Furnas, 40 anos de um lago incômodo

Por: Thadeu Melo – thadeu.melo@uol.com.br Chega a 1 milhão de pessoas de 34 municípios o número de mineiros a conviver com o lago artificial de Furnas, no oeste do estado, próximo à divisa com São Paulo. A barragem começou a ser construída em 1957, o r

  
  

Por: Thadeu Melo – thadeu.melo@uol.com.br

Chega a 1 milhão de pessoas de 34 municípios o número de mineiros a conviver com o lago artificial de Furnas, no oeste do estado, próximo à divisa com São Paulo. A barragem começou a ser construída em 1957, o represamento iniciou 1963, mas até hoje um dos argumentos para sua criação ainda não conseguiu ser comprovado. Geração de empregos e renda, a partir do turismo, não é uma realidade para os nativos e investidores da região. Pior, o lago acumula um carma proporcional ao número de seres que afetou ou às toneladas de esgoto que repousam em seu leito.

Pompílio Canavez, representante da Fundação de Ensino e Promoção Ambiental da Região do Lago de Furnas – Funlago, expôs a situação do entorno da barragem durante o debate "Água e turismo", realizado quarta-feira no Fórum Social das Águas da América Latina, em Cotia (SP). "A barragem causou um trauma tão grande nos moradores que ninguém queria ouvir falar do lago", conta Canavez, referindo-se a um período de mais de 30 anos. O investimento no potencial turístico da região, ainda incipiente, teria iniciado apenas no fim da década passada, sem incentivo algum do governo de Minas Gerais, da União ou da concessionária Furnas.

Iludidas com uma indenização irrisória, em uma época sincronizada com o golpe de 1964, as pessoas atingidas tinham receio de reclamar seus direitos para não configurar uma afronta ao regime militar instalado. Calados, sem terra e teto, muitos migraram para outras cidades e estados ou conviveram com a agressão até que a região pudesse ser considerada um atrativo relevante por eles mesmos. Assim, a maioria dos empreendedores do setor são de outras localidades, principalmente de São Paulo, de onde também é o maior número do pequeno contingente de turistas e para onde a maioria migrou. Segundo Canavez, "os primeiros investidores ainda estão se recuperando dos prejuízos causados durante a época do ‘apagão’, quando o nível do lago chegou a apenas 20% de sua capacidade".

Patrimônio dilapidado
Levantamento de uma empresa espanhola teria orçado em 350 milhões de dólares a renda que poderia ser gerada anualmente com a indústria do turismo no entorno do lago artificial. O apelo ecoturístico e pela pesca esportiva é considerado condizente com a beleza dos atrativos da região, privilegiada pela natureza com florestas, cerrados, cânions com cachoeiras e um lago artificial com área de 1.473 km², perímetro de 3,7 mil km (quase a metade da costa brasileira), com um volume de água sete vezes maior que o da baía de Guanabara.

Direta ou indiretamente, o esgoto de 139 municípios é lançado no lago de Furnas. A cidade de Serra Negra, com 3 mil habitantes, seria a exceção, juntamente com Varginha, que começa a implantar tratamento. Com o despejo irresponsável, os efluentes urbanos somam-se aos agrícolas e possibilitam a proliferação de algas prejudiciais ao funcionamento das turbinas e ao equilíbrio ecológico da persistente fauna do lago. "Espécies nativas de peixes costumam desaparecer quando se instalam barragens, mas a introdução do tucunaré (peixe amazônico) para a prática da pesca esportiva está potencializando esse processo em Furnas", declarou Canavez no evento.

O tucunaré, com sua voracidade, estaria devorando os peixes que servem de sustento para cerca de 4 mil pescadores profissionais em atuação na região. Daí outro desgosto causado pelo reservatório aos nativos: estabeleceu-se um conflito entre os profissionais e os praticantes da pesca esportiva, fascinados pela relutância do tucunaré.

A Funlago atua para acabar com a privatização do acesso ao lago, pelo tratamento dos efluentes e pela redução do uso de agrotóxicos nas lavouras vizinhas, esclarecendo a situação para que pescadores e estudantes se mobilizem. Se a barragem é motivo de tantos transtornos, a população da região espera agora que esse "acidente geográfico" possa trazer, além da energia elétrica, algum benefício para suas vidas.

Fonte: EcoAgência de Notícias - www.ecoagencia.com.br

  
  

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