11 maiores montanhas brasileiras

Na edição em que a Aventura&Ação completa 11 anos, o montanhista André Dib nos presenteia com uma cobertura das 11 maiores montanhas brasileiras, que compensam a falta de altitudes expressivas com paisagens diversas e instigantes

  
  
Revista Aventura & Ação Ed.153

Texto e fotos: André Dib

Esta matéria faz parte da Edição 153 da Revista Aventura & Ação

1. Pico da Neblina 2.993 m
2. Pico 31 de Março 2.972 m
3. Pico da Bandeira 2.891 m
4. Pico do Calçado 2.849 m
5. Pedra da Mina 2.798 m
6. Agulhas Negras 2.792 m
7. Pico do Cristal 2.769 m
8. Monte Roraima 2.734 m
9. Morro do Couto 2.680 m
10. Pedra do Sino 2.670 m
11. Pico dos 3 Estados 2.670 m

Desde os primórdios, os homens buscam o alto de uma montanha sem um motivo aparente. O que leva as pessoas às alturas de um pico? Superação da condição humana? Transcendência? Ou somente a sensação da conquista? Essas são questões tão antigas quanto à própria humanidade. A montanha sempre esteve presente no imaginário das pessoas em todas as civilizações, através da mitologia que fundamenta e guia a história dos povos.

O Monte Olimpo era a residência dos deuses para os antigos gregos, e através da mitologia, influenciou diretamente toda a cultura ocidental.

No folclore japonês, as montanhas são sagradas e todas possuem uma atmosfera sobrenatural. O Monte Fuji, por exemplo, seria a passagem para o outro mundo. Na mitologia taoísta, os imortais iam viver no cume dos grandes montes. O Monte Roraima, sustenta a morada do deus Macunaíma.

Onde existir um pico imponente, marcando a paisagem, pode-se saber que ali foi, ou é, para alguns, um lugar sagrado ou a morada de um deus. O fato é que as montanhas causam no homem perplexidade diante de sua natureza descomunal. Instigam a percepção de seu tamanho, insignificante, ínfimo diante da grandeza do mundo e da natureza que o cerca. A montanha simboliza a ruptura entre os níveis, do racional para o imaginário, e faz a ligação entre o céu e a terra.

André Dib

Para a filósofa Zelita Seabra, o amor à montanha, naqueles que o sentem, tem raízes profundas.O ritual de preparação, o ato da subida e a busca pela imensidão fazem parte do íntimo de muitos indivíduos, que não se contentam apenas com a contemplação. Fazem do contato com a natureza ali imponentemente exposta, um momento de introspecção e a viagem se interioriza. O sentimento de subir é indizível, o silêncio só é rompido pela respiração ofegante. O cume se aproxima!

Por que o ser humano é tomado pela inquietude, por essa ânsia de buscar o encanto no desconhecido? O escritor Jon Krakauer, no excelente livro “Sobre Homens e Montanhas” cita a interpretação equivocada de alguns psicanalistas que nunca romperam os limites de um consultório e as encenações clichês de alguns filmes sobre o tema.

Graças a isso, a palavra “montanhismo”, na concepção do público em geral, causa a mesma repulsa que a ideia de estar diante de tubarões ou abelhas assassinas. Porém, o êxtase das alturas está ligado, incontestavelmente, à experiência de algo sublime, que nos permite enxergar e sentir que fazemos parte de um todo muito maior, que nunca vamos compreender.

O Brasil é um país extenso, conhecido por suas belas praias e pela maior floresta tropical do mundo. No entanto, além de dunas, ilhas, rios e florestas, existe um País muito pouco conhecido que – mesmo com suas escassas altitudes - se impõe em sua magnitude.

As montanhas brasileiras são excessivamente baixas, se comparadas aos grandes picos andinos que ultrapassam os seis mil metros, ou os gigantes nevados do Himalaia, que se espicham a mais de oito mil metros de altitude. No entanto, elas têm suas peculiaridades. Em lugares distintos surgem sob a forma de grandes muralhas, seja na Mantiqueira ou Caparaó, à espreita, margeando grandes centros ou nos confins do nosso território cercado por matas densas e inacessíveis, sobre a Serra do Imeri, no extremo norte do País. Sobressaem-se, sempre, roubando a cena, rompendo as nuvens.

No texto que segue, escolhi 11 montanhas que figuram entre as maiores do País. Na verdade, fazem parte de listas que divergem uma das outras e instigam discussões sobre quais podem ser consideradas realmente um pico e as que apenas compõem cumes secundários de uma mesma montanha. Existem estudos que elegem outros dois picos sem nome, no grupo das grandes montanhas brasileiras. O Pico do Calçado, na Serra do Caparaó também fomenta discussão. Com o passar dos anos, medições tem sido refeitas, especialmente a partir do projeto “Pontos Culminantes” do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística – IBGE, voltado para a conferência e revisão das medidas, que começou, em 2001, um trabalho ainda está em andamento. Com isso, listas serão refeitas e classificações sobre as porções mais altas do País serão retomadas, fazendo das medidas existentes referências de uma verdade transitória e não absoluta. Nesse sentido, a seleção que segue é muito mais simbólica do que pautada por um rigor científico e pretende se oferecer como um convite aos apaixonados pelos desafios, pela liberdade e pelas peculiares experiências propiciadas pelos desejados cumes.

1 - Pico Da Neblina – Serra do Imeri (AM) – 2.993 m (Parque Nacional do Pico da Neblina)

Neblina - À esquerda, o cume do Neblina, em uma rara cena em que é possível avistar o horizonte; o pico envolto em sua neblina constante.

A neblina ofusca a visão e oculta a paisagem. A probabilidade de vê-lo é pequena, já que o pico faz jus ao nome e se apresenta envolto em sua neblina quase eterna ao longo do ano. Para atingir o ponto culminante do País, deve se ter em mente que a tarefa é árdua, afinal são cerca de dez dias, enfrentando batalhões de insetos, calor, frio, fome e cansaço. A história começa em São Gabriel da Cachoeira, cidade às margens do Rio Negro, perto da divisa com a Colômbia. De lá, são cerca de cinco horas chacoalhando sobre a carroceria de um caminhão pela barrenta BR-307, passando pela inspeção da FUNAI; a estrada segue pela reserva indígena do Balaio, região habitada por diferentes etnias, entre elas Tukános, Desána, Yepamashã, Kobéwa, Tuyúka, Pirá-Tapúya, Baníwa, Baré e Tariáno, até atingir o Rio Ya-Mirim, para iniciar uma nova e extenuante jornada de dois dias sobre uma voadeira vencendo rios traiçoeiros, que já vitimaram algumas embarcações tombadas pelas pedras ocultas sob as águas barrentas. Para evitar problemas sérios com os índios, é fundamental conseguir uma autorização da Associação Yanomami do Rio Cauaburís e Afluentes - AYRCA, documento liberado pelo presidente da associação e amplamente debatido com as lideranças indígenas, que questionam os motivos e intenções da expedição. A área fica na tríplice fronteira (Brasil/Venezuela/Colômbia) e, frequentemente, é alvo de exploração clandestina de minérios, garimpo, biopirataria, além da iminente proximidade dos vizinhos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - F.A.R.C.

Neblina - À esquerda, o cume do Neblina, em uma rara cena em que é possível avistar o horizonte; o pico envolto em sua neblina constante.

O Parque Nacional do Pico da Neblina foi criado na década de 70, sobre terras Yanomami, que tiveram sua área recentemente demarcada. Com sua cultura milenar, os indígenas lutam bravamente para defender seu espaço sagrado e manter a soberania sobre seu território. Depois do percurso pelos rios da região, no terceiro dia de expedição rumo ao Pico, é hora de deixar o barco. Começa a caminhada por ladeiras sombreadas por mata primária, do Igarapé do Tucano em direção ao acampamento Bebedouro Velho, local do próximo pernoite. A umidade é um dos piores adversários, penetrando nas frestas mais protegidas dos equipamentos. No outro dia, segue-se ao acampamento do Bebedouro Novo e as pegadas de onça mostram que os felinos estão à espreita. O calor beira o insuportável e a chuva é presente em toda a caminhada. No dia seguinte, o terreno começa a se modificar vagarosamente e o caminho de terra, folhas e lama dá lugar a musgos e líquens, formando um tapete traiçoeiro e escorregadio pelo infindável aclive pedregoso. As árvores altas cedem espaço à vegetação de altitude. Bromélias e orquídeas ornamentam o caminho e mostram as diferentes faces de uma Amazônia pouco conhecida. No dia do ataque ao cume, são cerca de mil metros a vencer. Os músculos tensos sentem, a pele marcada pelas folhas cortantes faz lembrar porque o Parque Nacional do Pico da Neblina é considerado um dos lugares mais inóspitos e hostis do planeta. A geografia se transforma abruptamente e o jardim jurássico de bromélias e raízes dá lugar ao caminho rochoso, abrasivo e firme. O auxílio de cordas é inevitável para romper os últimos abismos que separam o viajante do Pico da Neblina, que resume-se a alguns metros quadrados, que passam dias a fio sem um único raio de sol e ostentam uma bandeira do Brasil balançando freneticamente aos caprichos do vento. É bem provável enfrentar dias difíceis dentro da mata, para não se ver nada além da neblina. Entretanto, não é o cume o tempero principal dessa jornada. O caminho, enquanto desafio de vencer as limitações físicas e emocionais, faz dessa empreitada algo para poucos. O topo do Brasil está conquistado!

2 - Pico 31 de Março – Serra do Imeri (AM) – 2.972 m (Parque Nacional do Pico da Neblina)

Labirintos Fluviais - Caminhos intrincados e labirintos fluviais dificultam a navegação para se atingir o Pico da Neblina e o 31 de Março

A data é para ser esquecida! 31 de março de 1964 foi o dia em que culminou o golpe militar que derrubou o presidente João Goulart e deu início aos anos negros da ditadura no nosso País. O segundo cume mais alto do Brasil foi conquistado no mesmo ano negro, por uma expedição militar que, provavelmente, batizou assim o pico para homenagear o feito catastrófico... Bom, mas isso já é passado. O pico fica na Serra do Imeri, bem perto do Neblina e pode ser considerado um cume secundário da montanha mais alta do Brasil, pois se encontra no mesmo maciço. Mais aplainado que o vizinho gigante, o 31 de Março pode ser alcançado a partir do cume do próprio Neblina, através de uma crista que liga as montanhas em pouco mais de 600 metros. No entanto, vale lembrar que após conquistar os dois cumes a missão ainda não estará cumprida. É preciso voltar, em extenuantes quatro dias pelo mesmo caminho, até São Gabriel da Cachoeira. Se não conseguir vislumbrar a paisagem lá do alto, ao menos, o perrengue estará garantido.

3 - Pico da Bandeira – Serra do Caparaó (MG/ES) - 2.891 m (Parque Nacional do Caparaó)

Aurora - A trilha até o Pico da Bandeira é feita à noite, para se alcançar o cume com um belo nascer do sol

A mais acessível entre as grandes montanhas brasileiras já foi considerada a maior do País. No século 19, D. Pedro II determinou que cravassem uma bandeira do império dando origem ao nome, onde seria, supostamente, o ponto culminante do Brasil. Quase dois séculos depois, essa marca foi desmistificada. No entanto, ainda hoje, a imponência e grandiosidade das montanhas na divisa dos dois estados, Minas Gerais e Espírito Santo, nos revelam um país em sua face menos conhecida. Bem próximo ao litoral capixaba, a Serra do Caparaó, que é uma ramificação da Serra da Mantiqueira, inspira aventureiros a embrenhar-se pelos escarpados e despenhadeiros na busca pela imensidão vista do cume. O Parque Nacional do Caparaó, que foi criado no início da década de 60, é uma das áreas mais representativas de Mata Atlântica do território capixaba, formado também por Campos de Altitude. A região foi palco da guerrilha do Caparaó, um movimento armado de esquerda que desafiou o regime militar no final da década de 60, sendo desmantelada no ano seguinte ao seu surgimento. Apesar do passado agitado, a calmaria é característica comum dos moradores mais próximos, que continuam à mercê dos costumes do passado e da tranquilidade do interior. A ascensão ao Pico da Bandeira é feita por trilha tecnicamente fácil, não sendo necessário o auxílio de cordas, porém, o desnível é evidente. A trilha pode ser vencida no começo da madrugada, quando os primeiros raios de sol atingem a cadeia montanhosa e justificam todo o esforço em um espetáculo único. A jornada começa a partir de Tronqueira, último ponto de carro seguindo para o Terreirão, a 4,5 km de distância, onde se pode acampar. De lá, ataca-se o cume por trilha bem marcada, sinalizada com setas amarelas pintadas na rocha que dão a direção. Para quem optar pela subida noturna, é indispensável o acompanhamento de guia, pois a sinalização é ocultada pela escuridão. Lanterna frontal (de cabeça) e pilhas sobressalentes são itens obrigatórios, assim como força de vontade e um bom preparo físico. O frio também é um fator a ser considerado no planejamento dessa aventura, pois a temperatura atinge facilmente marcas negativas e as rajadas de vento fazem da empreitada algo desconfortável e extenuante, porém nada que não seja recompensado.

4 - Pico do Calçado - Serra do Caparaó (MG/ES) - 2.849 m (Parque Nacional do Caparaó)

Formas perfeitas - Do Pico do Calçado avista-se o Pico do Cristal, uma montanha de formas perfeitas

No Maciço do Caparaó, em outro escarpado da mesma montanha do Pico da Bandeira, encontra-se o Pico do Calçado. Há quem diga que ele é um cume secundário da mesma montanha, separado por uma caminhada de 15 minutos sobre uma aresta que o liga ao pico principal. Do cume avista-se o Pico do Cristal, um dos mais belos do País. O parque é um dos mais visitados do Brasil, sendo cortado por trilhas que permeiam os gigantes de pedra. Até 2004, o Pico do Calçado não constava entre os dez maiores picos do País. Uma nova medição feita pelo IBGE, entretanto, colocou o Pico em 5° lugar. É claro que essas medidas serão refeitas e a nova lista provavelmente mudará a ordem das coisas. Já existem estudos que remetem outros cumes ainda não nomeados à lista das grandes montanhas brasileiras. Entretanto, independentemente da sua classificação, o Calçado já figura na extensa cadeia de montanhas, no ponto mais elevado do sudeste brasileiro, e, sem dúvida, é um dos mais belos.

5 - Pedra da Mina – Serra Fina (MG/RJ/SP) - 2.798 m

Serra Fina - A Pedra da Mina integra o maciço da Serra Fina. Uma boa opção é pernoitar no cume para vislumbrar a paisagem

Em uma trilha complicada, em um dos lugares mais inacessíveis da Mantiqueira, a Pedra da Mina integra o maciço da Serra Fina, que guarda em seus caminhos intrincados uma das travessias mais difíceis do Brasil. Existem algumas opções para se atingir o cume. O primeiro caminho aberto foi pela cidade de Passa Quatro - MG, na fazenda Serra Fina, em um bairro conhecido como Paiolinho. Além dessa rota, existem outros três percursos possíveis, um pela Toca do Lobo, saindo da mesma cidade, outro por Itamonte, através da Fazenda Engenho da Serra, e ainda, um menos conhecido saindo da cidade de Queluz. Optamos por fazer a trilha pioneira. O caminho começa por entre árvores altas em meio à mata fechada, passando por alguns riachos, seguindo sempre para o alto. Vale lembrar que as previsões climáticas são imprecisas nas alturas, pois a montanha dita a lei que rege o tempo por ali. A subida se encorpa e aos poucos, afloram-se rochedos que dominam a paisagem. Nesse momento, entra-se nos Campos de Altitudes, onde o caminho não dá trégua. A escassez de água torna a jornada ainda mais extenuante. A vegetação é composta por florestas ombrófilas mistas, localizadas acima dos mil metros de altitude e vegetação de altitude. O clima se caracteriza por verões bastante úmidos e curtos períodos de seca. Mesmo para montanhistas experientes, um GPS é de grande valia, já que os nevoeiros são constantes e as referências visuais se perdem na atmosfera brumosa, atrapalhando a navegação. Seguindo os totens que marcam o caminho, e após vencer o aclive abrupto, avista-se o grande cume com seus 2.798 m. Até o ano 2000, a Pedra da Mina era considerada, oficialmente, mais baixa que o Pico das Agulhas Negras. Após nova medição, realizada através de uma expedição de dois dias, feita por pesquisadores do Departamento de Geografia da USP, a montanha passou a ser considerada a 4ª mais alta do País e a mais alta da Mantiqueira, superando a vizinha Agulhas Negras. No cume da montanha, a vegetação é formada unicamente por espécies herbáceas e arbustivas, adaptadas às baixas temperaturas e aos ventos constantes.

Uma boa opção é acampar no topo, apesar do frio. Pela noite, a temperatura despenca com os ventos, mas nada que atrapalhe uma boa conversa ao redor das barracas. Uma dose de rum ou um gole de vinho são boas opções para espantar o frio. É possível avistar as luzes de dezenas de cidadezinhas ao redor. Pela manhã, o nascer do sol reflete nas paredes de pedra dos vizinhos gigantes do Itatiaia, uma das vistas mais impressionantes da Mantiqueira.

6 - Pico das Agulhas Negras (RJ)(Parque Nacional do Itatiaia) - 2.792 m

Agulhas - É preciso muito equilíbrio, ousadia e força de vontade para se atingir o Pico das Agulhas Negras, ponto mais alto do Parque do Itatiaia

Grandes lanças sulcadas na pedra irrompem o horizonte na forma de agulhas negras apontando para o céu. A beleza de suas formas esculpidas pela ação dos ventos e a imponência de sua altura chamam a atenção de quem visita a parte alta do Parque Nacional do Itatiaia. Existem duas trilhas mais utilizadas para se chegar ao cume do Pico das Agulhas Negras. Uma, a “Via Pontão”, é mais fácil e usada pela maioria das pessoas – mas não deixa de exigir preparo físico, equilíbrio e uma boa porção de coragem, especialmente no último trecho. É preciso atravessar agachado por pequenos corredores espremidos entre as pedras e pendurar-se em agarras de rochas para vencer os últimos metros. Para assinar o livro que está em outra torre de pedra próximo ao cume, é preciso vencer um abismo que a separa do pico com o auxílio de corda, e escalar um trecho íngreme e escarpado para atingir a caixa metálica que resguarda o livro de assinaturas no cume oficial da montanha. A outra via, menos usual e mais técnica, é conhecida como “Via Útero”, subindo por uma grande fenda rumo ao cume. No entanto, a montanha possui várias vias para os escaladores mais ousados e algumas rotas que nem foram ainda conquistadas. Do cume avista-se o Maciço das Prateleiras, o Morro do Couto, o Vale do Paraíba, o Vale do Aiuruoca e, mais à frente, a Serra Fina, que faz valer o esforço, numa visão de 360 graus. Foi ali, nos gigantes do Itatiaia que, supostamente, surgiu o montanhismo brasileiro e que ainda hoje tem a capacidade de nos revelar muitos segredos.

7 - Pico do Cristal – Serra do Caparaó (MG) - 2.769 m (Parque Nacional do Caparaó)

Cristal - Ponto culminante do Estado de Minas Gerais

“Uma montanha de formas perfeitas”, assim é definida pela maioria dos montanhistas. A origem do nome pode ser compreendida em noite de lua cheia. Os cristais de quartzo que afloram na superfície ganham brilho à luz da lua, em um fenômeno natural de rara beleza. A montanha fica na mesma porção do Pico do Calçado e do Pico da Bandeira, compondo o maciço do Caparaó. Porém seu acesso é um pouco mais técnico, passando por trechos expostos e exigindo algumas “escalaminhadas” concluídas com alguma insistência e um pouco de ousadia. A presença de um guia, para quem não tem muita experiência, é indispensável. A maneira mais prática de se conhecer a montanha é na descida do Pico da Bandeira.

A trilha é um pouco fechada no início, clareando na chegada de um grande platô marcado por totens. Será preciso saltar por entre pedras soltas e usar as mãos para ascender na trilha. Existem duas rotas conhecidas para o Cristal, para o Calçado e o Pico da Bandeira. A trilha Capixaba é a mais usual, por Minas Gerais.

8 - Monte Roraima (RR) – 2.734 m (Parque Nacional do Monte Roraima)

Monte Kuken - O rio Tek, que na língua Taurepang significa rio de pedras, serve como base ao 1º acampamento ao Monte Roraima

Diante dos olhos, pairam soberanos os Tepuis, grandes montanhas com os topos aplainados em forma de platô. Composto por um dos cenários mais antigos e exóticos do planeta, o Roraima faz parte dessa cadeia de montanhas situada no extremo norte, entre o Brasil, a Guiana e a Venezuela. Na realidade, do grande cume com cerca de 90 km², apenas 10% está do lado brasileiro. Para subi-lo, é preciso atravessar a fronteira para a Venezuela, já que os grandes paredões de arenito são inacessíveis para nós, simples mortais. Porém, há registros de escaladores que enfrentaram dias de expedição, escalando e dormindo pendurados nos rochedos para vencer a grande muralha vertical, de mil metros de altura em sua natureza friável. A jornada que começa a partir da aldeia indígena Parai-Tepui pode durar de cinco a oito dias, dependendo do roteiro. Para se alcançar a outra borda e conferir o lado brasileiro, é preciso escolher o roteiro mais longo. Caminha-se no primeiro dia cerca de quatro horas até o acampamento do Rio Tek, aos pés do Monte Kukenán. O segundo dia de caminhada começa após a travessia do Rio Kukenán. É uma ladeira interminável, que aos poucos vai se acentuando. A extensão a percorrer é menor, mas a subida dura é o único caminho a seguir, até se alcançar o sopé do monte.

Monte Roraima - Ascensão ao Monte Roraima, um dos lugares mais inóspitos do Brasil

No terceiro dia, é preciso encarar a Rampa do Roraima, como é conhecida. É um aclive no sentido real da palavra, projetando-se sobre o flanco da escarpada parede alaranjada. Trata-se de um degrau formado pelo desmoronamento das camadas mais superficiais de arenito, compondo uma grande escada de pedras soltas. A alternativa foi descoberta pelo botânico inglês Everard Im Thurn, consagrado como o primeiro a pisar no topo, em 1884, após muitas tentativas ao redor do Tepui. Os relatos de Im Thurn inspiraram o escritor Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, a escrever O Mundo Perdido. Já no topo da montanha, a atmosfera misteriosa rouba a cena, estimulando a imaginação diante de “gigantes de pedra” que se espicham até as nuvens. Como sentinelas metamórficos, aqueles mesmos rochedos testemunharam o Período Jurássico e assistiram ao lento afastamento da América do Sul em relação à África, após a cisão do antigo supercontinente denominado Gondwana. Os “hotéis”, como são chamados pelos índios, são abrigos ou cavernas de pedras que servem como proteção da chuva e dos ventos. As plantas formam pequenos jardins, agarrados ao substrato pobre e ralo na superfície das rochas. São populações únicas de plantas carnívoras, orquídeas e bromélias, muitas delas exclusivas daquele ambiente. O primitivo Tepui nos leva, definitivamente, a outra dimensão. Entretanto, o caminho até o lado brasileiro é longo. Passa-se por El fosso, enigmática depressão sobre o platô, com um grande e profundo poço embutido, onde o chão desaba subitamente. Mais adiante chega-se à tríplice fronteira. O marco indica o lado brasileiro que se deve seguir. A partir dali, pisa-se em terreno pouco explorado, rumo ao desconhecido, já que a maioria das pessoas voltam a partir do marco fronteiriço. Segue-se por trilhas pouco visíveis até o “Hotel Coati”, no lado brasileiro. É uma caverna singular, esculpida pela água e pelo vento, que foram sulcando pacientemente as paredes e compondo formas diversas na rocha. Em sua arquitetura excêntrica, forjada por milhões de anos, o Tepui termina, ao norte, com uma incrível saliência pontiaguda, semelhante à proa de um barco. Para se atingir o extremo norte do monte, é preciso vencer uma sequência impressionante de grandes rochas e algumas gretas profundas, em uma face quase inacessível. Mesmo depois da conquista do topo pelo escritor Conan Doyle, passou-se quase um século até exploradores e aventureiros atingirem tal ponto. A façanha foi realizada em 1973 por uma equipe de alpinistas britânicos, liderados por Joe Brown. Hoje, o lugar é procurado intensamente por turistas que buscam as antigas trilhas dos índios que reverenciavam o deus Macunaíma. Os mitos ainda ecoam nos vales que entremeiam os Tepuis, seja nas lendas vividas pelos pemons, ou na introspecção a que o monte nos remete, revelando-nos um encontro com o próprio ser e com a origem da vida.

9 - Morro do Couto (MG/RJ) Parque Nacional do Itatiaia - 2.680 m

Vista do Couto - Do alto das Agulhas Negras avista-se o Morro do Couto, um dos mais acessíveis do Parque Nacional do Itatiaia

O Parque Nacional do Itatiaia possui duas portarias que separam a mesma área demarcada em dois ambientes distintos. Na parte baixa, árvores centenárias e vegetação típica de Mata Atlântica compõem a reserva repleta de cachoeiras e poços ideais para banho. É na parte alta, no entanto, que se concentram as atividades de aventura, a paisagem muda e as matas dão lugar aos campos rupestres compostos por rochedos de formas variadas e vegetação rasteira que espreitam as grandes montanhas dessa porção extremamente fria do País, que já esteve coberta de neve mais de uma vez.

O Morro do Couto é a primeira montanha que se alcança a partir da portaria do Parque e pode ser vencido em duas horas de caminhada fácil. A montanha é frequentada por muitos escaladores em busca das diversas vias com variados graus de dificuldade. Outra rota para se atingir o cume, é a que sai do Pico das Prateleiras e segue pela crista da montanha até o alto. Do topo tem-se uma vista incrível do Pico das Agulhas Negras e da Serra Fina. Apesar de ser um dos parques mais visitados do País, o Itatiaia ainda guarda várias trilhas inexploradas e vias a serem conquistadas.

10 - Pedra do Sino de Itatiaia (MG/RJ) - 2.670 m (Parque Nacional do Itatiaia)

André Dib

Em meio à paisagem de formas exóticas, no Parque Nacional do Itatiaia, que significa “Pedra Cheia de Pontas” em tupi, encontramos uma montanha pouco conhecida no cenário de um dos parques mais visitados do Brasil. Trata-se da Pedra do Sino, com seus 2.670 metros, que lhe conferem o status de terceiro ponto mais alto do Parque. Existem várias rotas para se atingir o cume, mas nenhuma delas está bem marcada, devido à pouca frequência de visitantes. A trilha mais conhecida se estende por 12 km, e é preciso subir pela Pedra do Altar, bem próximo ao cume, e descer até a base da Pedra do Sino para, enfim, ascendê-la. Trata-se, portanto, de uma das ascensões mais difíceis da unidade, exigindo a transposição do grande desnível por duas vezes. Suas formas arredondadas no topo, fazem com que a montanha se assemelhe a um grande sino sobreposto ao platô. O desafio físico e a ausência de turistas pelo caminho compensam.

11 - Pico dos 3 Estados – Serra Fina (MG/RJ/SP) – 2.665 m

Mantiqueira - A Serra Fina, ramificação da Serra da Mantiqueira

A respiração ofegante dita o ritmo. Na Serra Fina não existe caminhada leve. Para se atingir o Pico dos 3 Estados, localizado exatamente no marco geográfico que divide Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, é preciso vencer o desnível dessa porção extremamente irregular da Serra da Mantiqueira. A origem do nome, que em tupi significa “Montanha que Chora”, parece não fazer muito sentido nessa região, pois a ausência de água é evidente, fazendo dessa jornada algo ainda mais complicado. Após caminhar horas pela crista da Serra Fina, atinge-se a base da montanha em um trecho muito íngreme que leva ao topo. O uso das mãos é inevitável projetando o corpo para cima das rochas e ajudando na ascensão. No cume, é possível caminhar pelos três estados circundando o marco do topo. A diversidade endêmica da vegetação encontrada pelo caminho, o desafio físico, a vista privilegiada do cume e a possibilidade de estar nos três estados brasileiros faz dessa caminhada uma aventura muito peculiar. Em cada cume, e em cada montanha conquistada nos parece possível alcançar o céu e estar mais perto de algo maior, que nunca conseguiremos mensurar, apenas sentir, ou seja, o vento, as nuvens, a natureza e a nossa presença diante dela.

OPERADORAS DE TURISMO – 11 PICOS

Pico da Neblina
Cia Eco
www.ciaeco.tur.br
(11) 5571-2525

Mountain Adventure
www.mountainadventure.com.br
(11) 3717-3678

Roraima Adventure
www.roraima-brasil.com.br
(95) 3624-9611

Pico 31 de Março
Roraima Adventure
www.roraima-brasil.com.br
(95) 3624-9611

Pedra da Mina
Rota Turismo Ecológico
www.rotaturismo.com.br
(35) 3363-3207

Pico dos 3 Estados
Harpia Adventure
(35) 3371-2616

Rota Turismo Ecológico
www.rotaturismo.com.br
(35) 3363-3207

Monte Roraima
Cia Eco
www.ciaeco.tur.br
(11) 5571-2525

Amadeus Viagens e Turismo
www.amadeusturismo.com.br
(11) 3964-3328

Mountain Adventure
www.mountainadventure.com.br
(11) 3717-3678

Roraima Adventure
www.roraima-brasil.com.br
(95) 3624-9611

Serra do Caparaó (MG/ES)
Cia Eco
www.ciaeco.tur.br
(11) 5571-2525

Amadeus Viagens e Turismo
www.amadeusturismo.com.br
(11) 3964-3328

Pico da Bandeira
MF Turismo
www.mftour.com.br
(27) 3071-4887

Cia Eco
www.ciaeco.tur.br
(11) 5571-2525

Pico do Cristal
Cia Eco
www.ciaeco.tur.br
(11) 5571-2525

Parque Nacional Itatiaia (RJ)
Trupe Turismo
www.trupe.tur.br
(21) 3866-4562

Cia Eco
www.ciaeco.tur.br
(11) 5571-2525

Mountain Adventure
www.mountainadventure.com.br
(11) 3717-3678

Pico das Agulhas Negras
Trupe Turismo
www.trupe.tur.br
(21) 3866-4562

Cia Eco
www.ciaeco.tur.br
(11) 5571-2525

Mountain Adventure
www.mountainadventure.com.br
(11) 3717-3678

Morro do Couto
Trupe Turismo
www.trupe.tur.br
(21) 3866-4562

Mountain Adventure
www.mountainadventure.com.br
(11) 3717-3678

Pedra do Sino
Trupe Turismo
www.trupe.tur.br
(21) 3866-4562


Esta matéria faz parte da Edição 153 da Revista Aventura & Ação.

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