Caminhada no surreal deserto brasileiro

Com 155 mil hectares de dunas gigantes, rios, lagoas, manguezais e oásis verdejantes, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, exibe paisagens exóticas, redesenhadas constantemente, ao capricho dos ventos.

  
  
Revista Aventura & Ação Ed. 155

Texto: Jorge Soto
Fotos: Kátia Zander
Esta matéria faz parte da Edição 155 da Revista Aventura & Ação

Quem nunca ouviu falar da incrível paisagem dos Lençóis Maranhenses? Descrevê - la não é das tarefas mais simples, Talvez por isso, a palavra “surreal” é o adjetivo mais comum nos relatos de viagem ao lugar. O termo, por mais abstrato que seja, não poderia ser mais preciso quando nos referimos a este “deserto” com montanhas de areia de até 40 metros entrecortadas por lagoas de água doce e cristalina, que secam por alguns meses e ressurgem na estação chuvosa, quando, misteriosamente, pequenos peixes, crustáceos e tartaruguinhas verdes reaparecem como se nunca tivessem saído dali. Quando ouvi coisas desse tipo sobre os tais Lençóis, me ocorreu um pensamento bastante comum. É claro que a melhor maneira de desvendar um lugar tão intrigante só pode ser da mesma forma como costumo explorar tantas outras raras paisagens: com meus próprios pés, pensei, sem gastar muito tempo para planejar a travessia. E logo estava lá no ponto de partida da super-caminhada.

incrível alternância de montanhas de areia de 40 metros de altura e piscinas naturais faz deste destino um dos mais interessantes do Brasil

Saí de São Luís bem cedo da rodoviária com destino novamente a Barreirinhas. Novamente? Pois é, após navegar o Delta do Paranaíba, chegar ao município de Tutóia, passar por Caburé e velejar no Rio Preguiças, cheguei à cidade que é porta do Parque Nacional dos Lençóis já com grandes amizades formadas durante todo aquele trajeto. Sabe como é... laços mochileiros sempre se estreitam em trechos comuns e demorados. Se não fosse isso, poderia ter imediatamente feito a travessia naquele instante, mas como a galera formada estava tão interessante, optei por curtir umas baladas em São Luís e depois retomar meu plano de travessia, afinal, Barreirinhas dista apenas 250 km da capital. Bem que tentei convencer o grupo a me acompanhar na empreitada, mas não obtive sucesso. “Você é louco em cruzar isso a pé”, tive que ouvir.

Tudo bem, depois do tour por São Luís, me despedi das novas amigas e me encaminhei para a rodoviária, onde tomei o ônibus rumo ao ponto inicial. O trajeto não tem maiores atrativos, a não ser as incontáveis planícies forradas de carnaúbas, babaçu, buritis, mangas e alguns riachinhos.

Por conta das inúmeras paradas, chegamos a Barreirinhas às 13h sob um sol escaldante. Trata-se de uma cidadezinha pequena, onde tudo se concentra basicamente em sua rua principal. Comprei mantimentos para quatro dias em uma padaria, garantindo o imprescindível abastecimento de água. Quis tomar alguma coisa gelada antes, só havia o “Guaraná Jesus”, a bebida mais tomada no Maranhão, mandei ver assim mesmo. O líquido é de um cor-de-rosa chocantemente cristalino e seu sabor hiper-adocicado vem de uma mistura de guaraná, canela e xarope. Abastecido, bastou andar pela rua principal rumo à balsa do Rio Preguiças, não muito longe dali.

Pé na areia

A caminhada exige disposição e preparo para vencer as dunas sem fim sob o sol escaldante

Já do outro lado comecei efetivamente a travessia pela sinuosa estradinha de areia sentido noroeste, rumo às dunas, ainda distantes quase 12 km. Passei inicialmente pelo vilarejo de Santo Antônio, que se resumia a algumas casas e uma guarita do IBAMA, onde as excursões de agências devem parar. Para minha surpresa, andarilhos solitários como eu passam batidos, sem sequer ter que se apresentar. Os guardinhas apenas acenaram e nada mais. Não demorou e logo me vi sozinho, em um caminho de areia retilíneo sem fim em meio à vegetação arbustiva, um misto de caatinga e restinga. Parecia um tapete verde-claro sendo cortado por um risco branco.

Como se o sol forte já não bastasse, ainda havia a estrada de areia fofa em si, que estava sapecando de tão quente. Fiquei imaginando como seria então andar nas dunas... Uma dica é seguir as marcas de Toyotas deixadas pelo caminho, bem mais firmes e compactas para se pisar e andar. As possantes caminhonetes das agências de Barreirinhas são as únicas que conseguem vencer o mar de areia por ali. Elas levam turistas diariamente (pela manhã e no começo da tarde) às dunas e lagoas próximas. Enquanto eu me matava caminhando, algumas passavam com turistas me olhando perplexos. Vontade de pedir carona não faltou, mas estava determinado a chegar às dunas a pé, mesmo com todas as adversidades mencionadas. Mas, um pouco mais de sol e cansaço e não resisti à carona. Quando faltavam cinco quilômetros até as dunas, que não conseguia ainda avistar entre os arbustos, subi em uma caminhonete que parou e segui com um grupo a toda velocidade, no melhor estilo off road.

Após cruzarmos algumas pequenas lagoas no meio do caminho, com água quase na altura da caçamba, e passarmos por uma rústica ponte, já podíamos apontar no fim da estrada, ao longe, o topo dos sonhados “morros” dourados cada vez mais próximos.

Chegando lá, dunas acima, o horizonte se abria por completo, me permitindo contemplar a paisagem deslumbrante que me companharia nos dias seguintes: um “mar-de-morros ondulados” feitos da mais fina areia, de uma coloração que ia desde o branco total aos mais diversos tons de ouro imagináveis! Para completar esse cenário incomparável, os intervalos entre algumas dunas são preenchidos com piscinas naturais cujas tonalidades variam do verde-esmeralda ao azul-turqueza, contrastando exoticamente com a claridade daquele areial sem fim, que se estende até onde a vista alcança. O visual é resultado de um fenômeno natural que provoca os depósitos de sedimentos eólicos e marinhos compostos por grãos de quartzo (areia), formando as dunas. Embora a cena remeta ao típico ambiente de deserto, as águas de chuvas formadas graças ao Rio Paranaíba são responsáveis pelas lagoas que se espalham fartamente pelo lugar. O que eu contemplava ali superava e muito qualquer coisa parecida que já tinha visto em Florianópolis, Itaúnas, Mangue Seco ou Jericoacoara.

O momento de admiração daquelas paisagens surreais, entretanto, foi interrompido subitamente por um medo bastante real da missão a que tinha me proposto. A dúvida foi inevitável: “não seria, literalmente, muita areia para o meu caminhãozinho cruzar tudo aquilo ali, sozinho?”. Receios à parte, esqueci o cansaço, o calor e fiquei ali um tempão apreciando, hipnotizado, até continuar a caminhar, seguindo as pegadas ou os vários turistas que zanzavam por ali. As excursões de Barreirinhas vão sempre aos mesmos locais: a Lagoa Azul e a Lagoa do Peixe, próximas uma da outra. Como era início de “inverno maranhense”, muitas lagoas estavam secas, algumas começando a encher. Contudo, a famosa Lagoa Azul não tinha uma gota d’água sequer. No enorme espaço deixado, em chão bem mais firme e compacto, alguns tocos de madeira e restos de troncos dispersos provam que aquilo já foi um exuberante mangue. Lagoas secas sempre têm uma vegetação rasteira de gramíneas e capim ralo que crescem com o início da pluviosidade, mas o que me chamou a atenção foram as pequenas poçinhas d’água com girinos (!?), cujos ovos são enterrados na época seca e eclodem ao menor sinal de água.

Caminhando até o fim da enorme piscina seca, logo há de se subir a duna, descê-la em seguida, e andar novamente por outra pequena lagoa seca, sempre acompanhando as pegadas deixadas bem óbvias e evidentes, ou seguindo sentido noroeste. Olhando desde o norte/noroeste até o sudeste, tinha eu a visão das dunas, de contornos suaves e abaulados, salpicadas de pequenas lagoas represadas; já ao sul/sudoeste ainda avistava a faixa verdejante de restinga que limita os “Grandes Lençóis”.

Na Lagoa do Peixe

Atravessar as lagoas é uma boa opção para encurtar o caminho e ainda dar uma super refrescada

Nem dez minutos de sobe-e-desce me levaram à Lagoa do Peixe, uma enorme lagoa perene aos pés de majestosas dunas, onde todos os turistas parecem se concentrar para um banho refrescante. Apesar de tumultuado, o lugar não deixa de ser paradisíaco. Joguei a mochila num canto e fui me refrescar nas águas da lagoa, que recebe este nome devido à dita ocorrência de peixes em algumas épocas, apesar de eu ter avistado apenas girinos. Mas me contentei admirando as belas flores aquáticas e alguma vegetação que finca suas raízes no fundo e permanece balançando ao sabor do vento.

Com girinos ou não, a água me parecia mais que potável e abasteci sem hesitar minhas garrafas. Fiquei por ali o resto da tarde, assim como os grupos permanecem até o pôr do sol. Mais tarde, enquanto todos iam embora, retomei a caminhada apenas para buscar um bom local para acampar. Decidi pernoitar ao lado da última grande lagoa que encontrei. Montar a barraca voltada de costas para a duna é fundamental, pois o vento rasteiro sempre carrega muita areia, e se deixar a entrada voltada para a duna, em pouco tempo o interior se encherá de areia.

A temperatura à noite estava agradável, mas não fui poupado de impressionantes, embora esporádicas, rajadas de vento. Eventualmente, sentia o tilintar de montes de areia sendo arremessados nas laterais da barraca! A impressão era de estar numa tempestade de areia, com a armação do meu “abrigo” remexendo bruscamente a cada forte ventania.

Trekking na madrugada

Legenda: Os peixes das lagoas atraem as aves marinhas

Para não pegar o sol forte da tarde e render na caminhada, resolvi dar prosseguimento à expedição bem antes de amanhecer. Acordei antes das quatro e levantei acampamento. A recompensa, porém, não foi apenas um céu limpo e estrelado, mas sim a maravilhosa lua cheia que iluminava a paisagem diante de mim; as outrora ondulações douradas de areia agora eram espetacularmente prateadas, de perder de vista! Com perfeita visibilidade e visual mais que inspirador, comecei a andar, deixando lentamente as lagoas e a faixa de restinga para trás.

O belo brilho da lua refletido em lâminas de água dissipou meu receio de não encontrar o precioso líquido naquele dia e segui mais leve dispensando os três litros extras de água que carregava por garantia, mantendo apenas a garrafa básica de
um litro e meio.

Basta uma hora de caminhada no deserto para “pegar o jeito” menos desgastante e mais produtivo de avançar no local, que mantém a mesma paisagem, não dispõe de trilha e nem sequer referência visual. Como meu destino naquele dia era o “oásis” de Baixa Grande ou Queimada dos Britos - distantes quase 30 km - teoricamente bastava seguir sentido norte/noroeste, descontada a declinação magnética básica, claro! Qualquer problema eu certamente chegaria no mar, de onde sempre sopra o vento, o que pode ser constatado através do formato das dunas: a “barriga” levemente inclinada sempre será o norte/nordeste. Quando cheias e fundas, as lagoas devem ser contornadas pelo lado menos íngreme da duna; se estão secas, é só atravessar direto.

Do lado do vento, as dunas são firmes, compactas e boas pra caminhar; já do lado íngreme, oposto ao vento, é fofa demais e é quase impossível subir de frente; mas para descer é uma delícia, pois se afunda o pé inteiro, quase até a canela. Já com todo esse know how, era só colocar o pé na areia e checar a bússola a cada cinco ou dez minutos.

As dunas nunca são as mesmas de um dia para o outro. A paisagem é redesenhada constantemente pela ventania, fazendo com que ninguém veja exatamente a mesma imagem duas vezes. As montanhas de areia avançam, somem umas, aparecem outras, retrocedem e, consequentemente, ditam o formato das lagoas, que podem desaparecer dando origem a outras. Uma carta topográfica do lugar não faria nenhum sentido.

Amanhecendo

As dunas mudam de lugar, tamanho e forma de acordo com a ação do vento

A escuridão lentamente se dissipando, dando lugar a um céu tingindo-se gradativamente de tons escarlates cada vez mais vivos e iluminando aquela paisagem era algo realmente espetacular. O reflexo dessas cores nas lagoas era um show à parte.

Testemunhava ainda a textura ondulada das dunas, quase totalmente simétricas e homogêneas, lentamente sendo modificadas pelo vento rasteiro. Às vezes o vento sopra mais forte em rajadas, fazendo com que a areia “pinique” as canelas, mas, em geral, se limita a brisas suaves bem-vindas. Outro detalhe é o silêncio generalizado, perturbador até, só quebrado pela minha respiração ofegante. Apesar do ambiente inóspito, sinais de vida eram constantes, com pegadas de aves ou cavalos e diminutos dejetos de bode presentes durante todo o trajeto. E, de repente, eis que um rebanho errante deles surge na vastidão de areia, me remetendo a uma cena bíblica qualquer. Soltos, eles passam o dia comendo o capim das lagoas secas, que, por sinal, são verdadeiros redutos de vida. Era em seus arredores que sempre ouvia alguma ave reclamar diante da minha aproximação, principalmente a caburé, uma corujinha que faz sua toca no chão. Havia também carcarás, maçaricos e quero-queros, além da pininga, uma espécie de tartaruguinha.

Escolhi uma belíssima lagoa verde-azulada ao pé de uma enorme e alva duna para mais um dos vários pit stops. A coloração das lagoas - cristalina, azul ou verde - depende exclusivamente do tipo de lodo e vegetação depositados ao fundo. Havia ali até pequenos peixinhos que fugiram agilmente quando mergulhei nela pra me refrescar. Um tchibum mais que merecido.

Aos poucos o caminho se tornava mais fácil com as dunas mais baixas e as lagoas secas se interligando, formando uma espécie de “avenida” em meio àquela vastidão ondulada, mas o cansaço acumulado aumentava sob a luminosidade das dunas. Como a coloração da areia depende da incidência dos raios, a paisagem no meio do dia é totalmente branca, tornando-se dourada ao entardecer.

Por volta das doze horas, avistei alguns pontinhos pretos que anunciavam a restinga que era meu destino do dia. Mas as distâncias no deserto enganam e havia uma boa jornada um tanto exigente até lá.

No Oásis de Baixa Grande

A imensidão do horizonte é sempre deslumbrante e inspiradora

Os oásis dos Lençóis fazem jus à denominação. Baixa Grande parece uma “ilha verde” em meio à paisagem monocromática do deserto. Do alto de uma duna avista-se uma larga faixa de restinga verdejante contrastando com a areia, com seus arbustos de galhos retorcidos, e várias lagoas translúcidas.

Ali há uma vila, que se resume a umas cinco casas de taipa, cobertas com palhas de buriti, onde apenas quatro famílias vivem ao pé de frondosos coqueiros. Apesar de simples, o lugarejo era bem organizado, com uma cerca bem rústica de galhos de cajueiros e mirins, roçado, pomar, e até um jardim! A presença abundante de árvores baixas funciona como cerca viva, impedindo as casas de serem engolidas pelas dunas. A luz das casas é garantida por lamparinas e a água é retirada das inúmeras lagoas ou de simples bombas manuais.

Mal me aproximei e fui convidado para adentrar a casa da simpática dona Maria, que me ofereceu água e uma cadeira (a única disponível na choupana) para descansar. Foi apenas me sentar para me sentir o próprio entrevistado do programa “Roda Viva”. Aos poucos, foi surgindo mais e mais gente que se juntava na entrada da casa. Curiosos, alguns faziam perguntas e me contaram que os homens da vila iam pescar no litoral, a uma hora e meia dali (os locais, em geral, só medem as distâncias por tempo), numa espécie de nomadismo sazonal.

A pesca só é possível na época das chuvas, que no Maranhão, vai de janeiro a julho; já na época de secas, a sobrevivência vem da criação de rebanhos e de alguns cultivos. Neste período, o prefeito de Santo Amaro chega ao local de caminhonete para deixar produtos encomendados para passarem o “inverno”, pois a estrada se torna intransitável no período das chuvas. Ficam literalmente isolados do resto do mundo, o que explica, em grande parte, a extrema hospitalidade com que recebem estranhos como eu. Visitas por ali são fenômenos bastante exóticos.

Depois do agradável dedo de prosa, segui minha expedição recusando hesitante o convite para pernoitar por ali em uma das redes da casa. Nada mal, se não me faltassem uns bons quilômetros para cumprir meu planejamento do dia.

Morrendo na Praia

Farol de Mandacaru

Já exausto, parecia andar mais por inércia, apenas norteado pela necessidade de chegar aos “matinhos” de Queimada dos Britos, cada vez mais próximos. Antes da chegada, entretanto, passei por um agradável obstáculo, o manso e largo Rio Negro, curso d’água que atravessa perpendicularmente todos os Lençóis, até desaguar no mar. Depois de testar a profundidade em um delicioso mergulho, atravessei-o equilibrando a mochila na cabeça, para chegar ao pé de uma enorme duna. Depois de realmente escalar com muito esforço a última montanha de areia do dia, uma decepção: onde estava a Vila? Em Baixa Grande, haviam me informado que este oásis (Queimada dos Britos) era bem maior, mas de onde estava só avistava a linda paisagem de dunas, lagoas e muita vegetação arbustiva, mas nenhum sinal da vila. Certamente teria que procurá-la, mas estava no limiar de minhas forças. Se desse mais um passo, era bem provável aparecer uma tela vermelha na minha frente acusando uma operação ilegal e minhas pernas certamente travariam. Esqueci por um momento a vila e a possível cerveja, que sonhava me esperar.

Acampei aos pés daquela enorme duna, do outro lado, às margens de uma bela lagoa. Dois garotos que passaram por ali indo em direção ao rio me avisaram que Queimada dos Britos distava apenas uns 15 minutos, mas eu não tardaria em cair no sono e o roteiro só foi retomado no outro dia.

Queimada dos Britos

Um pouco de água para refrescar

Choveu ininterruptamente durante a noite e acordei com algumas poças de água dentro da barraca. Com o cansaço, os pingos haviam passado despercebidos e só foram contabilizados de manhã, quando constatei minha roupa toda molhada. Como o aguaceiro não dava trégua, levantei acampamento e segui levando peso extra da bagagem molhada a contragosto.

Andei um tempo com a chuva fustigando meu rosto, sem encontrar qualquer sinal de vila. Para completar, minha bússola, molhada, parou de funcionar. O jeito foi seguir intuitivamente pelas dunas enormes paralelas ao oásis. Ironicamente, é mais difícil se orientar dentro dos oásis do que no deserto. Subi uma duna maior para ter uma ideia geral de onde estava, e, finalmente, avistei ao longe um telhado vermelho, ao lado de uns coqueiros.

Ao alcançar a casa, um senhor tão simpático quanto dona Maria me convidou para entrar. Seu José Domingues foi extremamente cordial e me brindou com uma tigela com camarões frescos enquanto me contava da vida dali, não muito diferente da de Baixa Grande, com a diferença de que em Queimada dos Britos, mora mais gente nas 25 casas espalhadas pelo oásis.

O isolamento e as agruras do deserto são responsáveis pela união e pela solidariedade entre todos os moradores dali, que me pareceram uma grande família. E de fato são, uma vez que todos têm algum grau de parentesco. José Domingues me contou que certa vez alguém adoeceu gravemente e colocaram a pessoa numa rede pendurada num pau, e, em comitiva, atravessaram o deserto até Santo Amaro (seis horas dali), se revezando quando alguém se cansava. Mas, no geral, eles não costumavam deixar a vila e alguns jovens nunca saíram dali. Quando segui viagem, percebi que a chuva realmente jogava contra. Além de estragar a minha bússola, apagou as trilhas pelas quais eu me guiava, detonando as já precárias estradinhas, o que ainda tornava nula a minha chance de pegar alguma carona. Voltei ao povoado e descobri que, para minha felicidade, um dos locais tinha que ir buscar uns bodes na direção de Santo Amaro, meu destino.

Santo Amaro do Maranhão

Assim como as dunas, as lagoas também variam de forma, tamanho, cor e volume

Com a ajuda de Neto, o morador local que acompanhei, cheguei ao limite de Santo Amaro. Passei então por campos de arbustos retorcidos, uma planície de pasto encharcado, uma enorme lagoa (a Lagoa Santo Amaro) e por um extenso carnaubal, até que o silêncio da caminhada foi quebrado pelo alto som de um forró aumentando de volume atrás de mim. Uma Toyota repleta de pescadores locais vinha pelo mesmo caminho que percorria e me ofereceram carona, a qual eu não recusei. Os cinco quilômetros restantes se deram em um divertido sacolejo, entre isopores cheios de gelo, tainha e pescada frescas, embalados ao som do “Garoto Safado & Lagosta Bronzeada”.

A vila cercada de palmeiras é obviamente simples, dispõe de alguma infra-estrutura, porém é bem menor que Barreirinhas. Ficou famosa recentemente no filme brasileiro “A Casa de Areia”, que foi responsável pela chegada da eletricidade até o local. Mesmo assim, conserva o charme e a rusticidade típica de um vilarejo no interior do Maranhão; as ruas de areia do entorno contrastam com o pavimento existente apenas na “rua” principal, onde fica uma igrejinha, vendas, etc. Nela me deparei com um “trator-bus”, meio de transporte coletivo que consiste em um trator com reboque com assentos.

Camelando de volta

As dunas nunca são as mesmas de um dia para o outro, a paisagem é redesenhada constantemente

Deixei Santo Amaro no outro dia em uma Toyota que faz o traslado até São Luís por uma sinuosa e precária estrada de areia, que atravessava ora matas fechadas de restinga alta, ora pequenas lagoas com água acima das rodas! Literalmente uma aventura, ainda mais quando pude apreciar a alvorada dando cores àquela paisagem selvagem e agreste.

Fiquei pensando como era simplista a definição de deserto para este lugar que sazonalmente se transforma por completo proporcionando miragens de rara beleza que se tornam tangíveis na forma de oásis verdejantes, lagoas cristalinas, muita vida, habitantes gentis esporadicamente nômades, donos de uma cultura peculiar. Ao contrário dos demais desertos, locais efêmeros e sem memória, os Lençóis são igualmente locais mutantes ao sabor dos ventos, porém, de uma dimensão exótica que fica mais evidente quando é cruzado tal qual seus moradores o fazem, ou seja, a pé.

SOBRE OS AUTORES

Jorge Soto

Jorge Soto, autor
Designer por profissão, mochileiro nas horas vagas e montanhista por paixão. Andarilho de carteirinha cuja especialidade é travessia serrana. Sempre buscando novas e interessantes opções trekkeiras próximas a centros urbanos. Ou não. “Disposição, desapego e criatividade é a melhor distância entre dois pontos!”

Kátia Zander

Kátia Zander, fotógrafa
Formada em administração de empresas e pós-graduada em gestão ambiental. Entusiasta de natureza, já morou na Alemanha e nos Estados Unidos. Sempre quando sobra tempo vai caminhar, pedalar ou escalar e aproveita para fotografar. “A caminhada nos Lençóis Maranhenses foi marcante, o local é paradisíaco. Sentir a brisa, o silêncio e apreciar a paisagem foram inesquecíveis! As belíssimas imagens são mérito do local, extremamente fotogênico”.

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Esta matéria faz parte da Edição 156 da Revista Aventura & Ação.

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Publicado por em

Neusilenemacedo

Neusilenemacedo

02/01/2011 21:11:27
O lugar mais lindo do mundo!

Revista Aventura & Ação

Revista Aventura & Ação

Que bom que gostou!
Maria

Maria

06/11/2010 19:49:03
Foi uma viagem extraodinária!!!

Danielle Viana

Danielle Viana

13/09/2010 21:50:38
já visitei os Lençois Maranhenses, é simplesmente maravilhoso