Livro reúne informações sobre potencial de medicamentos da Mata Atlântica

Há 16 anos, os biólogos Luiz Claudio Di Stasi e Clélia Akiko Hiruma-Lima, ambos do IB - Instituto de Biociências da Unesp - Universidade Estadual de São Paulo, campus de Botucatu (SP), iniciaram, na região do município de Humaitá, na Amazônia, um estudo e

  
  

Há 16 anos, os biólogos Luiz Claudio Di Stasi e Clélia Akiko Hiruma-Lima, ambos do IB - Instituto de Biociências da Unesp - Universidade Estadual de São Paulo, campus de Botucatu (SP), iniciaram, na região do município de Humaitá, na Amazônia, um estudo etnofarmacológico, ou seja, uma pesquisa que buscava aliar o conhecimento popular ao científico em busca de novos medicamentos farmacoterápicos e fitoterápicos.

O resultado está agora registrado no livro Plantas medicinais na Amazônia e na Mata Atlântica. Com 604 páginas, a obra, publicada pela Editora Unesp, é um dos raros registros brasileiros sobre plantas desses dois ecossistemas, expostos a constantes ameaças por explorações predatórias.

“O que resta da Mata Atlântica é pouco estudado”, lembra Di Stasi. “De todo o nosso ecossistema, apenas 5% é bem conhecido”, completa Clélia.

Muito mais que informações sobre o uso de fitoterápicos, o livro traz estudos do potencial medicamentoso e do grau de toxicidade de 135 espécies de vegetais comumente utilizados pelas comunidades ribeirinhas do rio Madeira e de seus afluentes, na Amazônia, entre elas a aldeia dos índios Tenharins, e também pelas populações rurais e urbanas dos municípios de Eldorado, Jacupiranga e Sete Barras, no Vale do Ribeira, região da Mata Atlântica paulista.

Reúne, ainda, informações preciosas de grande interesse para a indústria farmacêutica e para os habitantes locais, que vivem da extração e do comércio dessas plantas.

“Além da melhor utilização das plantas em benefício da saúde humana, esse conhecimento é importante para a exploração sustentável dos ecossistemas”, esclarece Di Stasi.

Quando Di Stasi e Clélia começaram a pesquisa, em 1987, a idéia era coletar plantas com propriedade analgésica para estudo em laboratório. A publicação de livros não estava nos planos. Mas diante do grande número de espécies encontradas e da riqueza dos depoimentos coletados entre os moradores das comunidades, os pesquisadores notaram a importância de preparar um material o mais completo possível e que pudesse ter ampla divulgação.

Os primeiros estudos foram publicados em 1989, também pela Editora Unesp, no livro Plantas medicinais da Amazônia, onde estão catalogadas 59 espécies medicinais da região.

“A atual edição é na verdade uma nova publicação, à qual se somaram os dados da primeira edição”, explica Di Stasi, que também assina alguns desenhos de plantas que ilustram o livro.

A publicação ainda tem o mérito de mostrar a possibilidade da convivência entre os rigores da academia e o empirismo do conhecimento popular, ao menos no que diz respeito aos fitoterápicos.

“De uma forma geral, a academia não valoriza o conhecimento empírico”, lamenta Di Stasi.

Mas neste caso, o livro prova a eficácia da costura entre o saber do povo e o acadêmico.Cada uma das 135 espécies está descrita pelo seu nome científico e popular, pelas diferentes maneiras como é empregada na medicina tradicional, pelos dados botânicos e farmacológicos do gênero.

A bióloga Clélia conta que, em Humaitá e no Vale do Ribeira, as abordagens à população sobre o uso medicinal das plantas encontradas eram realizadas de casa em casa. Os alvos eram as pessoas com maior conhecimento sobre as ervas, saberes que a própria população local atribui aos “raizeiros”, às benzedeiras e aos índios.

“Estamos vendo esses ecossistemas se acabarem sem serem catalogados, pois mesmo nessas comunidades só os mais antigos detêm esse conhecimento”, avalia.

De posse de algumas espécies já catalogadas pelos botânicos e com os relatos das aplicações populares, os pesquisadores partiram para o laboratório e se viram diante de algumas surpresas. É o caso, por exemplo, da espécie Croton cajucara, conhecida na região amazônica como sacaca e cajuçara.

De acordo com Clélia, naquele local, o chá preparado com as folhas e cascas é largamente empregado contra dores de estômago, febres, problemas hepáticos, malária, úlcera, gastrite e também como um eficaz emagrecedor.

Em laboratório, foi constatado, além do potencial para a cura de problemas estomacais e hepáticos, que em maior dosagem a planta exerce atividade hepatotóxica.

“O efeito tóxico da planta para o fígado, na realidade, era o que fazia as pessoas emagrecerem, já que elas ficavam doentes”, relata Clélia.

Por se tratar de uma planta endêmica, só utilizada na região amazônica, os pesquisadores elaboraram alguns artigos científicos com os resultados de análises em laboratório e de aplicações em ratos.

O intuito foi alertar a população sobre os efeitos tóxicos da Croton cajucara, responsável, inclusive, por alguns óbitos.

“Proporcionamos informações não somente quanto à forma correta de utilização das ervas, mas também quanto ao preparo”, esclarece Clélia.

Fonte: Jornal da Unicamp

  
  

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