Greenpeace pede paz na floresta

O corpo de Irmã Dorothy, 74 anos, foi enterrado hoje às margens do rio Anapu, em uma área cercada de árvores frutíferas do sítio São Rafael, onde ela desenvolvia um projeto de educação ambiental e de reprodução de mudas de espécies nativas da Amazônia. A

  
  

O corpo de Irmã Dorothy, 74 anos, foi enterrado hoje às margens do rio Anapu, em uma área cercada de árvores frutíferas do sítio São Rafael, onde ela desenvolvia um projeto de educação ambiental e de reprodução de mudas de espécies nativas da Amazônia. A seu pedido, um pé de mogno será plantado no local, além de outras espécies nativas.

Durante a cerimônia, o bispo da Prelazia do Xingu, Dom Erwin Krautler, disse, emocionado: “Irmã Dorothy não será enterrada. Irmã Dorothy será plantada para que sua luta dê muitos frutos”.

A pedido do Padre Amaro, de Anapu, uma faixa pedindo Paz na Floresta foi aberta no caminho que leva ao local onde o corpo de Irmã Dorothy foi plantado. Uma missa foi celebrada no centro comunitário antes do sepultamento.

Em uma belíssima cerimônia, autoridades, representantes de movimentos sociais e organizações não-governamentais e moradores de Anapu prestaram suas últimas homenagens à missionária. Várias lideranças que trabalharam com Irmã Dorothy reafirmaram que, apesar da perda irreparável, a luta por uma Amazônia mais justa e pacífica continua.

Em nome dos movimentos sociais e organizações presentes em Anapu, o Procurador Federal da República, Felício Pontes, declarou: “Os madeireiros e grileiros que operam ilegalmente na Amazônia vão ter que matar cada um de nós. Nós não vamos desistir; vamos continuar lutando. Vamos expulsar cada madeireiro e grileiro de terra que continuar desafiando o Estado de Direito na Amazônia”.

Padre Amaro interrompeu a cerimônia de sepultamento para comunicar a morte de mais um colono em outra área de conflito em Anapu. Segundo informações do local, ele não conseguiu terminar a homilia depois disso.

`O crime contra irmã Dorothy deve ser investigado e punido exemplarmente. Porém, é fundamental resolver as causas da violência em regiões remotas da Amazônia,principalmente no Pará.

O governo precisa adotar medidas efetivas para resolução de conflitos fundiários decorrentes da invasão e grilagem de terras e florestas públicas e a consequente exploração predatória dos recursos naturais`, afirmou Paulo Adário, coordenador da Campanha Amazônia do Greenpeace, que está em Anapu.

O Procurador Felício Pontes denunciou hoje a falta de estrutura da Polícia Federal para realizar o trabalho de investigação com eficiência.

“Só para se ter uma idéia, os agentes da Polícia Federal que estão aqui estão hospedados em um barracão emprestado do sindicato, usando computadores que também são emprestados. Eles precisam de um helicóptero aqui, já que não conseguem chegar de carro ao local do crime”, afirmou Pontes.

O Greenpeace exigiu hoje dos governos federal e estadual uma série de medidas emergenciais e estruturantes para que a paz e a justiça não sejam esquecidas na floresta amazônica. Entre elas, destacam-se:

- A imediata presença de forte contingente da Polícia Federal em Anapu, adequadamente equipada, inclusive com helicópteros para localizar e prender os responsáveis pelo assassinato de Irmã Dorothy, assim como garantir a segurança e integridade física das comunidades locais;

- Proteção urgente aos três líderes dos Projetos de Desenvolvimento Sustentável, os chamados PDS: Padre Amaro, Chiquinho e Gabriel;

- Desapropriação urgente das áreas de litígio e retirada dos grileiros;

- Criação e implementação dos dois PDS defendidos por Irmã Dorothy;

- Presença do sistema de segurança do estado do Pará nas áreas de conflito;

- Zoneamento ecológico-econômico realizado de forma efetivamente participativa, garantindo os direitos das populações tradicionais;

- Criação e implementação das áreas de proteção integral e de uso sustentável, incluindo a reserva extrativista Renascer, em Prainha, e do mosaico de unidades de conservação na Terra do Meio, no Pará;

- Fortalecimento do Ibama, Incra, Funai e Polícia Federal dando a elas efetiva capacidade de atuação.

O caso será o primeiro crime de violação dos direitos humanos a ser transferido para a Justiça Federal. A decisão foi anunciada ontem pelo Procurador Geral da República, Cláudio Fontelles. Isso significa que a responsabilidade pela investigação será transferida para a Polícia Federal e a competência para o julgamento será de juízes federais.

Saiba mais:

Irmã Dorothy acreditava num futuro pacífico e sustentável. Defendia como poucos o patrimônio nacional dos ataques de grileiros e era incansável defensora de uma forte presença do Estado na Amazônia.

Há mais de 30 anos vivia na região da Transamazônica e dedicou quase metade de sua vida para dar voz às comunidades rurais, defendendo o direito à terra e lutando por um modelo de desenvolvimento sem destruição da floresta.

Trabalhava intensamente na tentativa de minimizar os conflitos fundiários, principalmente a grilagem de terras e a extração ilegal de madeira. Por causa disso, chegou a ser acusada, em 2001, de instigar a violência no município e recebeu inúmeras ameaças de morte nos últimos anos por causa de sua luta pela preservação da Amazônia. Também fez diversas denúncias sobre a participação de policiais civis e militares na expulsão de trabalhadores a mando de fazendeiros e grileiros da região.

Irmã Dorothy foi assassinada no sábado (12/02) por pistoleiros no Travessão do Santana, em Anapu, no Pará. O crime aconteceu quando ela seguia com outros companheiros para o Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança.

Fonte: Greenpeace

  
  

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