Estudo revela a riqueza biológica da Caatinga

Uma equipe de 35 pesquisadores acaba de publicar a mais recente coletânea sobre a biodiversidade da Caatinga, a única Grande Região Natural cujos limites estão inteiramente restritos ao território brasileiro. Em suas 800 páginas, o livro `Ecologia e C

  
  

Uma equipe de 35 pesquisadores acaba de publicar a mais recente coletânea sobre a biodiversidade da Caatinga, a única Grande Região Natural cujos limites estão inteiramente restritos ao território brasileiro.

Em suas 800 páginas, o livro `Ecologia e Conservação da Caatinga`, que é lançado hoje em Brasília, mapeia os padrões de biodiversidade em diferentes grupos de organismos (plantas,abelhas, peixes, répteis, anfíbios, aves e mamíferos) e apresenta um conjunto de propostas de conservação para o bioma.

As pesquisas foram financiadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a edição do livro foi patrocinada pelas organizações não-governamentais (ONG) The Nature Conservancy (TNC) e Conservação Internacional (CI-Brasil).

`O estudo e a conservação da diversidade biológica da Caatinga é um dos maiores desafios da ciência brasileira`, explica Marcelo Tabarelli,professor de Botânica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e diretor do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (CEPAN).

`Há vários motivos para isso. A Caatinga é o bioma menos estudado do Brasil, com grande parte do esforço científico concentrado em alguns poucos pontos em torno dos principais pólos urbanos. Também é a região menos protegida,com apenas 2% do seu território coberto por unidades de conservação.

Há séculos acompanhamos seu extenso processo de alteração e deterioração ambiental, provocado pelo uso insustentável de seus recursos naturais.Tudo isso leva à rápida perda de espécies únicas, à eliminação de processos ecológicos-chave e à formação de extensos núcleos de desertificação em vários setores da região`.A Caatinga estende-se por 800.000 km2 do nordeste brasileiro, incluindo os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Fernando de Noronha, a maior parte da Paraíba e Pernambuco, o sudeste do Piauí, o oeste de Alagoas e Sergipe, a região norte e central da Bahia, e uma faixa que passa por Minas Gerais seguindo o rio São Francisco juntamente com um enclave no vale seco do rio Jequitinhonha.

Quase 30 milhões de pessoas vivem e dependem da biodiversidade dessa `floresta branca` (tradução do termo Caatinga em Tupi-guarani), que caracteriza bem o aspecto da vegetação na estação seca, quando as folhas caem e apenas os troncos brancos e brilhosos das árvores e arbustos permanecem na paisagem.

Comparada a outras regiões brasileiras, a Caatinga apresenta muitas características meteorológicas extremas: a mais alta radiação solar, baixa nebulosidade, alta temperatura média anual,baixas taxas de umidade relativa, e, sobretudo, precipitações baixas e irregulares, limitadas, na maior parte da área, a um período muito curto no ano.

Fenômenos catastróficos são muito freqüentes, tais como secas e cheias, que, sem dúvida alguma, têm modelado a vida animal e vegetal particular da Caatinga.

Assim, as espécies que habitam o bioma tiveram que encontrar maneiras de se adaptar ao ambiente semi-árido. As mais típicas dentre as 932 espécies de plantas existentes na Caatinga são prova dessa adaptação.

A suculência é uma das principais características fisiológicas observadas nas plantas da Caatinga, o que lhes permite suportar o período das secas.

Órgãos de armazenamento de água são típicos em alguns casos como o do umbuzeiro(Spondias tuberos), das barrigudas (Cavanillesia arborea), das maniçobas(Manihot spp.), do pau-mocó (Luetzelburgia auriculata), do xique-xique (Pilosocereus gounellei), do mandacarú (Cereus jamacaru), dentre outras.

Estima-se que a vegetação da Caatinga não tenha se alterado por um período muito longo, como indicam as evidências geológicas. Dessa forma, um acentuado grau de endemismo, ou seja de espécies que só existem lá e em nenhum outro lugar, pode ser observado na flora e em alguns grupos da fauna, como as aves.

Em levantamento recente,liderado por José Maria Cardoso da Silva, vice-presidente da Ci-Brasil e co-autor do livro, existem 516 espécies de aves na Caatinga, das quais 469 se reproduzem na região. Entre as espécies que se reproduzem na região, 284 (60,5%) dependem de florestas para sobreviver.

`Somente 14% da superfície da Caatinga são cobertos por florestas, mas essas pequenas áreas ajudam a manter quase dois terços das espécies de aves aí existentes. Este
resultado demonstra a importância das florestas da região e é um dado importante para as políticas de conservação do bioma`, explica Silva.

Até a metade do século passado, os mamíferos da Caatinga eram analisados segundo amostras bastante reduzidas, que indicavam uma fauna relativamente pobre, restrita a 80 espécies na última atualização, em 1989.

A baixa diversidade e a ausência de adaptações fisiológicas para as condições áridas, levaram os pesquisadores a concluir que a fauna de mamíferos da Caatinga consistiria, em sua maior parte, em um subconjunto da fauna do Cerrado.

Recentes revisões desses levantamentos mostram que a fauna da Caatinga se distingue daquelas das populações de outros ecossistemas. Hoje podemos listar 143 espécies de mamíferos, dentre eles: pelo menos 10 espécies de marsupiais; 64 espécies de morcegos; 34 espécies de roedores; uma espécie de lagomorfa (tapiti); 14 espécies de carnívoros; quatro espécies de Artiodactyla (catetos, queixadas e veados), uma espécie de anta; seis espécies de primatas; nove espécies de edentados (tamanduás, tatus e preguiças).

As duas espécies endêmicas, os roedores Kerodon rupestris e Wiedomys pyrrhorhinus, encontram-se hoje amplamente distribuídas na Caatinga. Até o momento também foram registradas 185 espécies de peixes(57% endêmicos) e 154 répteis e anfíbios.

`A identificação de áreas e ações prioritárias é o primeiro passo para a elaboração de uma estratégia regional ou nacional para a conservação da diversidade biológica, pois permite coordenar os esforços e recursos disponíveis para conservar e subsidiar a elaboração de políticas públicas de ordenamento territorial`, explica Inara Leal, professora do Departamento de Botânica da UFPE.

`O processo de seleção de áreas e ações prioritárias é baseado em estudos multidisciplinares e em um processo
participativo de tomada de decisão, onde áreas e ações são selecionadas com base no conhecimento de cientistas e de membros dos mais diferentes grupos da sociedade civil`.

De forma mais específica, a conservação da Caatinga é importante para a manutenção dos padrões regionais e globais do clima, da disponibilidade de água potável, de solos agricultáveis e de parte importante da biodiversidade do planeta.

Infelizmente, a Caatinga permanece como um dos
ecossistemas menos conhecidos na América do Sul do ponto de vista científico.

`O resultado é que várias espécies encontradas na Caatinga estão ameaçadas de extinção global, como mostra a lista oficial de espécies ameaçadas do IBAMA, e uma espécie de ave está oficialmente extinta na natureza: a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii).

Esses indicadores refletem, de forma inequívoca, a ausência de políticas voltadas para a conservação da biodiversidade da Caatinga e de seus demais recursos naturais`, explica Silva.

Os cientistas identificaram 82 áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade da Caatinga, das quais 27 foram classificadas como áreas de extrema importância biológica. As áreas prioritárias variam bastante em tamanho, desde 235 km2 até 24.077 km2. No total, cobrem cerca de 436.000 km2, ou seja, 59,4% da Caatinga.

Hoje existem 16 unidades de conservação federais e 7 estaduais (concentradas na BA e RN) que protegem formações de caatinga e/ou ambientes de transição. Apenas a metade das unidades federais contém exclusivamente formações de caatinga, sendo metade delas de uso sustentável e metade de proteção integral.

A grande maioria dessas unidades enfrenta sérias ameaças como: situação fundiária não resolvida, falta de verba para funcionamento e manutenção, funcionamento e implementação insatisfatórios para atingir os objetivos da unidade, caça tradicional para subsistência e esportiva, desmatamento e retirada de lenha e fogo.

`Faltava uma visão do todo, da ecologia da Caatinga. Esta publicação preenche a lacuna, mostrando várias peças do quebra-cabeça ecológico deste bioma tão especial. Ainda precisamos ampliar muito a pesquisa na Caatinga,em número e abrangência, mas informações como as que são apresentadas neste livro são essenciais para que possamos planejar e implementar ações concretas de conservação`, conclui Agnes Velloso, Gerente do Programa Caatinga da TNC.

Os autores do livro esperam que ele facilite a obtenção de apoio científico, político e financeiro para fazer frente a todos os desafios da conservação da Caatinga.

O evento de lançamento aconteceu às 19h, do dia 11 de dezembro no Salão Madison Hall -Manhattan Flat - SHN Quadra 02, Bloco A - Brasília, DF. Exemplares do livro podem ser obtidos pelo site.

Conservação Internacional (CI)

Foi fundada em 1987 com o objetivo de conservar o patrimônio natural do planeta - nossa biodiversidade global e demonstrar que as sociedades humanas são capazes de viver em harmonia com a natureza. Como uma organização não-governamental global, a CI atua em mais de 30 países, em quatro continentes.

A organização utiliza uma variedade de ferramentas científicas, econômicas e de conscientização ambiental,além de estratégias que ajudam na identificação de alternativas que não prejudiquem o meio ambiente. Para maiores informações sobre os programas da CI no Brasil, visite o site.

The Nature Conservancy (TNC)

Foi fundada em 1951, com a missão de preservar as plantas, animais e comunidades naturais que representam a diversidade biológica do planeta. Tendo sempre a ciência como base fundamental para suas ações, a TNC desenvolve e utiliza diversas ferramentas para atingir sua missão. Atuante em 27 países, a TNC tem a ecologia de paisagens e fortalecimento das capacidades locais para a conservação da biodiversidade como seus principais eixos de trabalho.Única ONG internacional presente na Caatinga, a TNC trabalha pela preservação da biodiversidade deste bioma desde 1997.

Fonte: Conservação Internacional

  
  

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