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Descoberta no litoral alagoano: Piaçabuçu

A pequena cidade que guarda o encontro do Velho Chico com o mar proporciona um inusitado roteiro entre dunas, Mata Atlântica e o celebrado São Francisco, e prova que Alagoas tem muito mais a oferecer do que sol e praia

8 de Junho de 2010.
Publicado por Revista Aventura & Ação  

Revista Aventura & Ação - Ed. 156

Revista Aventura & Ação - Ed. 156

Texto: Joyce de Oliveira Guimarães
Fotos: Cláudio W. A. Guimarães

Esta matéria faz parte da Edição 156 da Revista Aventura & Ação

Depois de termos percorrido as diversas e famosas praias alagoanas, encontramos em Piaçabuçu, pequena cidade de grandes palmeiras, muitas opções de atividades de aventura, além de um espetáculo ímpar porporcionado por um dos rios mais importantes do País. Situado na divisa com o Estado de Sergipe, o município abriga a foz do Rio São Francisco, formando um ecossistema rico em mangues, Mata Atlântica, coqueirais, gaivotas e tartarugas em desova, em uma área de proteção ambiental.

A grande sensação na cidade é fazer um tour em um bugre com dois andares, e, lá de cima, admirar fazendas com imensos coqueiros, ouvindo as histórias e lendas da região. Depois de estacionar o peculiar veículo batizado de “carcará”, a proposta é seguir caminhando por uma linda e preservada restinga, onde os guias reconhecem cada planta e suas respectivas características medicinais. Aos poucos a vegetação vai se descortinando e por entre tanto verde se revela uma das paisagem prá lá de instigante.

Praia do Peba com suas dunas e belíssimas lagoas formadas pelas chuvas – Área de Proteção Ambiental de Piaçabuçu

Praia do Peba com suas dunas e belíssimas lagoas formadas pelas chuvas – Área de Proteção Ambiental de Piaçabuçu - Foto: Cláudio W. A. Guimarães

Além de propiciar lindas composições fotográficas, os coqueiros dão ao município, que possui cerca de 15 mil habitantes, a categoria de grande produtor de coco. Outro destaque é ser o maior banco de camarão do Nordeste, resultado do volume de material orgânico jogado no mar pelo Rio São Francisco, alimentando os pequenos crustáceos.

Esta pacata cidade é conhecida pelo evento pesqueiro nacional que acontece na praia do Peba, mas, pouco havíamos ouvido falar da sua surpreendente beleza natural. Partindo de Maceió, são 135 km até o município.

Destino de aventura

Turista admira a belíssima paisagem das dunas com lagos

Turista admira a belíssima paisagem das dunas com lagos
Foto: Cláudio W. A. Guimarães

Muitas pessoas vão até a cidade em busca da foz do Rio São Francisco, mas certamente, desconhecem seus atrativos, se contentando com o tradicional passeio de barco pelo famoso Rio. Não fosse termos conhecido o casal Fred e Elisabeth em Maceió, diga-se de passagem, aficionados por carros Defender, motivo pelo qual nos conhecemos, também teríamos caído na mesmice. Por simples ignorância, teríamos perdido um dos melhores passeios de nossas férias.

Após termos visitado a nascente do São Francisco na Serra da Canastra e margear boa parte do seu curso, de carro, atravessando estradas de tirar o fôlego, vislumbrando neblinas de poeira, demos como obrigatória a visita à sua foz, só que agora, não mais pelo rio e, sim, por terra.

O passeio na cidade começa pelo belo casario amarelo que fica logo na entrada do município, o Farol da agência Foz Ecoturismo, onde fomos recebidos pelo simpáticos e qualificados anfitriões Robério e Max. Enquanto tentávamos optar pelo trekking, parasail (paraquedas ascendente rebocado por carro ou lancha), sandboard ou off road na praia do Peba, saboreando uma deliciosa água de coco, percebemos que um dia por ali seria muito curto. Resolvemos, então, esticar nossa estadia para desfrutar intensamente tudo que Piaçabuçu tinha a nos oferecer.

Opção de passeio off road na Praia do Peba, de 26 km

Opção de passeio off road na Praia do Peba, de 26 km
Foto: Cláudio W. A. Guimarães

A Praia do Peba, com os seus 26 km de extensão faz parte da Área de Proteção Ambiental (APA) do município, instituída em 1983 pelo governo federal, onde são desenvolvidos projetos de proteção às tartarugas e aves migratórias. É também a única em Alagoas que possui dunas altíssimas a perder de vista.

Para desvendar um pouco as peculiaridades da cidade, entramos no carcará e partimos para uma aventura um tanto original. Passando por um pequeno trajeto da AL 101, viramos à direita em um estreito caminho de terra e abrimos porteiras, atravessamos fazendas e sentimos na pele a brisa suave de um belo amanhecer, ouvindo a música dos pássaros, admirando alagados típicos da estação chuvosa, até que paramos em uma destas fazendas, onde um imenso coqueiral, uma singela casa e doces crianças compunham o bucólico e singular cenário. Num amontoado de cocos secos, o guia Robério nos deu uma aula sobre a origem e empregos da iguaria. Descobrimos que a nobre palmeira é riquíssima no sentido mais amplo da palavra. Não é por pouco que em sânscrito (língua hindu) seu nome é kalpa vriksha, que se traduz como “a árvore que fornece todas as necessidades da vida”.

De volta ao bugre, continuamos por mais alguns minutos até um improvisado estacionamento e, a partir dali, começamos o trekking. Na Área de Proteção Ambiental, entramos em um lugar que parecia um mosaico verde e caminhamos observando a exuberante vegetação entre explicações fitoterápicas, até nos depararmos com as areias douradas emolduradas por um céu azul pincelado por nuvens brancas. Perplexos, a cada passo, penetravamos na maciez das calmas e móveis dunas de Peba. O sol suave sobre a pele nos lembrava que saboreávamos um agradável dia de inverno nordestino.

Vela quadrada que lembra asas de borboleta, típico desta região do Rio São Francisco

Vela quadrada que lembra asas de borboleta, típico desta região do Rio São Francisco
Foto: Cláudio W. A. Guimarães

Quando chegamos em um grande lago formado pelas chuvas, rodeado por um paredão de areia, entendemos o motivo das pranchas que os nossos guias carregavam. Um deles subiu firmando o calcanhar a passos largos numa parede arenosa, quase que totalmente vertical, e, em seu pico, deitou-se de bruço na prancha; numa fração de segundos, deslizou sobre as dunas e, ao tocar o lago de águas transparentes, flutuava dando leves pancadas esparramando gotas d’água pelo ar. Incrível! A técnica e o gingado do guia completaram o show.

Foi inevitável o pensamento, “será que me atrevo”? Mas a dúvida durou pouco. Logo estávamos eu e o Cláudio encantados com a brincadeira apreciando ansiosamente lá de baixo. Mas quando subimos e tivemos uma outra perspectiva, fomos tomados por um súbito friozinho na barriga que só findou quando mergulhamos naquelas águas.

Prosseguimos a caminhada entre subidas, descidas e paradas para descansar até que a alguns bons quilômetros, avistamos o encontro do mar com o Velho Chico. Como brinde, nadamos nas águas rasas e mornas do lago, sem querer ir embora.

Uma descida perfeita nas cintilantes areias do Peba

Uma descida perfeita nas cintilantes areias do Peba
Foto: Cláudio W. A. Guimarães

Mas o relógio não estava a nosso favor e tivemos que voltar ao Farol da Foz. De lá, partimos no nosso Land Rover, seguindo o Carcará até o início de uma nova aventura: percorrer os 26 km de areia fina e escura até a foz do majestoso rio.

Agora estávamos do outro lado das dunas, na praia do Pontal do Peba de águas tranquilas, conhecida por ser um dos lugares mais importantes de desova das tartarugas marinhas que habitam as costas brasileiras. Os carros tocam a areia dura e seguem como se estivessem no mais liso dos asfaltos. O desafio de dirigir seria nulo, se não tivéssemos que atravessar um rio, não parássemos em locais onde a areia, vagarosamente, engolia os pneus dos carros, ou mesmo, se não tivéssemos que acelerar, para não pegar a cheia da maré. Enfim, melhor um guia! Tudo deve ser muito bem calculado.

Após cruzarmos o primeiro obstáculo, um pequeno rio que na maré alta impede a passagem, paramos para nossos amigos ajeitarem o parasail. O Max esticava uma longa corda que vai presa ao carcará e com um vento de no mínimo seis nós (e máximo 12 nós), o parasail se abre, enquanto o Robério ficava no carro aguardando para acelerar o motor. Sentei-me na cadeira fixa do equipamento e assim que carro partiu, me elevava às alturas em total segurança. A sensação de ver o mundo lá de cima, com o vento soprando deliciosamente é indescritível. Quando chegou a vez do Cláudio ele aproveitou todos os ângulos para clicar entusiasmadamente a paisagem.

Tínhamos acertado em nossa escolha. Trocamos o trivial passeio de barco pela oportunidade de contemplar um dos encontros mais famosos entre rio e mar e ainda curtir o visual do lugar com muita adrenalina.

O curso do Velho Chico

Foi ali que pudemos perceber a sina do rio mais presente no imaginário dos poetas, músicos e artistas brasileiros. Conforme nos contou nosso guia, as diversas nações indígenas que habitavam essas terras antes da chegada dos colonizadores batizaram aquelas águas de Opará, que significa algo como “rio-mar”. Mas, foi o navegador Américo Vespúcio que chegando à sua foz em 4 de outubro de 1501, dia de São Francisco, juntamente com outros navegadores europeus batizaram o rio em homenagem ao santo. Desde então, o São Francisco passou a ser visitado regularmente pelas naus europeias, que exploraram a região intensamente, com a expectativa de encontrar ouro e pedras preciosas.

O período do inverno é ideal para curtir um sol brando e contemplar a inusitada paisagem

O período do inverno é ideal para curtir um sol brando e contemplar a inusitada paisagem
Foto: Cláudio W. A. Guimarães

Em Alagoas, o rio tem 240 km de extensão e banha cidades históricas, povoados e praias fluviais; atravessa serras e um cânion, gerando desenvolvimento para as comunidades ribeirinhas. Devido à força de suas águas, foi construída, no início do século 20, a Hidrelétrica de Angiquinhos e na década de 80, a de Xingó, que garantem grande parte da energia do Nordeste. Com o represamento das águas para a construção das hidrelétricas, formou-se um imenso e profundo lago onde são realizados passeios de barcos entre o majestoso cânion, paredões esculpidos pela natureza que chegam a ter 80 metros de altura.

O belo curso do Chico, entretanto, corre riscos. Ao longo dos 2,7 mil quilômetros de extensão em território brasileiro, o rio corta cinco estados, onde vem sendo vítima de desmatamentos e queimadas, da poluição na forma de agrotóxicos, esgotos domésticos e industriais, além do desvio de água cada vez maior para projetos de irrigação mal elaborados.

O descaso tem diminuído perigosamente seu volume de água. A falta de vigor do rio, forçada pela construção das barragens, fica visível ao chegar à sua foz e ver o Farol do Cabeço literalmente naufragado. Ele já esteve na praça central de um povoado sergipano (Cabeço Novo, aldeamento de Brejo Grande, município de Sergipe), a cerca de um quilômetro do mar. Infelizmente, não cumpre mais seu destino de servir de guia para os navegadores marítimos que se aproximam da turbulenta foz do Velho Chico.

O desmatamento, além de contribuir para secas constantes nas nascentes do São Francisco e de seus afluentes, provoca a queda de barrancos e, consequentemente, o assoreamento do rio. Como consequência, muitas ilhas já estão formadas em seu percurso, comprometendo a navegação, que já não é possível em certos trechos.

O problema ressuscita um antigo paradoxo. O rio que é fonte de vida, história e cultura e irriga a terra árida do sertão, é vítima do desprezo e da irresponsabilidade de sucessivos governantes, seja a nível federal ou estadual, incapazes de adotar medidas para impedir sua morte lenta. As cidades ribeirinhas (mais de 150) não têm saneamento básico e as indústrias tampouco, despejando todo o esgoto diretamente em seu leito. Outro agravante acontece já no oceano, com o desrespeito de pescadores que jogam suas redes de arrasto no mar, prendendo tartarugas acidentalmente.

Depois das conversas sobre o destino do rio, tínhamos que acelerar para conseguirmos voltar a Piaçabuçu. Antes que o mar tomasse seu lugar mais alto deixamos o Velho Chico e com adrenalina nas veias, entre mar e areia fofa, em vários trechos com a água salgada já tocando os pneus, conseguimos chegar ao ponto final. Ficamos não apenas com a sensação de querermos mais, mas sim, com a certeza de um dia voltar.

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CIDADE DE PENEDO

Piaçabuçu, a terra das grandes palmeiras, foi elevada à categoria de vila em 1882, e desmembrada da cidade de Penedo somente em 1952, quando conquistou sua emancipação.

Penedo perdeu um nobre território, mas mesmo assim, também vale a visita. O que chama a atenção na cidade é seu rico patrimônio histórico e cultural centrado em igrejas, conventos e palacetes dos séculos 17 e 18, que ainda se encontram em bom estado de preservação, motivo pelo qual foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Com uma população de 60 mil habitantes, está entre os principais roteiros do estado de Alagoas, sendo considerada uma das mais bonitas e antigas cidades históricas do País.

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Joyca e Claudio

Joyca e Claudio
Foto: Cláudio W. A. Guimarães

SOBRE OS AUTORES

Claudio, fiscal da Receita Federal e fotógrafo, e Joyce Guimarães, educadora e escritora, nascidos em Niterói (RJ) unidos pela curiosidade de descobrir novos caminhos, e pela paixão pela natureza. A borda de um Land Rover Defender 90 encaram uma aventura do Sul do Brasil ao Alasca, uma belíssima expedição de oito meses, totalizando 72.500 km, resultando num livro que compartilha os detalhes e as incríveis imagens da ousada experiência. “Viajar está no sangue, assim como o ar está para o ser humano, por isso todos os nossos momentos de folga, vamos à busca de novos horizontes”, explica Joyce.

Neste ano, resolveram explorar mais do Brasil, do sertão ao litoral, onde nasceu esta reportagem. Para saber mais sobre o casal e suas aventuras, visitem o site: www.terrasemfronteiras.com.br

Conheça mais sobre os autores:

Texto: Joyce de Oliveira Guimarães
Fotos: Cláudio W. A. Guimarães
www.terrasemfronteiras.com

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Esta matéria faz parte da Edição 156 da Revista Aventura & Ação.

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Comentários

Valéria

 postado: 8/6/2010 23:07:45editar

Amei a matéria. Estive em Maceió em maio e um dos passeios foi a ida à foz do S. Francisco. Já conhecíamos a nascente e foi maravilhoso agora conhecer o encontro com o mar. Também ficamos com gostinho de quero mais e depois de ler tudo isso ainda temos muitas coisa para fazer lá. Parabéns!

 

Fátima Camilo

 postado: 9/6/2010 09:36:47editar

Eu e meu marido sempre viajamos de carro e já passamos por Piaçabuçu 3 vezes. As praias são lindas e a cidade é uma pena estar tão esquecida, com construções antigas se acabando, não tem projeto nenhum de restauração.
Fátima Camilo- Ribeirão Preto-SP

 

dyva menezes

 postado: 9/11/2010 22:05:26editar

Adorei esse lugar é maravilhoso!!Nasci nesse lá e sempre que posso vou passar minhas férias...quem nunca foi â foz do são francisco precisa conhecer...

 

Elismara

 postado: 10/11/2010 14:42:20editar

nasci em alagoas e vivi pouco tempo mas tenho orgullho de ser alagoana. Agora moro em GOIAS ONDE TAMBEM TENHO MUITO ORGULHO.MAS ALAGOAS E UM PARAISO......

 

geane silva

 postado: 24/5/2011 08:25:57editar

nossa!! Piaçabuçu: terra de pessoas felizes e tranquilas, quem nao foi nesse pedacinho de paraíso,nao sabe o que esta perdendo!! bjoussssssssssssssssssss

Geane, realmente, todos deveriam conhecer. É muito, muito lindo lá!


 

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