Pesquisadores anunciam descoberta de cafeeiro descafeinado

A revista Nature publicou um artigo assinado pelo professor Paulo Mazzafera, do Instituto de Biologia da Unicamp - Universidade Estadual de Campinas, e pelos pesquisadores Maria Bernadete Silvarolla e Luís Carlos Fazuoli, do IAC - Instituto Agronômico de

  
  

A revista Nature publicou um artigo assinado pelo professor Paulo Mazzafera, do Instituto de Biologia da Unicamp - Universidade Estadual de Campinas, e pelos pesquisadores Maria Bernadete Silvarolla e Luís Carlos Fazuoli, do IAC - Instituto Agronômico de Campinas, anunciando a descoberta de um pé de café naturalmente descafeinado. A planta estava entre mais de duas mil covas da variedade Coffea arabica vindas da Etiópia em 1965.

“Ela possui 20 vezes menos cafeína em comparação ao café arábica responsável por 80% da comercialização mundial. Se o café que tomamos traz de 1% a 1,2% de cafeína, as análises em laboratório desta espécie apontaram somente 0,06%, praticamente zero. Trata-se de uma descoberta que vai colocar o café brasileiro novamente em evidência”, afirma Paulo Mazzafera.

Foram descobertas três plantas pertencentes à mesma família, batizadas AC1, AC2 e AC3, em homenagem a Alcides Carvalho, geneticista de café do Instituto Agronômico que criou a maioria das variedades comerciais de arábica hoje cultivadas no Brasil, falecido em 1992.

As AC foram localizadas pelos pesquisadores brasileiros em meados do ano passado, justamente quando a mesma Nature noticiava a produção, por cientistas japoneses, de cafeeiros geneticamente modificados e contendo cerca de um terço da cafeína das variedades mais difundidas.

No entanto, além da resistência de parte da população aos produtos transgênicos, o professor da Unicamp alerta para outro problema importante não enfatizado pelos japoneses: “Eles modificaram um Coffea canephora, considerado uma ‘bebida neutra’, sem gosto. Somente agora estão aplicando a técnica para a espécie arábica, que é de alta qualidade”, observa.

Engenheiro agrônomo por formação, Paulo Mazzafera foi iniciado nas pesquisas com café por Alcides Carvalho, especializando-se em fisiologia vegetal. Ele buscava uma planta menos cafeinada havia 17 anos.

“No começo fazíamos cruzamentos entre espécies, um processo muito demorado e que não apresentou resultados. Depois analisamos quase todas as plantas que fazem parte do Banco de Germoplasmas do Instituto Agronômico. Só recentemente passamos a avaliar o material da Etiópia”, recorda o professor.

Ele explica que Carvalho preservou esse lote principalmente para observações genéticas, sem objetivos comerciais imediatos.

“Ali foram encontradas plantas com até metade do teor das variedades comerciais, mas descartadas porque a meta era um café sem cafeína”, acrescenta.

Com a descoberta das AC, surgem dois caminhos. Um deles é simplesmente retirar sementes, produzir mudas e iniciar seu plantio comercial, com fertilização adequada, proteção contra doenças e pragas e demais cuidados agronômicos, verificando seu potencial produtivo.

“Um problema é a produtividade, que estimamos ser de 30% em relação às variedades disseminadas. E existe a questão do preço, que precisa ser competitivo diante do café descafeinado industrialmente e dos produtos modificados geneticamente. Se valer a pena, é provável que em cinco anos possamos colher os primeiros grãos desse café”, estima o pesquisador.

O segundo caminho, que será efetivamente seguido, é a transferência desta característica das AC para variedades comerciais altamente produtivas de Coffea arabica, como a Mundo Novo e a Catuaí.

“Por esse processo de melhoramento tradicional, através de cruzamentos, teríamos uma planta produtiva e descafeinada em 15 anos.

O fato de trabalharmos dentro da mesma espécie (arábica) vai encurtar o tempo pela metade, já que não precisaremos eliminar muitas características ruins que surgem no cruzamento entre espécies diferentes”, esclarece Mazzafera.

Fonte: Unicamp


  
  

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