Projeto gera tecnologia para a habitação em áreas de encostas

Área de risco: a casa vai morro acima, construída sem respeito a critérios técnicos e ao meio ambiente. A cena é inadequada, perigosa e comum a diversas cidades brasileiras. Mas se essa ocupação não é ideal, poderia pelo menos levar em conta critérios téc

  
  

Área de risco: a casa vai morro acima, construída sem respeito a critérios técnicos e ao meio ambiente. A cena é inadequada, perigosa e comum a diversas cidades brasileiras. Mas se essa ocupação não é ideal, poderia pelo menos levar em conta critérios técnicos, evitando acidentes e prejuízos.

E é nesse sentido que trabalha uma equipe de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), com o projeto Desenvolvimento de tipologias para habitações de interesse social em encostas, sistematização de procedimentos para sua concepção e subsídio à revisão de critérios urbanísticos aplicáveis.

Com aporte financeiro do Programa de Tecnologia Para Habitação (Habitare), financiado pela FINEP e Caixa Econômica Federal, a pesquisa vem sendo desenvolvida com o objetivo de gerar subsídios para a concepção de ocupações habitacionais de interesse social em áreas de encostas.O projeto trata também do desenvolvimento de novas tipologias para estes locais, para pequenos assentamentos de até 100 unidades.

Além disso, tem como meta gerar subsídios para revisão e elaboração de normas urbanísticas municipais ligadas ao uso habitacional do solo em encostas.O trabalho parte da experiência de pesquisadores que há anos vêm auxiliando o poder público na recuperação de assentamentos destruídos por acidentes como escorregamentos e desabamentos.

"O contato com este tipo de desastre levou, além da triste e óbvia constatação de que as encostas afetadas poderiam ter sido ocupadas de forma mais adequada, à busca do desenvolvimento de instrumentais que permitissem melhores critérios na ocupação`, explica o coordenador da pesquisa, o arquiteto e pesquisador do IPT Flavio Farah.

Ele lembra que o IPT disponibilizou pela primeira vez no Brasil uma carta geotécnica para áreas urbanas, elaborada para os Morros de Santos e São Vicente, na década de 70."O documento que oferecia dados para ocupação mais segura de alguns dos morros da Baixada Santista foi porém `esquecido`, sendo parcialmente ativado somente durante a elaboração do Plano Diretor de Santos, na década de 80", lamenta.

"Esse é um sintoma do descompasso entre a produção técnica e a efetiva absorção de seus benefícios pela sociedade", analisa o pesquisador, que voltou seu doutorado a esta problemática, desenvolvendo a tese Habitação e Encostas, junto ao Curso de Pós-Graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), em 1998.

Etapas

Em busca de uma nova resposta à problemática da ocupação das áreas de morros no país, a pesquisa integrada ao Habitare partiu da elaboração de um roteiro para levantamento de dados de meio físico em encostas.

A série de investigações permite caracterizar as capacidades e restrições da área escolhida para a construção do conjunto habitacional. Leva também em conta sua localização em relação à cidade (do ponto de vista técnico, sua inserção no tecido urbano), a infra-estrutura disponível na área e proximidades, além de alertar para a verificação de interferências de elementos na insolação e ventilação das futuras moradias.

O roteiro inclui ainda o levantamento das características hidrológicas, auxiliares na elaboração de recomendações para sistemas de drenagem e de dimensionamento e proteção de taludes.Leva em conta também o comportamento das águas subterrâneas (que podem exigir cuidados especiais na construção de taludes de corte e aterros).

Ainda destaca a necessidade de verificação de áreas de empréstimo e de bota-fora nas imediações, além da identificação da situação das redes públicas implantadas. Para aplicação e o aperfeiçoamento do roteiro, o grupo de pesquisadores desenvolveu trabalhos no município de Jacareí, em São Paulo, com a colaboração da prefeitura local.

A experiência prática em quatro áreas selecionadas no município vem possibilitando a elaboração de projetos de habitações agrupadas em encostas, incluindo a caracterização de projetos arquitetônicos e urbanísticos baseados nas condicionantes dos terrenos. Um trabalho que conta com a atuação de profissionais de arquitetura, geotecnia e geologia.

De acordo com o coordenador do projeto, a concepção das construções seguiu dois balizadores principais, identificados de antemão como estratégicos na concepção de projetos para encostas. Primeiro, a avaliação das capacidades e restrições dos terrenos (com ênfase na capacidade quanto a cortes e aterros e quanto ao porte das edificações).

Segundo, a verificação simultânea das declividades e da orientação do terreno, que definem as características de insolação da área."O trabalho alerta para o cuidado com a insolação das construções, destacando a preocupação com o direcionamento das aberturas e da própria construção, para que esta não permaneça na área de projeção de sombra de prédios ou outros obstáculos próximos", explica o professor, lembrando que para atender a estes requisitos, a insolação de aberturas foi concebida com o auxílio da computação gráfica, que permitiu sua simulação.

A experiência vem fornecendo subsídios para a elaboração de material para publicação sobre habitação e encostas, que incluirá métodos de caracterização e incorporação de dados de meio físico ao projeto, possibilitando a concepção de ocupações mais seguras.

Além disso, o conjunto de pesquisas em campo e em gabinete vem permitindo a ampliação do trabalho para a análise e a proposição de alterações de leis relacionadas à ocupação de encostas com habitações de interesse social.

Fonte: IPT

  
  

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