Há 52 anos chegavam os primeiros presos políticos ao navio-prisão Raul Soares

Ao todo, 94 homens e mulheres, em sua maioria sindicalistas portuários, foram confinados e torturados dentro do navio-prisão, que permaneceu no porto santista por seis meses

  
  
O 'Raul Soares' recebeu dezenas de presos políticos, que foram torturados, durante os mais de 180 dias que a embarcação ficou no porto de Santos

Há exatos 52 anos, o navio-prisão "Raul Soares" recebia os primeiros prisioneiros políticos, no porto de Santos. A embarcação, que foi usada pelo Regime Militar nos meses iniciais da ditadura, foi um dos maiores símbolos da tortura e repressão durante o período que os generais governaram o país. Foram seis meses ancorado na região da Ilha Barnabé, mas o suficiente para mostrar ao Brasil como seriam os próximos 20 anos.

O navio aportou em Santos em 24 de abril de 1964, poucos dias após o Golpe, e começou a receber os primeiros presos, acusados de subversão, quase uma semana depois de ancorar na cidade. Construído em 1900, o "Raul Soares" estava abandonado no cais da Ilha de Mocanguê, no Rio de Janeiro, quando foi rebocado pela embarcação Tridente, da Marinha, rumo ao porto santista. A intenção do novo governo era usá-lo exclusivamente como uma prisão política. A preocupação dos militares com a região, conhecida como "Barcelona brasileira" devida a grande quantidade de sindicalistas e lideranças de esquerda, era considerável e o navio seria uma solução imediata para conter possíveis opositores do regime.

Com 64 anos de idade e sem nenhuma condição de higiene, o 'Raul Soares' recebeu dezenas de presos políticos, que foram torturados, durante os mais de 180 dias que a embarcação ficou na cidade. Entre os relatos dos ex-presos políticos estão agressões físicas e psicológicas, como por exemplo que o navio seria abandonado em alto-mar para afundar juntamente com os prisioneiros. Sem acesso a banheiros, camas e até talheres, as dezenas de homens e mulheres, que se amontoavam em pequenas celas, eram vítimas de todos os tipos de abusos e torturas. Desde a obrigação de comer uma pasta estragada preparada a base de arroz e feijão, que causava fortes diarreias e uma consequente desidratação, até conviver com enormes ratazanas que atacavam os prisioneiros, tentando devorá-los vivos. Juntamente com os roedores ainda se juntavam milhares de percevejos e pulgas, que se alimentavam do sangue dos já debilitados presos-políticos. Neste período, eles também foram submetidos aos mais variados tipos de torturas físicas.

O navio era dividido em três calabouços, que curiosamente foram apelidados com os nomes de tradicionais boates localizadas na região portuária de Santos. Chamados de "El Marroco", "Night And Day" e "Casablanca", eles estavam situados na parte interna do navio e tinham destinações específicas para cada tipo de tortura. O "El Marroco" era um grande salão de metal enferrujado e sem janelas cuja temperatura em seu interior ficava em torno de 50ºC, pela proximidade com as caldeiras. Já o "Night And Day" era um pequeno calabouço, que mantinha os presos dentro de uma sala com cerca de 50 cm de água. Por fim, o "Casablanca" era um dos mais temidos, pois era o local destinado para o 'armazenamento' das fezes dos prisioneiros.

O fim do navio "Raul Soares"
Em 23 de outubro de 1964, exatos 183 dias após chegar à Santos, o navio "Raul Soares", já sem presos políticos em seu interior, foi rebocado rumo ao Rio de Janeiro. Após 10 dias navegando pela costa brasileira, a embarcação que foi construída para transportar imigrantes da Europa à América do Sul, chegou ao seu destino final para ser desmontada e vendida como sucata. Assim, terminou um dos mais tristes e vergonhosos capítulos da história brasileira.

Local onde ficou o navio "Raul Soares", no porto de Santos

  
  

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