Macaco-prego é capaz de inventar atalhos pela mata, dizem pesquisadoras

Os macacos-pregos (Cebus nigritus) do Parque Estadual Carlos Botelho, a cerca de 250 km ao sul de São Paulo, não perambulam a esmo pela mata, nem se prendem a rotas fixas em busca de comida.

  
  

Ao contrário de muitos humanos da cidade, os macacos-pregos não conhecem os caminhos até suas árvores favoritas apenas porque os decoram. Pesquisadoras brasileiras se enfiaram no meio da mata e descobriram que eles são capazes de inventar atalhos por dentro da floresta até o local onde tomarão café da manhã no dia seguinte. Isso exibe um grau de planejamento espacial até agora só observado em dois primatas altamente intelectuais: humanos e chimpanzés. Mais uma habilidade especial na lista desse gênio da selva.

Os macacos-pregos (Cebus nigritus) do Parque Estadual Carlos Botelho, a cerca de 250 km ao sul de São Paulo, não perambulam a esmo pela mata, nem se prendem a rotas fixas em busca de comida.

"Você decorou um caminho. Sempre passa pela avenida Paulista. Mas se tiver que dar uma volta na alameda Santos não consegue, não sabe", exemplifica Mariana Fogaça, bióloga da USP (Universidade de São Paulo). Não é o caso dos macacos: se morassem na cidade e não na floresta, poderiam picotar o Jardim Paulista inteiro sem se perderem. Quem tem noção espacial consegue sair da sua trilha e ainda assim voltar.

Ainda na analogia paulistana, os animais saberiam de cor quais são os melhores restaurantes da região. As cientistas descobriram que eles se lembram das árvores onde já pegaram frutas. Quanto mais carregadas as árvores de uma região, mais eles correm até elas.

Onde comer amanhã?

As pesquisadoras, várias vezes, mediram a distância do local onde os macacos passaram a noite até a última árvore onde comeram antes de dormir. Mediram também a distância até a primeira árvore onde comeram no dia seguinte. Resultado: os bichos iam dormir perto da árvore que atacariam quando acordassem no dia seguinte.

Ou seja, os macaquinhos não escolhem qualquer canto para dormir. Eles planejam as suas atividades futuras. As pesquisadoras enxergam os resultados como um golpe no antropocentrismo. "A gente superestima a capacidade humana, achamos que ela é supercomplexa", diz Patrícia Izar, psicóloga experimental da USP e orientadora do estudo.

Correndo atrás de macaco

Observar o comportamento de bandos de animais com menos de 1 metro de comprimento e que vivem no alto das árvores na mata atlântica não é trivial. As pesquisadoras passaram de 12 a 15 dias por mês no meio do mato, por mais de dois anos.

Maluquice? "Todo mundo acha. A família, a maioria das pessoas que você comenta faz uma cara estranha", diz a geógrafa Andrea Presotto. Elas não desgrudam de seus objetos de estudo, nem quando eles se perdem na floresta. "A gente corre quando é para correr. Quando eles param a gente para, às vezes almoçando em pé."

São 13 ou 14 horas por dia atrás dos macacos-pregos. Não, elas não dormem sob as árvores --há um alojamento para pesquisadores no parque. "O grande mérito do trabalho é a observação naturalística", diz Izar. "Em laboratório os resultados são mais pobres".

É fácil descobrir se alguém não têm boa noção espacial vendo ela se perder nas alamedas em torno da avenida Paulista, mas bem mais difícil observando o seu comportamento dentro de uma casa fechada.

Macacos piauienses

As pesquisadoras da USP querem, agora, comparar o comportamento desses macacos-pregos da mata atlântica com o dos que vivem no Piauí, onde a geografia é bem diferente: cerrado, sem tantas árvores.

"No Piauí, existem aqueles morros no meio das chapadas. No alto desses morros você tem uma visão em 360 graus. Você tem chance, então, de planejar diferente. Lá, por exemplo, eles sempre voltam para dormir no mesmo lugar. Isso não acontece na mata atlântica", diz Izar.

Fonte: Rede de ONGs da Mata Atlântica

  
  

Publicado por em