Documentário canadense é o grande vencedor do V Festival de Cinema Ambiental

O discurso contra a comercialização dos recursos naturais e a lei das patentes foi o grande vencedor do V Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental da cidade de Goiás. O filme canadense “The Bottom Line – privatizing the WorldR

  
  

O discurso contra a comercialização dos recursos naturais e a lei das patentes foi o grande vencedor do V Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental da cidade de Goiás.

O filme canadense “The Bottom Line – privatizing the World”, da diretora Carole Poliquin, é um documentário de uma hora sobre a venda da água e o crescente processo de patentização do uso de recursos naturais e leva o espectador a refletir sobre o futuro do meio ambiente. Ela ganhou o troféu Cora Coralina. O prêmio é de R$ 50 mil.

Segundo o júri, a escolha se deu pela abrangência global dos temas e sua relevância para a questão ambiental.

“Penso que chegará o dia em que as grandes empresas terão respeito pelo ser humano. Isso não é amanhã evidentemente. Temos que trabalhar, por isso faço filmes”, revela a diretora Poliquin.

O longa-metragem mostra a dificuldade de se avançar nas pesquisas sobre o câncer, por exemplo, porque elementos para esse trabalho estão patenteados.

De acordo com o filme, as patentes estão `enclausurando` bens que são da natureza e deixarão a dívida externa dos países pobres dez vezes maior.

“Words on Water” foi eleito o melhor longa-metragem do Festival por mostrar a mobilização das mulheres em defesa de seus direitos.

“Palavras sobre a água” é uma produção indiana do diretor Sanjay Kak.O documentário revela a situação de uma aldeia indiana que teve suas casas desapropriadas pelo governo para a construção de uma barragem.

Os moradores receberam habitações em outro local que, segundo eles, não é própria para a agricultura e para a criação de gado.

“A água fica longe e as vacas precisam andar muito para beber. Não resistem e morrem”, conta um nativo.

A mudança de endereço se deu porque a barragem faz com que o rio transborde e alague a terra em determinadas estações do ano. Ao todo, 248 aldeias são inundadas, deixando 400 mil famílias desabrigadas. Muitos continuam lá e todos os anos replantam tudo o que foi perdido. Parte da resistência em deixar o local vem das tradições antropológicas.

O título de melhor média-metragem ficou com o italiano “L’Acqua Che Non C’é”, da diretora Alessandra Speciale. O interessante, e triste, documentário retrata a falta d’água em Burkina Fasso, no oeste africano. Lá, apenas 60% da população tem água e o produto, tão desperdiçado em outros países, é mais valorizado que ouro.

Para aumentar o problema, o governo pretende privatizar a distribuição da água, o que segundo a população aumentará ainda mais o seu preço e o desemprego.

O curta-metragem brasileiro “Mini Cine Tupy”, do diretor Sérgio Bloch, ganhou o prêmio da sua categoria por retratar heróis anônimos.

Do diretor Sérgio Bloch, o fime retrata a vida do catador de papéis José Luis Zagati, de São Paulo, que, com materiais achados no lixo, conseguiu construir um “cineminha` para as crianças, que pagam R$ 1,00 pela entrada com direito à pipoca.

“Não quero lucro, mas tenho que pagar a luz para o cinema”, lembra o catador. Ele já havia sido homenageado no filme “Zagati”, de Nereu Cerdeira e Edu Felistoque, que foi exibido, em 2002, no Festival de Brasília e no Festival de Sundance (EUA) e ganhou o Prêmio Especial do Júri em Gramado.

A melhor série de TV foi “A Kalahari Family”, da Namíbia, que reúne uma documentação produzida durante 50 anos contando a história de uma comunidade obrigada a renovar seu modo de vida e de relação com a natureza devido às transformações do continente africano. A direção é de John Marshal.

O prêmio para as duas melhores produções goianas ficou com “Césio 137 – o brilho da morte” e “Na linha do horizonte”. “Césio 137” descreve o acidente ocorrido em 1987, em Goiás, que ainda hoje faz vítimas. Muitos filhos de pessoas contaminadas com a substância nascem doentes. Dezesseis anos depois, as famílias lutam para receber indenizações. Apenas 19 gramas da pedra azul causaram 15 mortes, 1.280 pessoas contaminadas reconhecidas e mais de 3.200 não oficiais.

“Eu me apaixonei pelo brilho da morte”, diz uma das vítimas que teve contato direto com o Césio. Já “Na linha do horizonte” é uma animação infantil sobre a extinção das baleias causada pela caça e pela pesca. Em uma linguagem simples, os caçadores foram caricaturados de “homens maus” como num desenho animado.

Na opinião do público, o melhor filme exibido no FICA foi o brasiliense “Verde como cacau da Bahia”, da diretora Déborah Andrade, que levou o troféu de Júri Popular. Em 18 minutos, retrata o trabalho de assentados da reforma agrária no sul da Bahia. São os chamados agro-ecologistas que não desmatam e não usam agrotóxicos.

O júri entregou ainda três menções honrosas. A primeira, para o japonês “Alexei and the Spring”, do diretor motohashi Seiichi, pela sensibilidade com que retratou o cotidiano dos sobreviventes do desastre de Chernobyl de uma comunidade que preserva seu modo tradicional de vida.

A segunda menção foi para o francês “Lês Femmes de Bananeraies”, do diretor Luis Miranda, por retratar o drama, até então silenciado, das trabalhadoras em plantações de banana da Costa Rica contaminadas por inseticidas.

E a terceira foi entregue ao brasileiro “Cotidiano da cidade”, de Luiz Eduardo Lerina, pela sensibilidade ao mostrar as questões ambientais das metrópoles, pouco documentadas.

O filme recebeu também o troféu TV Cultura e Natura, pelo exemplo de luta e determinação.O troféu Imprensa foi dado ao alemão “Coquetel de Baratas”, da diretora Brigitte Krause, que tem 67 minutos de anteninhas vasculhando esgotos, becos, cozinhas e os cantos da tela.

A produção engraçada, informativa e sarcástica começa tentando convencer o espectador de que as baratas não devem ser mortas por uma questão de limpeza, já que comem os restos de alimentos e animais mortos.

“Você mataria os garis porque eles trabalham varrendo a sujeira?”, indaga o narrador.O júri foi presidido pelo cineasta Washington Novaes, produtor das séries “Xingu”, “Kuarup” e “Os Caminhos da sobrevivência”.

A equipe julgadora contou ainda com o crítico de cinema, Lauro Antônio Leitão (Portugal); o coordenador do Núcleo de Documentários da TV Cultura, Mario Borgneth; o estudioso de cinema e autor dos livros “Sertão Mar” e “Alegorias do Subdesenvolvimento”, Ismael Xavier; a membro da Associação Cultural Kinoforum, Zita Carvalhosa; o documentarista e roteirista Henri Gervaiseau, e o diretor Rigoberto Lopes (Cuba).

O V FICA recebeu 300 inscrições de cinqüenta países, tendo exibido 28 obras de treze países. Foram seis longas, nove médias, onze curtas-metragens e duas séries de TV. Os prêmios totalizaram R$ 250.000,00.

Os troféus foram confeccionados pela artista Kátia Jacarandá e representam o capim dourado. O Festival termina hoje, com show do ministro da Cultura, Gilberto Gil.

Fonte: Agência Brasil

  
  

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