Professora patenteia método para classificar própolis com marcadores químicos

O Brasil ainda não descobriu todo o potencial alimentar e medicamentoso da própolis, uma substância produzida pelas abelhas, resultante de materiais coletados em brotos de plantas, flores e árvores, apesar de ser um dos oito maiores produtores do mundo, c

  
  

O Brasil ainda não descobriu todo o potencial alimentar e medicamentoso da própolis, uma substância produzida pelas abelhas, resultante de materiais coletados em brotos de plantas, flores e árvores, apesar de ser um dos oito maiores produtores do mundo, com mais de 150 toneladas por ano.

Apesar desta disponibilidade, a própolis ainda é pouco consumida pelo mercado nacional e menos ainda no exterior.Enquanto isto, o Japão, cujo mercado interno foi incentivado por empresas brasileiras, movimenta anualmente US$ 300 milhões.

Por falta de maior agressividade comercial e não se enquadrar nos padrões e exigências de classificação por propriedade química, o Brasil perde espaço, inclusive para países que copiam o seu modelo de comercialização.As formulações utilizadas pelas empresas nacionais baseiam-se principalmente na cultura popular que emprega o mel na formulação de remédios caseiros.

O que as empresas pretendem é valer-se destes conhecimentos adquiridos no decorrer de muitos anos fornecendo produtos já prontos à população que os consomem a longa data. Todas as empresas do setor são de micro e pequeno porte, com faturamento médio de R$ 20 mil mensais.

Em busca de soluções que revertam esta situação, a professora Maria Cristina Marcucci Ribeiro, da Universidade Bandeirante de São Paulo (Uniban) desenvolveu e patenteou um processo que analisa e classifica os tipos de própolis segundo marcadores químicos. Seus trabalhos resultaram em duas patentes registradas no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) e financiadas, em 2002, pelo Núcleo de Patenteamento e Licenciamento de Tecnologia (Nuplitec) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

A primeira patente, denominada pela pesquisadora de “patente-mãe”, trata do processo da análise e determinação do tipo de própolis segundo marcadores químicos nas principais regiões brasileiras produtoras, como Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

“Esse levantamento permitirá estabelecer padrões para a própolis obtida em cada região, facilitando a produção de medicamentos”, explica Maria Cristina.

O professor Yong Park, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, que também classificou a própolis brasileira, por meio de suas características fisico-químicas e suas propriedades biológicas, explica que foram coletadas cerca de 500 amostras de própolis, produzidas por abelhas da espécie Apis mellifera, nas regiões Sudeste, Sul, Centro-Oeste e Nordeste.

As respectivas amostras foram extraídas com etanol sendo o extrato etanólico de própolis (EEP) analisado por métodos físico-químicos tais como espectro de absorção na região UV-visível (“UV scanning”), cromatografia (técnica para separar misturas) em camada delgada de alta eficiência em fase reversa (CCDAE-FR) e cromatografia líquida de alta eficiência em fase reversa (CLAE-FR).

De acordo com Yong Park, os extratos foram analisados ainda quanto a sua propriedades fisiológicas tais como atividade antioxidante, antiinflamatória, antimicrobiano, citotóxica contra células cancerosas e anti-HIV. Com dados obtidos a partir das análises fisico-químicas (“UV- scanning", CCDAE-FR e CLAE-FR) foi possível classificar a própolis em 12 grupos distintos. Das amostras, cinco foram coletadas na região Sul, seis na região Nordeste e uma na região Sudeste do país.

“Essa diversidade de própolis se deve a variabilidade da vegetação nessas diferentes regiões”, ressalta o professor.Após a classificação das própolis, foram realizados os testes de atividades fisiológicas onde verificou-se que, dependendo do tipo da própolis, variava a sua atividade biológica.

Com relação à atividade antimicrobiana, verificou-se que a própolis do grupo 6 apresentou alta atividade contra as bactérias Staphylococcus aureus e Streptococcus mutans, sendo seguido pelas amostras do grupo 3,7 e 12. Já com relação à atividade antioxidante, praticamente todos os grupos apresentaram alta atividade (acima de 80%) exceto a própolis do grupo 9 que não apresentou atividade antioxidante.

No estudo da inibição da enzima hialuronidase, capaz de degradar mucopolissacarídeos do tecido conjuntivo e é responsável por alguns processos inflamatórios, as amostras coletadas no Nordeste foram as que indicarm os melhores resultados (grupos 6, 7 e 8), no entanto, a que apresentou a menor atividade também foi coletada nesta região (grupo 11).

Verificou-se ainda as atividades citotóxicas e anti-HIV e observou-se que as amostras classificadas nos grupos 6 e 7 apresentaram alta atividade citotóxica contra diferentes células tumorais malignas e as amostras dos grupos 1 e 5 demonstraram atividade anti-HIV.A professora Tereza Neuma, do departamento de química da Uniban, acrescenta que devido às suas diversas propriedades biológicas, a própolis tem sido cada vez mais utilizada na indústria farmacêutica, nas mais diversas formas, como pomada, cremes, géis, soluções hidro-alcóolicas e sabonetes.

Ela esclareceu que o grupo de trabalho da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) é o único do país que vem atuando na área de microemulsões em diversas aplicações.Já a segunda patente da professora Maria Cristina trata da formulação à base dessa resina vegetal para o uso odontológico, sem álcool, o que a torna completamente diferente dos produtos similares disponíveis no mercado.

O trabalho de tipificação da própolis contabiliza mais de 2 mil amostras analisadas. Para chegar ao anti-séptico bucal dissolvido em água, que tem patente pedida no Brasil, foram feitos testes em bactérias cariogênicas (causadoras de cáries) com a participação do professor Walter Bretz, da Universidade de Pittsburg, nos Estados Unidos.Os testes consistiram em recolher saliva com alta concentração de bactérias, que foi incubada com o enxaguatório bucal.

“A formulação com a própolis inibiu todas as bactérias cariogênicas”, descreve Maria Cristina. Coube a Bretz estudar a aplicação da própolis nos tecidos inflamados da gengiva e na recuperação de dentes, “com excelentes resultados”.

O estudo de estabilidade está sendo conduzido na Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul). “Esse teste, uma das últimas etapas do processo, é fundamental para avaliar por quanto tempo o produto permanece estável, sem criar fungos”, relata a professora.Atualmente, Maria Cristina trabalha na relação da composição química da própolis com a respectiva atividade biológica.

“Estabelecidos os tipos químicos, estamos colocando dentro os modelos experimentais biológicos para ver qual tipo serve para determinada doença”, relata.

Dessa forma, a própolis com melhor resultado para Helicobacter pylori, a bactéria que causa úlcera gástrica e tumores no aparelho digestivo, por exemplo, poderá ser transformada em medicamento pela indústria farmacêutica.

O Brasil produz hoje cerca de 35 mil toneladas de mel e aproximadamente 150 toneladas de própolis por ano. Com relação aos restante do globo estamos entre os oito maiores produtores. O primeiro lugar é da China com 150 mil toneladas anuais, seguida da Argentina com 90 mil toneladas anuais, volume similar a produção norte-americana.

O Brasil é um dos países com o mais baixo consumo de mel per capita dentre os países produtores, da ordem de 70 g/habitante ano contra 1300 g/habitante ano nos países desenvolvidos do hemisfério norte. Mesmo baixo este consumo só é viabilizado com a adição do mel como sub- produto na fabricação de iogurtes, bolachas, cigarros e principalmente na mistura com outros produtos apícolas ou plantas medicinais.

Estas misturas representam hoje cerca de 70% do faturamento das empresas do setor que, atualmente, comercializam cerca de 70% da produção nacional, sendo o restante empregado nos outros produtos citados.O crescimento nacional tem ocorrido exatamente nesta área, e tem sido inclusive copiado por países como a Argentina, Austrália, Nova Zelândia, EUA e França. Só o mercado de própolis, que foi introduzido no Japão por empresas brasileiras, movimenta hoje US$ 300 milhões conforme dados da Jetro, órgão do governo japonês. Este mercado já foi dominado pelo produto brasileiro, que hoje perdeu muito terreno para concorrentes internacionais.

Fonte: Agência Brasil

  
  

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