Caminho da Fé

Roteiro no norte de São Paulo mistura paz, simplicidade e muito visual entre algumas subidas que exigem, mais do que fé, um pouco de força no pedal

  
  
Revista Aventura & Ação inova com duas capas em uma única edição: Chapada Diamantina e Urubici!

Esta matéria faz parte da Edição 152 da Revista Aventura & Ação

Por Eliana Garcia
Fotos: Clube do Cicloturismo

O Caminho da Fé é o que você esperar dele. Se buscar isolamento e autoconhecimento vai encontrar. Se procurar desafio físico vai ter de sobra. Se quiser turismo e belas paisagens vai ter muito o que curtir. Já se o intuito for renovar sua fé, vai ter uma jornada mística. O percurso é uma antiga rota de tropeiros e pagadores de promessas, que louvam Nossa Senhora Aparecida e agradecem pelas graças alcançadas.

Com tamanha diversidade, é impossível não achar um bom motivo para por a bike nesta estrada. Ao todo, mais de seis mil peregrinos, entre caminhantes, ciclistas e cavaleiros já fizeram o caminho desde 2003. Foi quando inauguraram o primeiro trecho do caminho, de Águas da Prata a Aparecida do Norte, com 320 km. Inspirado no Caminho de Santiago de Compostela, o Caminho da Fé foi criado pelo mais puro idealismo. Três amigos, Almiro Grings, Iracema Tamashiro e Clóvis Tavares, traçaram a rota, entre os estados de São Paulo e sul de Minas Gerais. Depois convidaram as prefeituras das cidades contempladas pelo percurso a fazerem parte da Associação dos Amigos do Caminho da Fé. O trabalho deles é voluntário e as prefeituras contribuem com uma taxa mensal para a manutenção do caminho.

Logo o traçado original foi estendido, com a possibilidade de saída a partir da cidade de Tambaú, totalizando então 430 km. Com o tempo, e devido ao sucesso obtido pela iniciativa, outras regiões se organizaram para fazer parte da rota. Assim, o caminho está em constante crescimento. Hoje há diferentes ramais, partindo de Mococa, Cravinhos, ou mais recentemente de São Carlos, todos municípios paulistas.

Imensa estátua em Ouro Fino homenageia o Menino da Porteira, cartão-postal do Caminho da Fé

Fizemos nosso caminho a partir de Mococa, o ramal Norte, que totaliza 412 km. Um dos pontos fortes do caminho percebe-se logo no início: sua sinalização exemplar. São setas amarelas, que vão nos guiar por centenas de quilômetros. A cada bifurcação, por mínima que seja, elas estão lá, pintadas nos postes, nas árvores, nos beirais de pontes ou em plaquinhas. Ao finalizarmos o caminho dá até uma sensação engraçada, tipo “Ops, para onde eu vou agora, que a vida não tem setas?” A sinalização só fica a desejar entre Campos do Jordão e Aparecida, quando já estamos em estradas de asfalto.

A distância relativamente curta entre uma parada de apoio e outra é mais um ponto a favor do Caminho da Fé. As pousadas ficam separadas em média por13 km, no máximo 25 km. Isso facilita o planejamento da viagem e também dá muita segurança, pois podemos repensar nossas metas a cada dia, se preciso. Mas, sem dúvida, o mais marcante de todo o caminho é a hospitalidade local. Se estiver passando de bicicleta e te chamarem de dentro de uma casinha, não se surpreenda, é um morador te convidando para um café e um dedinho de prosa. Tirando o primeiro trecho, onde predominam as grandes plantações de cana e não se vê uma viva alma, o restante do caminho atravessa as serras entre pequenos sítios. As plantações vão se sucedendo, com hortaliças, café, e depois morango, sempre intercaladas com pastos para criação do gado de leite.

Em todos os lugares fomos sempre muito bem recebidos. O grande respeito e admiração por todos os peregrinos é uma marca do roteiro. Ouvimos muitas vezes palavras de incentivo, até de crianças, acenando para nós e dizendo “Boa sorte, peregrino!”. Isso tem efeito de um energético na veia, fazendo desaparecer todo o cansaço e desânimo que porventura possa nos dominar.

10 mil metros acima

Paisagens rurais e vilarejos, um típico cenário de interior, ideal para uma viagem de bicicleta
Paisagens rurais e vilarejos, um típico cenário de interior, ideal para uma viagem de bicicleta

Para poder aproveitar o contato com as pessoas e curtir as paisagens com calma, vale a pena fazer este caminho com tempo, por isso reservamos 12 dias. À primeira vista, parece pouco rodar cerca de 400 km em tanto tempo, mas o Caminho da Fé, além de oferecer muito visual para se contemplar, merece respeito. Trata-se de um dos roteiros mais difíceis do Brasil em termos de relevo. Ao todo, são mais do que 10 mil metros de subidas, ou seja, mais do que um Everest! Por isso, planejamos o cronograma da viagem não em função de quilômetros por dia, como estamos acostumados, mas sim em total de metros de subida. Estipulamos uma média de mil metros de ascensão por dia (para se ter uma ideia, a Serra do Mar entre São Paulo e Santos tem cerca de 800 m), que eram completados em cerca de 40 km, distribuídos ao longo de um dia inteiro.

Contando que a maioria das estradas é de terra, com piso bastante irregular e as subidas são bem íngremes, chegávamos um tanto cansados. Alguns dias, mal tivemos energia para tomar banho e jantar antes de capotar na cama. Mas, na maioria das vezes, ainda tínhamos pique para conhecer a cidade e arrumar com calma as coisas para o dia seguinte.

Peregrinas encaram os 20 dias de caminhada

Para quem ama pedalar e estar longe dos centros urbanos, o Caminho da Fé proporciona uma rotina maravilhosa, que dá a oportunidade de pensar na vida, basta deixar a viagem rolar suavemente. Todos os dias correm lentamente, como o desenrolar de um mantra que começa logo cedo: acordar, se alongar, subir e descer serras (subir empurrando e descer freando, como bom cicloturista), admirar paisagens fantásticas, fazer amizade com peregrinos e com pessoas locais (que na simplicidade proporcionam peculiares lições de vida), fazer piquenique na sombra de uma árvore, no alto da montanha ou na beira de um riacho, tirar muitas fotos, observar pássaros, ouvir o vento nas folhas, e novamente buscar um pouso. Claro, a viagem traz também suas obrigações, como lavar roupa, fazer a manutenção das bicicletas, recarregar baterias de todos os equipamentos, atualizar o diário e procurar lugar para comer. Mas o longo dia de pedal já vai ter te deixado zen o suficiente para tirar estas tarefas de letra e ter uma bela noite de sono.

Assim, quando você perceber, já estará no final do percurso com o corpo meio cansado, mas com a cabeça e o espírito leves como nunca. Quando terminamos nossa viagem lembrei-me de vários peregrinos que disseram realizar o caminho todos os anos, o que, a princípio estranhei, mas agora compreendo perfeitamente. Seja qual for o motivo que te leve a fazer o Caminho da Fé, tenha uma certeza, você vai ter uma experiência maravilhosa e vai querer voltar!

Preparo Físico

Lugares bucólicos e calmos, que inspiram o relaxamento e a reflexão

Para encarar o “caminho”, não é necessário ser atleta, porém, mais do que fé, disposição, ou entusiasmo é bom ter um pouco de condicionamento físico e intimidade com o pedal para encarar as várias horas seguidas a bordo da bike.

É interessante intensificar os treinos de subida pelo menos um mês antes da viagem, se possível, com alguma carga na bicicleta, para simular a situação de viagem. Use marchas leves e mantenha o mesmo ritmo, devagar e sempre, para não forçar as articulações do joelho.

A maioria dos ciclistas percorrem o caminho em muito pouco tempo, em cinco ou seis dias, o que transforma o percurso em um desafio físico de alto grau. Vale mais a pena reservar 10 a 12 dias, para que a viagem não seja muito desgastante.

Estratégia de viagem

Um dos poucos trechos planos do Caminho da Fé, que soma mais de 10 mil metros de ascensão

Planeje-se a cada dia de pedalada, de forma a não encarar as serras na hora do sol quente. Nem sem comida, ou sem água, muito menos no final da tarde. É possível fazer o caminho sozinho, mas não é recomendável, pois há muitos trechos isolados. Se você precisar de alguma ajuda pode demorar muito para passar alguém.

O percurso não exige muita experiência em cicloturismo, uma vez que se trata de um roteiro pré-definido, mas é aconselhável que não seja sua primeira viagem de bicicleta, devido ao grau de dificuldade física e técnica.

A maioria dos cicloturistas opta por fazer lanches durante o dia e uma refeição mais completa à noite. Leve frutas secas, castanhas e barrinhas de cereais, que não serão encontrados no caminho.

Esteja preparado para enfrentar os perrengues que podem acontecer em qualquer viagem, como frio, chuva, pneu furado, cansaço, ou tudo isso de uma vez só. Encare tudo no máximo bom humor que puder.

Bicicleta

Novos amigos a cada dia de pedal

O requisito mais importante é que seja uma Mountain Bike com marchas leves, quanto mais leves melhor. O ideal é que o cassete tenha a maior catraca com 34 dentes e a coroa menor 22. Pode ter certeza que você vai usar essa relação mais leve e ainda pedir mais.

Adapte um bagageiro na bicicleta, para não levar nada nas costas, o que é absurdamente desconfortável. Uma bolsa de guidão também vale a pena, para deixar à mão os itens mais usados, como máquina fotográfica, filtro solar, lanchinho, etc.

Faça uma revisão completa na bicicleta antes de viajar.

Leve ferramentas e peças de reposição, as cidades pelo caminho são pequenas e oferecem pouca inferaestrutura. Em Águas da Prata é possível encontrar alguma coisa.

Época para ir

Felicidade do ciclista: cada árdua subida tem a sua deliciosa descida

O período ideal é a época da seca, de maio a setembro, para evitar as chuvas e o calor intenso do verão.

Prepare-se para o frio. A temperatura pode cair mesmo no verão, pois atingimos altitudes maiores que dois mil metros. Da mesma forma, pode chover no inverno, leve a capa de chuva, pois a chuva e o frio, além do vento da própria pedalada, não formam uma boa combinação.

Verifique o calendário de festas de cada cidade. Chegar no final do dia e encontrar todos os hotéis lotados é bem desagradável.

Na bagagem

Tudo o que você carregar de supérfluo vai se arrepender depois, mas há itens que podem fazer bastante falta. O ideal é que para uma viagem como esta o total não ultrapasse os 10 kg. Portanto, é bom escolher cuidadosamente cada item da bagagem, grama a grama. Aqui vai uma lista do que nós levamos e o peso; pode servir como referência para fazer sua própria lista. Não são necessários saco de dormir, isolante térmico, nem barraca.

Itens pessoais:

Parada pra conhecer o orquidário antes de Águas da Prata... pedal sem pressa

- Roupas (2,5 kg): bermuda ciclista, calça ciclista, quatro pares de meia de pedalar, dois pares de meia de frio, calça de tactel, calça e agasalho de fleece, jaqueta corta-vento, colete, boné, três camisetas manga curta, camiseta manga longa, além de itens para amenizar o frio como cachecol e gorro.
- Calçados (1,25kg): bota de caminhada e chinelo havaiana
- Kit de Higiene e proteção solar (600g): sabonete (só metade), shampoo, condicionador e creme hidratante (acondicionados em embalagens pequenas), pente, escova (com o cabo cortado para ocupar menos espaço e pesar menos), cortador de unha, escova e pasta de dente (pequena), fio dental, papel higiênico, toalha tipo packtowel, filtro solar e protetor labial.

Itens de uso comum para os dois:

- Kit de Ferramentas (900g): jogo de chaves Allen, kit de reparo de câmera, bomba de ar, câmera reserva, chave de fenda, alicate de bico, chave de corrente, chave de raios, chave de boca regulável, canivete, lubrificante, raios extras, sapatas de freio, pano e escovinha para limpeza.
- Kit de Primeiros Socorros (400g).
- Equipamentos (1,5kg): Recarregador de pilhas, Celular + carregador, duas máquinas Fotográficas + cabos + carregadores + tripé e GPS (não é necessário, levamos somente para marcar a altimetria).
- Outros: capa de chuva, garrafas pet, cadeado, mapas, caderneta de anotações.

Na internet

www.caminhodafe.com.br - No site do Caminho da Fé, você encontra os mapas dos percursos, as pousadas cadastradas e o gráfico altimétrico do trecho principal.

www.clubedecicloturismo.com.br - No site do Clube de Cicloturismo está o perfil altimétrico do Ramal Norte, a partir da cidade de Mococa, e um vídeo com o dia a dia da viagem.

Sobre a autora
Eliana Garcia, 40, é bióloga com especialização em Educação Ambiental. É fundadora do Clube de Cicloturismo do Brasil e fabricante dos alforjes Arara Una. Viaja de bicicleta há vinte anos.


Esta matéria faz parte da Edição 152 da Revista Aventura & Ação.

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