Qual foi o primeiro caso de corrupção na história do Brasil?

O primeiro registro de corrupção no país está na Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei português, mas não num 'inventado' pedido de emprego. O escrivão, na realidade, solicitou a soltura de seu genro, que estava preso

  
  
Pero Vaz de Caminha lendo a famosa Carta a Pedro Alvares de Cabral e ao Frei Henrique, antes de enviá-la ao rei português

O Brasil é um dos poucos países do mundo que possui uma "Certidão de Nascimento", no caso é a carta escrita por Pero Vaz de Caminha, em 1º de maio de 1500, na cidade de Salvador. O documento histórico, que comunicava ao rei português D. Manuel I o descobrimento de novas terras, também é o primeiro registro oficial de corrupção em terras brasileiras. Baseado na visão de Caminha, o texto descreve o território recém-descoberto e ao final, solicita que seu genro, Jorge de Osório, que foi preso por assalto a uma igreja e agressão a um padre fosse solto. O famoso escrivão usou de sua proximidade com o alto escalão português para solicitar um ‘favor’. O caso é costumeiramente confundido com um pedido de emprego, o que não é verdade.

Repetido exaustivamente nos últimos tempos e recentemente elevado ao maior problema nacional, o termo corrupção é definido "como a utilização do poder ou autoridade para conseguir obter vantagens e fazer uso do dinheiro público para o seu próprio interesse, de um integrante da família ou amigo." Baseado neste conceito, pode-se afirmar que a Carta de Caminha registra ao mundo o primeiro caso de corrupção em terras tupiniquins.

Caminha tinha uma grande preocupação com a família e em especial com a única filha, Isabel, que havia se casado com Osório. Tempos após o matrimônio, seu genro foi preso e condenado a degredo na ilha de São Tomé, na África. O pedido para afrouxar a pena fica ainda mais curioso, pois mesmo ele sendo familiar de um importante funcionário da corte portuguesa não o salvou da prisão e da exemplar condenação.

Após mais de 500 anos pouco se sabe sobre o pedido de liberação de Osório, que estava preso no continente africano. Oficialmente, ele foi libertado meses após a carta ser escrita, mas nesse intervalo de tempo Caminha foi morto durante uma batalha, em Calicute, na Índia, em dezembro de 1500. Naquela época, o rei tinha o poder de perdoar qualquer acusado e livrá-lo da pena. Não há registros na carta e nem em atos oficias da época se a prisão era perpétua ou temporária, o que pode ter favorecido o genro de Caminha a ter a pena reduzida.

Pedido de emprego ou resgate da prisão?
Muito confundido com um pedido de emprego para seu primo, o caso de Caminha é na verdade uma solicitação para resgatar seu genro, que estava preso na ilha de São Tomé, um entreposto português no Atlântico. A realidade é que ao longo da história o caso foi sendo aumentado até se transformar num errôneo 'pedido de emprego', que nunca existiu. A confusão, sem explicação aparente, é costumeiramente repetida e quase se tornou uma verdade absoluta nos últimos anos.

Confira o Trecho da carta, que Caminha intercede por seu genro
‘E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro, o que Dela receberei em muita mercê.

  
  

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