Pesquisador da Embrapa alerta que moratória á biotecnologia trará prejuízos ao país

Prejuízo econômico e atraso tecnológico são algumas das conseqüências apontadas pelo engenheiro agrônomo Luiz Antônio Barreto de Castro, chefe-geral da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, caso o Brasil adote a moratória aos organismos geneticament

  
  

Prejuízo econômico e atraso tecnológico são algumas das conseqüências apontadas pelo engenheiro agrônomo Luiz Antônio Barreto de Castro, chefe-geral da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, caso o Brasil adote a moratória aos organismos geneticamente modificados.

Castro, como outros pesquisadores da unidade, que trabalham com engenharia genética há duas décadas, está preocupado quanto ao futuro da pesquisa, devido a opinião contrária do Partido dos Trabalhadores (PT) ao uso de transgênicos.

Para ele, a biotecnologia é a única alternativa ao uso de defensivos agrícolas químicos, que contaminam os lençóis freáticos, o solo e causam danos à saúde humana.

"Áreas cultivadas, em outras partes do mundo, com algodão, que recebiam 15 pulverizações com inseticida para combater o bicudo do algodoeiro, hoje recebem apenas uma ou não recebem pulverização quando são plantadas com a variedade transgênica, o algodão Bt, que tem um gene que confere resistência ao agrotóxico", observou.

Em entrevista, à editoria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente da Agência Brasil, ele rebateu acusações de que estaria beneficiando empresas multinacionais como a Monsanto, que tem acordo de cooperação técnica com o Cenargen para produção de soja transgênica.

"Nunca defendi as multinacionais, acho até que a Monsanto errou quando veio para o Brasil e adotou a política de comprar várias empresas brasileiras, a Agroceres foi uma delas. Acredito que isso deu a impressão negativa de que a empresa queria dominar o mercado. Isso, de certo modo, influencia, hoje, a opinião pública quanto aos transgênicos", disse.

A moratória aos transgênicos no Brasil existe desde 98, por uma decisão judicial que embargou qualquer experimentação em campo. Castro alertou para o risco da ilegalidade, advindo dessa decisão, e apresentou dados da Associação Brasileira de Sementes (Abrasem) de que 25% da soja plantada no país, hoje, é transgênica. Isso equivale a quatro milhões de hectares. O número é uma estimativa baseada na retração da demanda por soja convencional.

"No Cerrado, por exemplo, aumentou a área cultivada de soja em 10%, mas os produtores consomem menos 5% de soja convencional. Ou seja, há sementes vindo de outro lugar e certamente devem ser transgênicas. Estima-se que 15% da soja do Cerrado já seja transgênica", alertou Castro.

A pesquisa perde, segundo ele, porque as agências financiadoras deixam de investir em pesquisas que não terão retorno útil à sociedade, na medida em que o mercado não comercializa a variedade transgênica, com a proibição judicial. A indústria de sementes perde porque deixa de vender a semente tradicional, à medida que os produtores plantam ilegalmente a planta transgênica.

A Embrapa também é prejudicada porque 60% da soja plantada no Brasil é de cultivares produzidas pela empresa pública de pesquisa agropecuária. Com menos consumo de soja convencional, menos royalties a empresa recebe. Castro ressaltou ainda que a Embrapa também perde na medida em que tem 10 cultivares geneticamente modificadas com genes que conferem resistência às plantas e, devido à moratória, não pode lançá-las ao campo.

A agricultura com soja geneticamente modificada daria ao Brasil, de acordo com o agrônomo, uma competitividade inigualável ao país em relação aos Estados Unidos, que tem hoje 80% de sua área cultivada com plantas geneticamente modificadas. Outro alerta feito pelo pesquisador é quanto à perda de competitividade frente a concorrentes como Canadá, Índia e China, que produzem algodão transgênico.

"Esses mercados logo vão quebrar o algodão brasileiro. Esse ano, já houve, por exemplo, redução da área plantada no Mato Grosso", previu. A entrada ilegal de algodão transgênico no Brasil, para Castro, é uma questão de tempo. Outra tese do agrônomo é a de que os produtores de agroquímicos são os únicos que ganham com o atraso da adoção da biotecnologia, em todo o mundo. "A maioria deles é da Europa, onde os transgênicos também enfrentam muita resistência", acrescentou.

O mercado de herbicidas e inseticidas movimenta anualmente US$ 2,5 bilhões e esse é o motivo pelo qual, na opinião de Castro, essas empresas não investem para a mudança de tecnologia.

"Eles não têm pressa de substituir, essa é a verdade".Castro defende a biotecnologia como a única "limpa" e de uso comercialmente viável para a agricultura de larga escala para redução do uso de agrotóxicos, embora reconheça a importância das pesquisas com controle biológico.

"Infelizmente só há um exemplo de sucesso de controle biológico, na agricultura de larga escala, que é o baculovírus. Esse vírus controla a lagarta da soja. É uma alternativa importante, mas não conseguiu substituir os agrotóxicos", exemplificou.

Barreto, que é filiado ao PT desde 1989, acredita que prevalecerá o bom-senso entre os membros do partido que colaboram para a elaboração do plano de governo.

"É preciso examinar essa questão objetivamente e cientificamente, do ponto de vista dos interesses do país, da Embrapa e da sociedade, sem a visão distorcida de que foram as multinacionais que trouxeram essa tecnologia para fazer descer pela nossa goela. Digo isso porque não é fácil competir internacionalmente e a agricultura brasileira vai ter que carregar esse peso se não adotar a biotecnologia e ainda vai continuar pagando todo ano US$ 10,7 milhões de agroquímicos", concluiu.

Fonte: Agência Brasil

  
  

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