1o.Fórum Alternativo Mundial da Água aconteceu em Florença na Itália com representantes brasileiros

A água não é uma mercadoria a ser explorada, é um direito humano universal. Esta é a palavra de ordem que, nos dias 21 e 22 de março, levou para Florença, na Itália, mais de 500 delegados de 45 países para participarem do 1o. Fórum Alternativo Mundial da

  
  

A água não é uma mercadoria a ser explorada, é um direito humano universal. Esta é a palavra de ordem que, nos dias 21 e 22 de março, levou para Florença, na Itália, mais de 500 delegados de 45 países para participarem do 1o. Fórum Alternativo Mundial da Água.

O Fórum Alternativo de Florença ocorreu, junto com o Fórum Social das Águas de Cotia (São Paulo), um dos eventos paralelos ao Fórum Mundial das Águas, em Kyoto, no Japão, organizado pelas Nações Unidas.

Tal qual o Fórum Social Mundial, que surgiu em 2001 como resposta ao Fórum Econômico de Davos, os encontros de Florença e Cotia representam a resposta da sociedade civil à subordinação das exigências dos povos, principalmente os dos países mais pobres, aos interesses comerciais das grandes corporações.

“O Fórum de Kyoto será apenas mais uma das muitas celebrações rituais da supremacia do mercado, do capital, do investimento privado, da iniciativa empresarial e da proclamação da água como ‘ouro azul’, condenada a ser a principal causa de novas ondas de conflitos de interesses e de futuras guerras”, explica o texto de apresentação do Fórum de Florença.

A privatização dos serviços de fornecimento de água, defendida pela ONU no modelo das chamadas PPP - Parcerias Público-Privadas, será um dos principais focos de debate em Florença.

“Na realidade, o modelo PPP de privatização demonstrou que não é nada mais que uma ferramenta efetiva das corporações transnacionais para alcançar o controle político e econômico dos recursos hídricos”, afirma o texto.

Atualmente, 1,1 bilhão de pessoas, quase 20% de população do planeta, sofrem com a falta de água potável e 2,4 bilhões (40% da população mundial) não têm acesso ao saneamento básico (ou seja, água encanada e esgoto tratado), segundo dados de um relatório da ONU divulgado este mês.

As doenças relacionadas ao consumo de água contaminada matam anualmente 3,2 milhões de pessoas, em maioria crianças menores de 5 anos de idade. A água também é elemento essencial na irrigação agrícola e na produção industrial e energética– três atividades que devem crescer exponencialmente nos próximos anos.

Os dois continentes em situação mais crítica são também os mais pobres: na Ásia, 63% da população não têm acesso adequado à água, e 80% vivem em moradias sem saneamento básico; na África, os índices são, respectivamente, de 28% e 13%.

A ONU reconhece que uma criança nascida no mundo desenvolvido consome de 30 a 50 vezes mais água que uma criança do Terceiro Mundo. O quadro tende a se agravar ainda mais devido ao aquecimento global: as estimativas da ONU dão conta de que as mudanças climáticas serão responsáveis por 20% do aumento da escassez de água no planeta.

Se nada for feito, 7 bilhões de pessoas – de um total de 9,3 bilhões da população mundial – sofrerão de alguma maneira com a falta de água em 2050. A situação é tão grave que 2003 foi declarado pela ONU o ano mundial da água potável.

As dezenas de ONGs e os grupos que promovem o Fórum de Florença não contestam o diagnóstico, e sim as propostas apresentadas.

“O Fórum de Kyoto não oferece esperanças concretas para as populações deserdadas e exploradas do planeta”, diz o documento preparatório. O Fórum de Kyoto é o terceiro encontro mundial sobre água promovido pela ONU: o primeiro aconteceu na Irlanda, em 1992, e o segundo em Haia, na Holanda, em 2000.

Em ambas as ocasiões foram estabelecidos princípios e metas para a melhoria das condições de acesso à água potável e segura. A própria ONU, no entanto, reconhece o não cumprimento das metas.

“A inércia das lideranças mundiais e a falta de consciência da população sobre a escala do problema mostram que falhamos em tomar as ações necessárias a tempo e em tornar os conceitos uma realidade”, acusa o relatório.

A fragilidade dos acordos estabelecidos pelas Nações Unidas ficou clara mais uma vez em setembro do ano passado – na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável de Johannesburg (África) – quando os interesses dos países ricos foram determinantes em impedir o avanço nas discussões.

As atividades do Fórum de Florença foram voltadas especialmente para a discussão de propostas de ação, e não apenas para a análise dos problemas. Ao final do evento, a organização chegou a um consenso para a assinatura do “Manifesto para uma Política Alternativa de Água”, que norteará a atividade dos vários grupos em seus respectivos países.

Na Europa, por exemplo, o objetivo mais urgente será tentar bloquear a iniciativa do comissário da União Européia para o comércio, o francês Pascal Lamy, que pretende levar para a próxima reunião da Organização Mundial do Comércio, em Cancun, uma proposta que obrigaria mais de cem países a privatizar seus recursos hídricos, que acabariam assim sendo geridos pelas grandes multinacionais do saneamento.

Se a proposta de Lamy fosse aprovada, centenas de milhões de pessoas, incluindo muitos que sobrevivem abaixo da linha da pobreza, seriam forçados a pagar pela água que usam.

Participaram do Fórum de Florença alguns dos maiores especialistas do mundo no assunto, como Ricardo Petrella, professor de ciências sociais na Universidade de Louvain, na Bélgica, e a economista e ambientalista indiana Vandana Shiva, fundadora da Research Fundation for Science, Technology and Ecology.

Com eles, estiveram também militantes de movimentos sociais, líderes políticos, acadêmicos, administradores locais (o Fórum será realizado com o apoio da prefeitura de Florença e do governo da região Toscana), o ex-presidente português Mário Soares, o diretor da revista francesa Le Monde Diplomatique, Ignácio Romanet, e o ativista dos direitos humanos Jean Ziegler.

Do Brasil, estiveram presentes integrantes do Movimento dos Atingidos por Barragens, o prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues e o senador Aloizio Mercadante, que participou de uma mesa-redonda sobre o papel dos parlamentares na adoção de políticas para garantir o acesso à água para todos.

O tema da guerra no Iraque também esteve no programa do Fórum: o vice-cônsul da Palestina na Itália, Ali Rashid, ministrou uma palestra intitulada “Água para a Paz”.

Fonte: Agência Carta Maior

  
  

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