero de inseto identificaram várias características morfológicas primitivas na espécie.

“Foram assinalados a ausência de dentes no aparelho bucal, além de outras estruturas na cabeça, tórax e genitália. Todas são muito pouco freqüentes nas espécies da América”, informa Eunice.

Do ponto de vista filogenético, a identificação dessas estruturas primitivas pode aproximar a nova espécie do Piauí às espécies já registradas na Europa. Os insetos do Velho Mundo, normalmente, são os que apresentam o mesmo grau de primitividade da nova espécie brasileira. Segundo Eunice, era esperado encontrar espécies mais primitivas em cavernas.

“Talvez pelo fato de as condições ambientais das cavernas serem mais constantes, pode haver uma pressão seletiva maior em eliminar mutações.”

Apesar desta tendência, em vários estudos realizadas por Eunice em cavernas do Centro-Oeste e do Sudeste não haviam sido encontradas tais características primitivas nos flebotomíneos. Pela classificação filogenética proposta pela própria cientista, e ainda não aceita de forma global, o gênero encontrado no Piauí é o 22º existente no Brasil.

“Esta proposta de classificação baseada em abordagem filogenética implica em mudança no nome das espécies. Existem muitas resistências por parte dos estudiosos. Espero que, com o tempo e melhor divulgação dela, esse comportamento mude”, enfatiza.

Fonte: Agência Fapesp

  
  

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