Rede de Voluntários elabora projeto de escola sustentável no Rio Grande do Sul

Uma nova concepção de escola, cuja arquitetura e projeto educacional atendem aos princípios da sustentabilidade e do aperfeiçoamento técnico será implantada no município de Feliz (RS). Fruto do trabalho voluntário e cooperativo de 26 especialistas, o proj

  
  

Uma nova concepção de escola, cuja arquitetura e projeto educacional atendem aos princípios da sustentabilidade e do aperfeiçoamento técnico será implantada no município de Feliz (RS). Fruto do trabalho voluntário e cooperativo de 26 especialistas, o projeto arquitetônico valoriza a ventilação, a iluminação natural, a escolha de materiais produzidos na região e o conforto ambiental dos alunos e professores.

Já o projeto educacional é voltado para a inserção social, a fixação de jovens no campo, além de atender às demandas tecnológicas locais. A escola é um anseio da comunidade dos 20 municípios que se estendem ao longo do Vale do Caí, o que engloba a população de 170 mil habitantes, e atenderá a dois mil alunos de ensino médio técnico.

Em parceria, as prefeituras criaram uma entidade gestora independente, a Fundação de Educação Profissional do Vale do Caí. Colaboram no projeto 33 empresas e três universidades, a Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), do Vale dos Sinos (Unisinos) e a de Caxias do Sul (UCS). Algumas das empresas já fizeram contratos para patrocínio de bolsas de estudos para alunos carentes, antes mesmo da construção da escola.

Feliz está a 90 quilômetros da capital e a 60 quilômetros do Pólo Industrial de Caxias, região onde se concentra o maior número de olarias do estado e onde há grande número de pequenos proprietários. As culturas que predominam da agricultura local são morangos, tangerinas, amoras e flores.

"A coloração e o sabor dos citros da nossa região são conhecidos nacionalmente", orgulha-se a secretária de Educação de Feliz, Glória Gauer, uma das voluntárias do projeto. A área onde será construída a escola tem 62 mil metros quadrados e é rodeada da vegetação que acompanha o rio. Chamada de Centro de Educação Profissional do Vale do Caí, oferecerá cinco cursos técnicos, nas áreas de biotecnologia, agroindústria, indústria cerâmica, gestão de bens e serviços, e informática.

Haverá ainda 40 cursos básicos, de curta duração, que atendem à vocação econômica da região, segundo explica a secretária. O projeto original foi aprovado, em agosto, no âmbito do Programa de Expansão da Educação Profissional (PROEP), do Ministério da Educação, que visa à reforma da educação profissional e conta com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do Fundo de Amparo ao Trabalho (FAT).

No entanto, um encontro com a criadora da farinha multimistura à alimentação de crianças carentes, Clara Brandão, integrante da Pastoral da Criança, deu início à mudança de concepção da escola, segundo conta Glória Gauer.

"No nível educacional, ela tem projetos ligados à escola profissional e foi trocando idéias que percebemos que o projeto educacional da nossa escola podia ser aperfeiçoado", relata.

Foi então que Glória Gauer apresentou o projeto às universidades hoje engajadas, durante o Encontro Amigos e Parceiros da Escola, em janeiro. A sugestão de Clara Brandão era aproveitar o projeto para por em prática a escola sustentável, ou seja, um centro de formação que atendesse à vocação da região, estimulando o associativismo e cooperativismo, além de promover o resgate moral e ético dos povos pioneiros, como os colonizadores.

O projeto ganhou a adesão, assim, da Rede Ecologia Sustentável (Ecosust), que reúne cerca de 300 profissionias de vários estados e trabalha voluntariamente em suas comunidades nas questões de sustentabilidade. Outro parceiro que se engajou no projeto foi o Núcleo Orientado de Inovação à Edificação (Norie), da UFRGS.

"O professor Miguel colocou seu grupo de pós-graduação à disposição para que chegássemos a um novo projeto arquitetônico", explica Glória.

As negociações entre os voluntários chegaram a um projeto final entre fevereiro e março, no qual tudo foi reformulado, menos o projeto pedagógico, nem a estrutura laboratorial, uma exigência do Ministério da Educação para não colocar em risco a aprovação no PROEP.

"Na análise de agosto, tínhamos conseguido R$ 3.866.317 e isso incluía a construção e a compra de equipamentos. Quando apresentamos a possibilidade de um novo projeto, nos pediram que não alterássemos esse valor", conta a secretária de Educação. Assim, traçou-se um plano estratégico para que a escola se adequasse aos princípios de sustentabilidade. O grupo estabeleceu uma atuação em quatro eixos: a sustentabilidade física (novo projeto arquitetônico), a sustentabilidade econômica (a própria escola gerando uma vida saudável do ponto de vista financeiro), a sustentabilidade social (proporcionar a participação da comunidade na vida da escola) e a sustentabilidade cultural (resgate da história dos colonizadores".

A partir daí, vieram as mudanças. Do projeto arquitetônico original, ficou só o tamanho da área a ser construída, que será de 3.200 metros quadrados, além do número de salas, laboratórios e a parte administrativa.

O coordenador do Norie, Miguel Sattler, criou uma disciplina no curso de pós-graduação de Engenharia Civil, voltada ao estudo da mudança do projeto original, para estimular a participação dos alunos. Especialistas do Ecosust também colaboraram com sugestões, uma delas da arquiteta especializada nas questões de sustentabilidade das edificações, Haiderose Gauer. Ela trabalhou coordenando o trabalho de dois alunos de mestrado.

O autor do primeiro projeto, Luiz Alberto Britz, também se engajou na nova proposta. O material, a cor e o formato do telhado mudaram. De telha metálica passou para telha cerâmica, que será pintada de verde. Ao invés de reto, o telhado será arqueado. Nas paredes, no lugar de estruturas de concreto, planejadas para cada três metros, que funcionariam como vigas de sustentação, entraram paredes em pedra da região (arenito ou granito) e tijolo cerâmico maciço, que dispensa revestimento.

Dois corredores internos dividiam os blocos de salas de aula. Agora, eles serão externos e abertos. Do bloco, sairá um prolongamento de 1,5 metro, para evitar que as pessoas se molhem no período de chuvas. Pérgolas, estruturas de madeira, serão fixadas nas lajes para o plantio de trepadeiras, para tornar o ambiente arejado e bonito.

"A idéia, com isso, é criar espaços aprazíveis para os alunos", explica Sattler.

Prevê-se também o mínimo desbaste de árvores para construção da escola. A madeira das que tiverem que ser retiradas será aproveitada na obra. Haverá sistemas de tratamento da água servida, que poderá ser aproveitada na irrigação de plantas e viveiros.

"A água passará por filtros de areia e brita e, no topo da camada será colocado um leito para evapotranspiração.Nesse topo, será recomendado o plantio de bananeiras, que comporá o paisagismo e também vai colaborar na purificação da água", conta o professor.

O projeto de construção levará em conta também o ciclo de vida dos materiais utilizados, sua origem, quantidade e volume (preferência para o que é produzido na região) e também as condições de trabalho de quem os produziu, a energia usada para a produção e os resíduos que geram.

Sattler revela ainda que o processo de filtragem da água usado no esgoto pode ser acompanhado pelos alunos. Outra idéia é fazer pequenos lagos para aproveitamento da água, que seria tratada com espécies aquáticas.

Depois do tratamento, o líquido poderia ser bombeado para uso no sistema de descarga dos sanitários ou para lavagem do piso.As três estufas do projeto original que seriam retângulares, feitas de madeira e material metálico, serão armadas com bambu, que ocorre abundantemente na região.

"Além de ser esteticamente mais bonito", comenta a arquiteta Haiderose Gauer. Os três blocos foram conservados, sendo o primeiro destinado à administração, biblioteca e auditório; o segundo e terceiro às salas e laboratórios. Mas como a ventilação e a iluminação seriam prejudicadas devido aos amplos corredores fechados projetados anteriormente, o pessoal coordenado por Sattler e Haiderose trabalhou no deslocamento dos dois edifícios destinados às salas, levando em conta a orientação solar. Houve ganho também no aquecimento interno, pois o inverno é caracterizado por temperaturas baixas, mas com forte presença solar.

No lugar onde está projetado o estacionamento, a retirada de árvores será feita de maneira que espécies de muita sombra sejam conservadas. O grupo incluiu o espírito do eixo resgate cultural já no projeto arquitetônico ao mudar o projeto urbanístico de forma que a área construída da escola imite o caminho sinuoso do rio Caí.

Haverá 20 pontos de convívio, representando cada município que integra a Fundação de Educação Profissional do Vale do Caí, a entidade gestora da escola. O piso de tijolo cerâmico produzido na região, o paisagismo que privilegia as culturas locais e a representação dos quatro elementos da natureza são outras idéias incorporadas ao novo projeto. O paisagismo, aliás, será simbólico e também produtivo.

"Os alunos poderão comer as amoras, porque haverá cercas vivas de amoreiras", cita Glória Gauer.

O início do caminho é representado pelo fogo. O anfiteatro, localizado neste ponto, será um espaço para fazer fogueiras nas aulas noturnas. Na rótula central, que dá acesso ao auditório e à biblioteca haverá a representação de tudo que é ponto de embarque, movimento, irradiação do conhecimento. Ali, o elemento da natureza é o ar.

O elemento terra estará contemplado nas hortas para produção de alimento e aulas de agricultura e biotecnologia. A água estará presente nos prédios das estufas e dos laboratórios, representada pelo filtragem e o tratamento. O líquido voltará totalmente limpo ao rio.

"Aqui temos o conceito de usar a arquitetura como ferramenta pedagógica", diz Glória.

A secretária de Educação idealiza inclusive ampla interação da escola com as comunidades locais. Com a geração de conhecimento e tecnologias, um dos beneficiados seriam as olarias. Hoje, os donos de indústrias cerâmica pagam caro para que seu produto passe por testes de qualidade antes de entrar no mercado.

Segundo Glória, a escola poderia oferecer esse tipo de serviço, num preço mais acessível, além da vantagem de ser próxima da indústria, não implicando em custo de transporte. A visão pedagógica também passou por ampla reforma, depois que o grupo de profissionais, ao todo 26, se reuniu para fazer do Centro de Formação do Vale do Caí uma escola que buscasse a sustentabilidade, em todos os seus níveis.

"Nos inspiramos nas idéias do físico Fritjof Capra, que prega a alfabetização ecológica e nos identificamos com esses preceitos", diz Glória.

O impacto ambiental de todas as atividades desenvolvidas depois que a escola estiver pronta será constantemente avaliado, servindo também de elemento pedagógico.

Especializado em edificações e comunidades sustentáveis, sua linha de pesquisa, o professor Miguel Sattler ressalta o ineditismo do projeto.

"Não conheço nenhum projeto escolar com essas características, inclusive pelo viés participativo da fase de elaboração", observa.

Agora, os voluntários que trabalharam em sua confecção lutam para manter o financiamento aprovado, no ano passado, no âmbito do Programa de Expansão da Educação Profissional (PROEP).

Segundo Glória, há o risco dos projetos analisados no segundo semestre de 2002 sofrerem cortes, por falta de liberação de recursos.

"Estivemos reunidos com os técnicos e nos disseram que os cortes acontecerão, mas como a escola tem um caráter inovativo, em termos ambientais, pedagógico, participativo e de identificação com os anseios locais, acreditamos que serão sensíveis ao nosso pleito", conta a secretária de Educação.

Fonte: Agência Brasil

  
  

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Leonardo nassif arruda

Leonardo nassif arruda

26/02/2010 12:27:54
Há muito tempo que se sabe o quanto é importante a auto sustentabilidade, não só agora por circunstãncias advindas da reação da natureza, é que passou a dar mais ênfase nas questões ambientais aqui em nosso país, espero que estas ações possam se multiplicar. E viva a vida.