Escritor vincula solução de problema ecológico à justiça social

`O Titanic está afundando e nós estamos na festa, vendendo pérolas. Mas desta vez não há Arca de Noé nem salva-vidas`. Assim o filósofo e teólogo Leonardo Boff definiu a devastação dos recursos naturais do planeta, pelo homem. Em palestra sobre `Ecolo

  
  

`O Titanic está afundando e nós estamos na festa, vendendo pérolas. Mas desta vez não há Arca de Noé nem salva-vidas`. Assim o filósofo e teólogo Leonardo Boff definiu a devastação dos recursos naturais do planeta, pelo homem.

Em palestra sobre `Ecologia e Política no Brasil`, realizada no Teatro da Caixa Econômica Federal, em Brasília (DF), o escritor lembrou que se as mudanças climáticas já trazem catástrofes como o ciclone que atingiu o Brasil, a junção do aquecimento global com a escassez de água potável deve trazer danos incalculáveis, em um espaço de tempo muito curto.

`Daqui a cinco ou sete anos, há o risco de as duas linhas se encontrarem em algumas partes do planeta, como o sudeste da Ásia, e o encontro produzir um desastre na produção de alimentos capaz de desestabilizar os limites políticos das nações`, afirmou.

Apenas 3% da água existente no planeta são potáveis. Desse total, somente 0,7% está acessível. A maior parte da água utilizada, quase 70%, vai para a agroindústria e apenas 10% são para o consumo doméstico. O Brasil possui 13% de toda a água doce do planeta e desperdiça 46% do que utiliza.

`Água suficiente para abastecer toda a França, Suíça, Bélgica, Holanda e o norte da Itália`, ressaltou Boff.

Para produzir um quilo de carne bovina são gastos 15 mil litros de água e para um quilo de vegetais, 1.300 litros, acrescentou.Na opinião do escritor, o problema ecológico mundial só será resolvido quando as injustiças sociais forem sanadas.

`Hoje há um bilhão de pessoas que passam sede e dois bilhões que não têm água tratada. Por isso, a OMS - Organização Mundial da Saúde diz que quase 80% das doenças que hoje atingem a população dos países pobres se devem ao uso de água contaminada. No Brasil, dois terços da população não têm água tratada`, aponta.

Ciclone

Não são apenas as futuras gerações as prejudicadas com os danos que a Terra vem sofrendo em consequência da emissão de gases poluentes. Hoje, todo o planeta já começa a ter alterações climáticas em virtude do aquecimento global. O ciclone que afetou o Sul do país, em março, é um exemplo.

`A origem está a 4.500 quilômetros, no Oceano Pacífico, ao redor da Austrália, onde a temperatura das águas superficiais aumentou de um a três graus`, Boff.

O escritor lembra que, segundo os cientistas, ao longo do século XXI o clima da Terra vai subir entre 1,4 e 5,8 graus.

`Isso vai produzir um desastre tremendo, pois 60% da população mundial vivem nas costas dos oceanos`.

Hoje, alerta, `o Everest já está se derretendo; com o degelo, o nível dos lagos sobe e podem ocorrer devastações jamais vistas`.

Só o Brasil joga no ar, por ano, 200 milhões de toneladas de dióxido de carbono, `vindas principalmente das queimadas, para abrir fronteiras que dão passagem ao gado`.

As queimadas no Brasil devastam 150 mil quilômetros quadrados de matas por ano. Só na Amazônia, em 2003, 23 mil quilômetros quadrados de floresta foram desmatados.

Os cientistas aconselham que se reduza em 60% a emissão de gases e o Protocolo de Kyoto pede a redução de 5,2%. Mas os Estados Unidos, um dos maiores poluentes, ainda se recusam a assinar o Protocolo.

`O argumento de Bush é que a redução prejudicaria a indústria automobilística e como ele não é contra a indústria, não assinaria`, disse Leonardo Boff.

Fonte: Agência Brasil


  
  

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