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Circuito Tucum - Ciririca

O isolamento, a alta declividade, a mata fechada, a escassez de água e até de espaço são obstáculos nada desprezíveis da imponente montanha, que se localiza na Serra do Ibitiraquire, parte da Serra do Mar paranaense

25 de Dezembro de 2009.
Publicado por Revista Aventura & Ação  

Revista Aventura & Ação Ed. 154

Revista Aventura & Ação Ed. 154
Foto: A&A

Esta matéria faz parte da Edição 154 da Revista Aventura & Ação

Texto: Jorge Sotto

Depois de reunido o diversificado grupo de 14 pessoas, pegamos a estrada poeirenta que nos levaria ao início da trilha, na simpática e humilde Fazenda do Bolinha, município de Terra Boa, a apenas 55 km de Curitiba. Lá, no meio de vacas, esquálidos cães, patos e galinhas, nos alongamos, ajeitamos as mochilas, até, finalmente, começarmos oficialmente nossa epopeia.

A trilha começava óbvia, com a mata fresca nos envolvendo, aliviando o calor daquela manhã ensolarada. Logo passamos a acompanhar o cristalino Rio Samambaia, que é atravessado umas cinco vezes, pulando-se de pedra em pedra. Ora de um lado, ora de outro, a trilha serpenteia em suave aclive na primeira meia hora vale adentro. No rio, abastecemos todos os nossos cantis, porque, mais acima, o precioso líquido é escasso. Ao chegar na “árvore do redador”, cujo tronco lembra uma sequóia milenar, o caminho fica íngreme em meio a um espesso bambuzal; o rio fica à esquerda lá embaixo, porém o barulho das águas nos acompanha por um bom tempo. Após um “túnel” de taquarais e bambus, o caminho continua entre pedras e um fiapo de água, até que chegamos na famosa bifurcação marcada por fitas vermelho-laranja.

Camapuã - Vista do topo do Camapuã, com o conjunto e maciço principal do Ibitiraquire ao fundo, isto é, o Pico Paraná, Pico União e Pico Ibitirati

Camapuã - Vista do topo do Camapuã, com o conjunto e maciço principal do Ibitiraquire ao fundo, isto é, o Pico Paraná, Pico União e Pico Ibitirati - Foto: Célio Vong

O caminho da direita leva direto a Ciri (apelido carinhoso do Ciririca) pela “trilha de baixo”, mas tomamos à esquerda, ou seja, a “trilha de cima”. Ganhamos altitude suavemente por pouco tempo, pois, logo, o percurso exigia que nos agarrássemos firmemente em pedras, galhos, troncos e raízes que servem de escadas naturebas no trajeto. Apesar do grupo numeroso, nosso ritmo era constante. Quando saímos da mata, encontramos uma espaçosa clareira marcada pela enorme laje que dá início à rampa do Camapuam. Com seus 1.706 metros, a montanha faz parte do Parque Estadual Pico do Paraná.

Em seguida, começava a árdua subida propriamente dita, através da larga e íngreme laje em meio ao capinzal seco que balançava ao vento. Nesse ponto, os integrantes do grupo se distanciaram consideravelmente por conta do condicionamento de cada um e vários pit stops foram necessários para a retomada de fôlego. Mas isso não era problema porque o espaço aberto permitia que o primeiro do grupo conseguisse avistar toda a fileira de “formigas coloridas” subindo em ziguezagues. Quando, finalmente, alcançamos o largo cume do Camapuam, esquecemos as agruras da subida ao sermos brindados pela generosa panorâmica proporcionada pelo tempo aberto: ao norte, o cintilante espelho d’água da Represa de Capivari refletia um céu azul ímpar; a nordeste, os rochosos picos do Caratuva, Itapiroca e Pico Paraná apontando generosamente o céu azul; a sudeste, o domo abaulado do enorme morro do Tucum se sobrepõe ao Ciri logo atrás, com suas pontas refletindo a luz do sol e a sudoeste, uma névoa cinza pairando sobre Curitiba nos lembrava estarmos próximos à civilização.

Antenas do Ciririca

Antenas do Ciririca - Foto: Célio Vong

Depois de um merecido descanso, um breve lanche e muitos cliques, vadiamos ali um bom tempo, cobertos de razão. Alguns até capotaram no capim fofo, literalmente. O vento nos obrigou a vestir agasalhos e passar protetor solar antes de colocar o pé na trilha novamente, quase uma hora depois, tomando a direção sudeste.

Uma curta descida nos levaria até o selado que liga ao Tucum, o qual subimos vagarosamente. No alto da formação, além de uma melhor vista do Ciri, a sudeste, aparecem as cristas e vales dos picos Cerro Verde, Taquapiroca e Luar, que seriam percorridos no dia seguinte. Atrás destes, os contornos da Baía de Paranaguá, assim como o Morretes, a Estrada da Graciosa, o Conjunto Marumbi, o Morro Sete e o Agudo de Cotia. O difícil é escolher para onde olhar.

Acampamento no topo do Tucum

Acampamento no topo do Tucum
Foto: Angelo Neto

Enquanto apreciava o visual, matutava se continuávamos até o Morro do Luar ou ficávamos por ali mesmo. Avaliamos distâncias e ritmo geral e acabamos decidindo “democraticamente” que o melhor seria pernoitar no Tucum. Além da garantia de bons lugares para todos, era incerto chegar no Luar ainda de dia. Andar à noite em trilha desconhecida estava fora de cogitação. Os perrengues do dia seguinte mostraram que a decisão foi a mais sensata.

O fim de tarde nos deu direito a crepúsculo cinematográfico, com sol caindo no horizonte, tingindo o firmamento em todos os tons de vermelho-alaranjado imagináveis. A noite e o frio vieram a seguir, revelando as faiscantes luzes de Curitiba e arredores. Preparamos nossa janta e caímos no sono antes das oito da noite, afinal, o domingo seria puxado. Além do céu estrelado, fomos brindados com uma lua maravilhosa que iluminou o cume e a serra ao redor. Mas a “brisa” do lugar me fez acordar algumas vezes. Segundo os aparelhos do Carlão, ventou a mais de 50 km/h.

Rumo ao Cume do Ciri

Na manhã seguinte, levantamos cedo para registrar o astro do dia surgindo com esplendor atrás do Pico do Paraná e dar início o quanto antes à pernada do dia.

Descida do Ciririca, com nuvens represadas nos vales

Descida do Ciririca, com nuvens represadas nos vales
Foto: Carlos Medici

A trilha desce o topo do Tucum para leste em meio a um capinzal e campos de caratuvas, mas depois de um trecho, o caminho vira uma “descalaminhada” e nos agarrávamos vigorosamente à mata (ou raízes) que encontrávamos.

Em alguns trechos pedregosos, úmidos ou enlameados, escorregões são inevitáveis e o “eskibunda” é a melhor opção para continuar. Logo, alcançamos o vale abaixo, onde prosseguimos no frescor da mata nebular ornada com muitas bromélias. Na próxima bifurcação, a opção da esquerda leva ao Cerro Verde e a da direita, que tomamos, desce o vale no sentido Taquapiroca, pico que antecede o Luar e o Ciri. Assim, continuamos margeando um rio seco, atravessando por um denso taquaral por cima de muitas raízes brotando do chão até cair numa campina em suave declive que nos levaria às encostas do Taquapiroca, ora no aberto, ora passando por pequenos vales ou línguas de mato, onde escorria algum filete d’água. Os trechos no aberto que aparentemente seriam mais fáceis nos enganaram, pois eram os mais tensos com muitos arbustos espinhentos que tomam conta da trilha pouco frequentada.

Céu aberto e matas fechadas - Topo da extensa crista do Taquapiroca e Luar, com o Ciririca em primeiro plano; retorno pela trilha de baixo, em meio ao verde exuberante do Vale do Ribeirão Samambaia

Céu aberto e matas fechadas - Topo da extensa crista do Taquapiroca e Luar, com o Ciririca em primeiro plano; retorno pela trilha de baixo, em meio ao verde exuberante do Vale do Ribeirão Samambaia
Foto: Célio Vong

Além de sair arranhado, cortado e espetado, é necessário o dobro de esforço porque o próprio mato se agarra em qualquer saliência da mochila, tornando o avanço lento. Após passar por um último vale de encosta com algumas grutas, sair no aberto e contornar enormes rochas em meio a arbustos, atingimos o cume, um pequeno morro ao lado do Luar, com apenas uma rocha que serve de mirante. Nada de descanso e continuamos adiante, partindo para a árdua subida do selado, que o liga ao morro vizinho. Este também é minúsculo e estreito, mas o pior era o vento de furacão que açoitava sem dó a montanha. Rajadas súbitas chegavam a nos desequilibrar e, desta vez, o aparelhinho do Carlão registrava
70km/h!

Sem nenhuma chance de parar por ali, continuamos na trilha, descendo a crista do Luar, sentido Ciri. Algum tempo depois, caímos novamente no fundo de um vale com mata fechada, árvores de pequeno porte e galhos retorcidos cobertos de musgos, onde acompanhamos um rio seco sempre seguindo as benditas fitinhas que demarcam o caminho.

Mais alguns campos de bambus e taquarais, chegamos à bifurcação da trilha “por baixo”, lugar conhecido como “última chance”, por ser o último ponto para se obter água. É ali que começa a verdadeira subida do Ciri. Iniciamos a ascensão e logo saímos da mata verificando que o tempo estava todo encoberto, com várias nuvens que impossibilitavam a visibilidade dos arredores, infelizmente!

Céu aberto e matas fechadas<br />Topo da extensa crista do Taquapiroca e Luar, com o Ciririca em primeiro plano; retorno pela trilha de baixo, em meio ao verde exuberante do Vale do Ribeirão Samambaia

Céu aberto e matas fechadas
Topo da extensa crista do Taquapiroca e Luar, com o Ciririca em primeiro plano; retorno pela trilha de baixo, em meio ao verde exuberante do Vale do Ribeirão Samambaia
Foto: Angelo Neto

Em pouco tempo, estávamos, enfim, na rampa da montanha almejada. Subir esta larga e ardilosa rocha era tarefa difícil por conta da grande declividade e ausência de bons apoios para se firmar, tendo que nos contentar com a espinhenta mata ao redor.

Após a rampa, a trilha nivela num ombro rochoso que sobe até o cume em meio a arbustos e campos de altitude. As nuvens permitiam ver rapidamente o cume, nos dando uma noção do quanto faltava. De repente, estávamos no alto dos 1.710 metros da montanha, mas a trilha prosseguia na horizontal, até que, de repente, pude ver a silhueta nítida de uma das enormes placas do Ciri (placas repetidoras de micro-ondas instaladas na década de 70, com o objetivo de fazer enlace de rádio entre Curitiba e a Usina Parigot de Souza, no outro lado da Serra do Mar). Buscamos locais para acampar nas proximidades da base da segunda placa, onde o cume era mais largo, espaçoso e continha clareiras dispersas suficientes para todos.

No final da tarde, o tempo abriu, permitindo a vista do etéreo mar de nuvens abaixo de nós, salpicado de várias “ilhas” rochosas. Aos poucos, vimos o crepúsculo chegar em tons dégradé escarlates refletidos tanto nas placas como filtrado nas nuvens de maneira formidável; um verdadeiro presente pelo esforço daquele dia. O acampamento entrou no silêncio do sono dos justos bem antes das oito.

O interminável retorno por baixo

No amanhecer o dia estava azul e promissor, embora ainda pairasse o mar de nuvens abaixo de nós, impedindo a visão de Curitiba, do litoral e dos Agudos. Tínhamos uma longa caminhada pela frente. Antes, porém, tomamos um rápido desjejum e recolhemos o lixo (o nosso e o de algum “esquecido” que passou por ali antes de nós). Na volta, ao contrário da ida, vislumbrávamos toda a paisagem ao norte, onde o Pico do Paraná destoava dos picos em seu entorno naquela imensidão alva de nuvens.

Alvorada - Nascer do sol no cume do Ciririca

Alvorada - Nascer do sol no cume do Ciririca - Foto: Célio Vong

Seguíamos trilha em declive, em um chão forrado de folhas secas, ao som de pássaros e algum curso d’água, em um vale fundo, à nossa esquerda. Após descer uma piramba íngreme, chegamos ao Rio do Meio, onde a Cachoeira do Professor despenca por lajotas rio abaixo, um dos encantos deste trecho predominantemente sem grandes visuais.

Seguindo em frente, descemos os vales subsequentes, onde atravessamos outros ribeirões em meio às pedras e pequenos poços. Às vezes, surgiam dúvidas em relação à continuidade da trilha, mas nos dispersávamos até que alguém encontrava a dita cuja mais adiante. Essa é a vantagem do trabalho em conjunto!

Entornos - Com o tempo bom é possível contemplar a belíssima paisagem nos entornos do Ciririca

Entornos - Com o tempo bom é possível contemplar a belíssima paisagem nos entornos do Ciririca
Foto: Carlos Medici

O “Vale das Borboletas” exigiu um pouco de habilidade e esforço, principalmente das meninas, pois o lugar abriga a “Pedra da Corda”, que, como o nome sugere, precisa ser transposta com a ajuda de uma corda que não inspirava muita confiança. O último trecho daquela piramba interminável tinha ainda uma escalaminhada numa árvore tombada. Para compensar, o final do percurso era uma sequência de descida em meio a enormes bambuzais e paus-brasis.

Na chegada da Fazenda do Bolinha, sentamos nas pedras, exaustos e felizes para remover espinhos das mãos e colocar os chinelos com alguma satisfação, nos preparando para a volta a São Paulo.

Parece uma ironia, uma montanha de tão difícil conquista ter um acesso tão fácil, em uma humilde fazenda próxima a um grande centro urbano. Quiçá esta ambiguidade faça do Ciririca, com justa razão, uma das pérolas da Serra do Ibitiraquire. Deve ser por isso também que quem contempla seus cenários tão belos, misteriosos, selvagens e inóspitos, quando alcança seu cume, o faz em tom de reverência àqueles silenciosos “monólitos” metálicos, plantados no alto daquela montanha distante e exótica.


Esta matéria faz parte da Edição 154 da Revista Aventura & Ação.

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