Jacutingas correm risco de desaparecer de reservas florestais de São Paulo

A jacutinga é uma ave de porte médio, parece uma galinha com hábitos florestais.

  
  

Um mistério preocupa biólogos que realizam pesquisas com aves e mamíferos dispersores de sementes na Floresta Atlântica. Ave estratégica para o bioma, a jacutinga (Aburria jacutinga) não mais é avistada com facilidade, como ocorria até meados desta década no Parque Estadual Carlos Botelho (PECB). A área protegida tem quase 38 mil hectares e detém a maior população continental dessa espécie, da família Cracidae. O parque fica no contínuo ecológico da Serra de Paranapiacaba, no sul do estado de São Paulo, é o trecho remanescente de Mata Atlântica mais significativo do país.

Não surpreende saber que a jacutinga - considerada um excelente indicador ecológico - sumiu do mapa em regiões sob forte pressão de especuladores imobiliários, caçadores e palmiteiros, tais como a Serra do Mar, o Alto Paranapanema e o Vale do Ribeira. O sinal amarelo acende, porém, com seu sumiço justamente em Carlos Botelho, uma das 'jóias da coroa' nos 7% que sobraram dessa floresta. Por seu excelente estado de conservação, só na última década o parque motivou uma centena de pesquisas sobre fauna e flora e é visto como um bastião da biodiversidade.

A jacutinga é uma ave de porte médio, parece uma galinha com hábitos florestais. Quando voa, faz um barulho provocado pelo contato das penas finas de suas asas com o ar, um 'rasgar de asas' imitado até em algumas músicas instrumentais. Pesa no máximo 1,5 quilo e tem 70 centímetros de altura. Faz ninho em bromélias e galhos grossos. Durante o dia, perambula sozinha ou em bando, tanto pelo chão como no alto das árvores, atrás de frutos como os de palmito-juçara (Euterpe edulis) e da embaúba (gênero Cecropia). Pode ser vista comendo frutos junto com outras aves menores e mais leves, como os tucanos. Segundo o biólogo Alexsander Zamorano, pesquisador do Instituto Florestal (IF), de São Paulo, a jacutinga usa muito mais a copa das árvores que seus parentes jacus, e também voa mais alto, sobretudo na época de reprodução.

Por seu jeito manso e pouco discreto, sempre foi alvo fácil para caçadores e palmiteiros, em sua ampla área de distribuição, da faixa de Mata Atlântica do Brasil ao Nordeste da Argentina e Leste do Paraguai. Mas as perspectivas de sobrevivência complicaram com o avanço da agricultura e das cidades sobre a floresta, provocando sua fragmentação e degradação, mesmo onde não houve corte raso. Gradativamente, a caça e a destruição do hábitat encurralaram a jacutinga, confinando-a em áreas cada vez menores e levando algumas populações à extinção. Abundante até a década de 1950, a ave hoje sobrevive apenas em algumas poucas unidades de conservação, a maior parte no estado de São Paulo. O total de indivíduos é estimado em cerca de 7 mil.

Na edição de 2003 da Lista Vermelha de Fauna Ameaçada de Extinção do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a jacutinga é classificada na categoria 'em perigo'. Na versão paulista da lista, publicada em 2008 pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente, consta como 'criticamente em perigo'.

O problema se agrava a partir dos anos 1990 por conta da intensificação do corte criminoso de palmito-juçara, roubado inclusive do interior dos parques. Para a jacutinga, isso se traduz em 2 fatores de pressão: diminuição de uma de suas principais fontes de alimentação e aumento do consumo ilegal de sua carne.

Fonte: Rede de Ong's da Mata Atlântica

  
  

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