Pesquisa na Amazônia revela que pesca sustentável tem 60% mais de produtividade

A adoção de boas práticas de manejo sustentável, baseadas principalmente em acordos comunitários de pesca para ordenar a atividade de forma a garantir peixe para todos os pescadores o ano inteiro, todos os anos, resulta num aumento de produtividade de até

  
  

A adoção de boas práticas de manejo sustentável, baseadas principalmente em acordos comunitários de pesca para ordenar a atividade de forma a garantir peixe para todos os pescadores o ano inteiro, todos os anos, resulta num aumento de produtividade de até 60% em relação aos locais onde se utilizam métodos convencionais e predatórios.

A produtividade média nas áreas manejadas chega a 41 quilos de peixe por hectare, enquanto nas áreas sem manejo cai para 26 quilos. Este é um dos principais resultados de uma pesquisa sobre a pesca na Amazônia brasileira realizada durante 3 anos pelo IPAM - Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia -, com o apoio do WWF-Brasil, parceiro no Projeto Várzea (em Santarém).

A parte principal da pesquisa já rendeu seis artigos científicos para a economista Oriana Almeida, do Ipam, o biólogo Kai Lorenzen, orientador no Imperial College (Inglaterra) da tese de doutorado de Oriana sobre o manejo de recursos naturais, e David McGrath, coordenador do Projeto Várzea.

Além do WWF, o trabalho teve o apoio do PPD/MCT/Finep, Darwin Initiative e IARA.Para Antonio Oviedo, coordenador da Ecorregião Rio Amazonas e Áreas Inundáveis do WWF-Brasil, "os bons resultados do manejo devem-se aos acordos comunitários de pesca e à organização das comunidades ribeirinhas. É um modelo que deu certo e o Ibama deve aproveitar esta experiência para fazer a instrução normativa que regulamenta os acordos de pesca em toda a Amazônia".

Outra política sugerida é o direito de propriedade ao lago pela comunidade, com a adoção de concessões pesqueiras (mediante compra de quotas de pesca nos lagos em benefício da comunidade responsável pelo manejo).Os acordos de pesca tem boa aceitação por parte dos ribeirinhos, mas eles precisam de mais capacitação e fiscalização, diz Oviedo.

Oriana Almeida, do Ipam, reforça: "falta apoiar mais o manejo da pesca através de treinamento e fiscalização pelo governo (hoje esta fiscalização é feita apenas por voluntários)".

Segundo a pesquisa, 85% das pessoas nas comunidades acham bons os acordos e 70% acham que os acordos estão sendo respeitados pela metade dos pescadores.

Apesar de produzir 1 milhão de toneladas de pescado por ano e de constituir a principal fonte de renda para as comunidades ribeirinhas e para a maioria dos pescadores das frotas regionais, o setor pesqueiro da Amazônia recebe pouca atenção do setor público.

Como dependem da pesca para sua subsistência, as populações ribeirinhas sofrem com a sobreexploração pela pesca comercial que ameaça os estoques de espécies de maior valor no mercado como o pirarucu, o tambaqui, o surubim e o, tucunaré, que já estão sendo pescados em tamanhos considerados pequenos para aquelas espécies , principalmente durante a estação seca.

Segundo Oriana Almeida, entre 20 e 50% do estoque de peixes está sendo explorado então é viável aumentar a atividade pesqueira, desde que sejam respeitadas as espécies ameaçadas e seja feito um manejo sustentável.

No entanto, a frota está trabalhando no limite econômico e se mais barcos entrarem no setor a atividade começará a dar prejuízo. Ao mesmo tempo, se a pavimentação da estrada Cuiabá-Santarém e outros fatores provocarem a expansão de novos mercados, pode acontecer um aumento de 10% no preço do pescado, o que faria aumentar o esforço pesqueiro por 50% ou até duplicá-lo.

Ao longo dos rios Solimões e Amazonas, durante o período da cheia (dezembro a julho), as águas sobem até 20 metros e inundam as margens por uma extensão de até 100 km de cada lado e formam os chamados lagos de pesca.

Na seca, alguns lagos desaparecem e outros ficam isolados, sem canais de conexão com o rio. Os acordos são elaborados em reuniões dos representantes de todas as comunidades que utilizam o mesmo sistema de lagos e estabelecem as regras para a atividade. Redes de malhas finas, que pegam os filhotes, não costumam ser permitidas.

Em alguns lagos só é permitida a pesca durante certa parte do ano, outros são reservados só para reprodução, e outros ainda podem ser considerados reservas protegidas.

Outros destaques (fatos e números): a pesquisa durou 3 anos, sendo concluída em novembro de 2002. Foram entrevistadas 3.000 pessoas no total, inclusive 259 famílias de 18 comunidades de ribeirinhos, sendo 9 comunidades que possuem acordos de pesca e 9 sem acordos. Foram também analisadas 70 mil entrevistas de desembarque pesqueiro do Ibama/Iara/Pró-Várzea e realizado workshop com a presença de especialistas.

O trabalho investigou renda e emprego no setor pesqueiro, os acordos de pesca como instrumento de manejo sustentável e a frota pesqueira na Amazônia, resultando ainda noprimeiro modelo bioeconômico para a pesca na Amazônia.Oitenta e sete mil toneladas de pescado são desembarcadas ao longo do Rio Amazonas (8 principais cidades) e o potencial está estimado em 1 milhão de toneladas.R$ 455 milhões é a renda gerada pelo setor pesqueiro na Amazônia, sendo que 48% desse total são gerados pelos frigoríficos, 18% pela pesca artesanal e 16% pelos pescadores comerciais.

As feiras são responsáveis por 9%.Cerca de 75% do volume pescado é resultado da atividade de 10 mil famílias baseadas na região do Baixo Amazonas e os outros 25% são capturados pela frota pesqueira comercial.87 mil empregos/ano são gerados pela pesca na Amazônia, sendo que 57% desse total são gerados pela pesca comunitária, 33% pela pesca comercial e 5% pelos frigoríficos.

Na várzea (região inundada durante a cheia), 84% das famílias pescam e a renda dessa atividade representa um terço da renda total familiar.A pesca comercial no rio Amazonas movimenta cerca de 5,5 mil embarcações, envolve mais de 37 mil pescadores comerciais (registrados nas colônias de pescadores) e gera mais de 87 mil toneladas de pescado. A frota pesqueira gera mais emprego do que a indústria de processamento do pescado, mas a maior renda é gerada pelos frigoríficos.

Fonte: WWF-Brasil

  
  

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Edinamar machado

Edinamar machado

07/11/2008 20:29:50
Os pescadores comunitários são os que menos tem lucro com a venda do pescado. Como sempre quem se beneficia com todo esse processo, é a indústria que superfatura o peixe e o consumidor, é que paga caro por tudo. injusto! Achei interessante essa pesquisa, pois
me trouxe muito conhecimento sobre o tema abordado.