Estudo revela efeitos do uso inadequado de solos

O professor Archimedes Peres Filho, do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp - Universidade Estadual de Campinas, está orientando há três anos trabalhos de pesquisa que avaliam o impacto ambiental provocado pelas culturas de soja nas cabeceiras do Rio

  
  

O professor Archimedes Peres Filho, do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp - Universidade Estadual de Campinas, está orientando há três anos trabalhos de pesquisa que avaliam o impacto ambiental provocado pelas culturas de soja nas cabeceiras do Rio Araguaia, e pelo uso inadequado da terra em áreas rurais e urbanas da região de Campinas (SP).

O diagnóstico feito pelo pesquisadorda Unicamp revela, por exemplo, que o estado atual de conservação e preservação do rio Araguaia, com 2.627 quilômetros de extensão – um dos mais importantes afluentes do Tocantins – está sofrendo as conseqüências de um processo quase sem controle, que especialistas denominam de arenização e assoreamento.

Já na região de Campinas, municípios como São Carlos, São Pedro e Itirapina, o uso inadequado das terras também provoca impacto negativo considerável, dando origem a processos erosivos intensos, denominados voçorocas.

A escavação profunda do solo, e muitas vezes da rocha sedimentar, atinge o lençol de água sub-superficial, problema que tanto pode ocorrer nas áreas urbanas quanto nas rurais, adianta Archimedes.

O principal propósito do professor do IG foi estudar a aplicabilidade, de maneira mais racional, do uso e ocupação das terras do território brasileiro, de forma a evitar ou pelo menos tentar minimizar que continuem sofrendo os impactos negativos da degradação do solo.

`Tentamos relacionar esse impacto, do ponto de vista geossistêmico, analisando os diferentes tipos de litologias do local investigado, como o tipo de solo, a forma do relevo e a cobertura vegetal existente. Pudemos perceber que a dinâmica da evolução natural sofria um aceleramento por meio da ação antrópica, isto é, as modificações provocadas pelo próprio homem`, diz Archimedes.

Na região do Rio Grande do Sul e parte do Centro-Oeste (Goiás), a introdução dacultura da soja, após a utilização do Cerrado pela pecuária, tem acelerado de modo intenso o processo erosivo, provocando cada vez mais assoreamento nos canais fluviais, `da mesma forma como ocorre atualmente no Rio Araguaia`, ressalta o professor.

A introdução da cultura da soja a partir da década de 70, em Goiás, substituindo áreas de Cerrado e ocupando inicialmente relevos com formas planas, não provocava o processo de erosão em sulcos profundos, já que a topografia favorecia o cultivo.

No entanto, na última década, a soja passou a ser cultivada em áreas não apropriadas, de acordo com a classificação de terras que tem como base o sistema de capacidade de uso. Isto é, em áreas com maiores declividades, associadas a solos muito arenosos, denominados areias quartzosas (que possuem menos de 15% de argila).

Essas areias são quimicamentepobres em cálcio, magnésio, potássio e são associadas a arenitos eólicos, dunares da Formação Botucatu (mais ou menos de 200 milhões de anos e que representam antigas áreas desérticas).

Nessas áreas, a retirada da vegetação nativa do Cerrado, tanto para a cultura da soja quanto para as pastagens, tem acelerado o processo de erosão, formando às vezes enormes voçorocas.

O material erodido é carregado através dos canais fluviais e depositado ao longo do canal do Rio Araguaia, assoreando e formando enormes bancos de areia.

`O fenômeno mais acentuado ocorre nas cabeceiras dos afluentes que formam o Rio Araguaia, mas o processo de acumulação mais intenso ocorre no médio curso do rio, justamente onde se encontram os maiores bancos de areia, decorrentes da ação antrópica na região`, explica Archimedes.

O sistema de erosão acelerado das terras vem acompanhando o processo de arenização do solo, que, como o próprio nome diz, compreende manchas expostas, constituídas de areias (grãos de quartzos) e localizadas em diversas áreas do território brasileiro.

Trata-se de um processo, evidentemente, diferente do denominado de desertificação, que tem sua origem em causas naturais, ao contrário da arenização provocada pela ação antrópica, por meio da retirada da cobertura vegetal (Cerrado).

`A ação dos ventos sobre a superfície e a criação extensiva de gado na área, semdúvida favorecem a ampliação de tais áreas, tornando-as totalmente improdutivas e altamente degradadas. Seriam futuros desertos?`, pergunta o professor.

Expansão urbana agrava problema

Para o docente, é evidente que em se tratando da cultura da soja há que se criar meios para também produzi-la, `pois as pessoas precisam comer`.

No entanto, do ponto de vista do potencial intrínseco da terra, pode-se afirmar que tais áreas não são apropriadas para culturas anuais e perenes e tampouco para pecuária extensiva, mesmo se apropriando de técnicas de conservação do solo.

A classificação das terras, com base nosistema de capacidade de uso, torna-se portanto fator fundamental para definição de uso e ocupação das terras, visando a melhor proteção do ambiente.

`Muitas vezes essa classificação de terras não é levada em consideração porórgãos responsáveis pela elaboração de políticas públicas, resultando na degradação do ambiente, cujas consequências serão fortemente sentidas pelas próximas gerações.

O grande problema que ocorre é exatamente esse: a introdução de culturas, no caso a soja, em regiões do Centro-Oeste do país, nos últimos 30 anos, e, mais recentemente (nos últimos 8 anos), no Sul do Maranhão, em terras que não são apropriadas ao seu uso`, explica Archimedes.

Por outro lado, áreas inicialmente ocupadas pela cultura, com solos argilosos, relevo plano, sem problemas com declividade (menos de 2%) e portanto, sem problemas de erosão, que possibilitam o uso de máquinas agrícolas e outras tecnologias apropriadas à cultura, podem ser classificadas como áreas adequadas para o seu cultivo.

Mas Archimedes admite que hoje ele tem uma preocupação: `embora seja uma terraadequada para esse tipo de cultura, o aumento da produtividade está intimamente ligado a um outro elemento rural, não muito disponível, naquelas áreas planas: a rede hidrográfica superficial`.

Com o uso intensivo desse recurso subterrâneo disponível na área, é necessário que se faça um planejamento muito bem ajustado às condições locais, pois a retirada da água subterrânea não voltará necessariamente para o mesmo sistema.

Esgoto doméstico :

Já no Estado de São Paulo, mais precisamente na região de Campinas, em municípios como São Pedro e Itirapina, a cultura do eucalipto predominante nesse tipo de terra pode apresentar problemas que começam a preocupar os pesquisadores: é que o solo dessas regiões é formado por areias quartzosas, entretanto com declividades próximas a 6%.

No período chuvoso (novembro a março), a água escorre pelo caule das plantas, concentra-se muitas vezes em pequenos canais, formando pequenos sulcos que, em curto espaço de tempo (em torno de 4 meses), podem evoluir para a formação de voçorocas com quilômetros de extensão e dezenas de metros de profundidade.

Segundo o professor, fato agravante no município de São Pedro está relacionado à própria expansão urbana, negligenciada pelo poder público local que permite inclusive loteamentos e construções de habitações para a população de baixa renda, em áreas que foram inadequadamente recuperadas.

Águas pluviais e esgotos domésticos são diretamente posicionados nas voçorocas, acelerando ainda mais o processo erosivo, além de trazer futuros problemas ambientais ligados à saúde da população local.

Parcerias :

O estudo, coordenado pelo professor Archimedes Perez Filho, também pesquisador do CNPq, está sendo desenvolvido pelo IG - Instituto de Geociências da Unicamp em parceria com docentes da Universidade Federal de Goiás, Universidade do Maranhão, Universidade Federal do Rio Grande do Sul e tem a participação no IG de estudantes bolsistas de Iniciação Científica em mestrado e em doutorado.

Fonte: Jornal da Unicamp

  
  

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