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Serra da Capivara: museu natural

Um dos mais importantes patrimônios culturais pré-históricos do planeta, o Parque Nacional Serra da Capivara propicia autênticas aventuras nas trilhas em meio à caatinga rumo a sítios arqueológicos de até 18 mil anos

19 de Maio de 2011.
Publicado por Revista Aventura & Ação  

Revista Aventura & Ação Ed. 160: Destaques nacionais e internacionais!

Revista Aventura & Ação Ed. 160: Destaques nacionais e internacionais!
Foto: A&A

Esta matéria faz parte da Edição 160 da Revista Aventura & Ação.

Texto e fotos: Joyce e Cláudio Guimarães

Muito pó nas estradas longínquas do Piauí, mas o cenário estava pra lá de Monet. O céu azul contrastava com a vegetação que oscilava do alaranjado ao marrom, cores impressionantes e que nos davam a certeza de estarmos no rumo certo. Não é muito fácil chegar à chamada fronteira ecológica, como é considerado o Parque Nacional Serra da Capivara, devido às variadas influências sofridas ao longo de milhares de anos, transformando a cada época, um cenário ativo num belo ecossistema.

Os caminhos foram descortinando uma paisagem exótica e insólita à medida que nos aproximávamos da cidade de São Raimundo Nonato. Por ali, paramos e perguntamos sobre o Parque, noite caindo e acompanhados de um cansaço físico, mas ainda dispostos a admirar as estrelas surgindo naquele céu espetacular.

Depois de um pernoitar na cidade, que dista 40 quilômetros do Parque, partimos revigorados pela estrada de terra, rumo ao vilarejo de Coronel José Dias. Ansiosos, fomos direto para a entrada do Parque, loucos para desvendar a rara biodiversidade tão lida nos textos de revistas e livros. Para nossa surpresa, fomos intimados a voltar ao vilarejo e a encontrar um guia, obrigatório para a entrada no Parque.

Pinturas Rupestres  A iluminação noturna dá um charme às pinturas rupestres da Toca do Boqueirão da Pedra Furada

Pinturas Rupestres A iluminação noturna dá um charme às pinturas rupestres da Toca do Boqueirão da Pedra Furada - Foto: Joyce e Cláudio Guimarães

Depois da providência, voltamos ao nosso objeto de desejo. Imaginem pisar as terras de um dos maiores sítios arqueológicos da América Latina, onde está a maior quantidade de pinturas primitivas sobre rocha do mundo... além disso, a unidade exibe uma estrutura de deixar muitos parques internacionais para trás.

Caminhadas - Depois de milhões de anos, rochas sedimentares, como esta, brotaram do fundo dos oceanos. E, são nestas rochas que os “antigos moradores” da Capivara gostavam de fazer suas exóticas inscrições, que também são encontradas nesta fantástica trilha do Baixão das Mulheres; a guia Paula Alves mostra o caminho

Caminhadas - Depois de milhões de anos, rochas sedimentares, como esta, brotaram do fundo dos oceanos. E, são nestas rochas que os “antigos moradores” da Capivara gostavam de fazer suas exóticas inscrições, que também são encontradas nesta fantástica trilha do Baixão das Mulheres; a guia Paula Alves mostra o caminho
Foto: Joyce e Cláudio Guimarães

Caminhadas - Depois de milhões de anos, rochas sedimentares, como esta, brotaram do fundo dos oceanos. E, são nestas rochas que os “antigos moradores” da Capivara gostavam de fazer suas exóticas inscrições, que também são encontradas nesta fantástica trilha do Baixão das Mulheres; a guia Paula Alves mostra o caminho

Caminhadas - Depois de milhões de anos, rochas sedimentares, como esta, brotaram do fundo dos oceanos. E, são nestas rochas que os “antigos moradores” da Capivara gostavam de fazer suas exóticas inscrições, que também são encontradas nesta fantástica trilha do Baixão das Mulheres; a guia Paula Alves mostra o caminho
Foto: Joyce e Cláudio Guimarães

Ali, pisamos no passado pré-histórico, a alguns metros do lugar onde se discute ser o berço mais antigo do homem americano - será? Apesar de praticamente impossível conhecer os mais de 400 sítios arqueológicos com mais de 30 mil pinturas rupestres, não desanime, você pode desfrutar em poucas horas de um cenário singular, exalando um ar contagiante. São diversas trilhas observando não só as pinturas de grande valor cultural, mas as riquíssimas fauna e flora que justificam o título de Patrimônio Cultural da Humanidade - UNESCO. Explore essas terras, deguste o mais delicioso tempero da caatinga e a sua bela e incomparável natureza.

Os níveis de dificuldade nas trilhas variam de fácil a difícil. Bom, se os arqueólogos que têm sede de investigação, técnica e ciência em busca de restos materiais de civilizações antigas, restos materiais de culturas passadas exploram tudo isto... por que não, nós, aventureiros, que temos sede de exploração da natureza? Arriscamo-nos e decidimos extrair dela a essência da vida e compartilhar o que ela tem de melhor a nos oferecer, o ar puro, as cores da flora, a alegria da fauna, altas montanhas, águas cristalinas, rochas enigmáticas, enfim, a incomparável diversidade biológica. Tantos atrativos, entretanto, não tornam o desafio mais fácil. Haja fôlego e pernas para desvendar o que a ciência já tocou.

A impressionante Pedra Furada é parte de um paredão com mais de 60 metros de altura e possui uma abertura de 15 metros de diâmetro

A impressionante Pedra Furada é parte de um paredão com mais de 60 metros de altura e possui uma abertura de 15 metros de diâmetro
Foto: Joyce e Cláudio Guimarães

Pintura símbolo do parque

Pintura símbolo do parque
Foto: Joyce e Cláudio Guimarães

Boqueirões ou cânions são os testemunhos vivos desta história. Não diferente da maioria das pessoas que visitam a região, em primeiro lugar queríamos ver o arco do triunfo do Baixão da Pedra Furada, o símbolo do Parque. Percorremos a trilha, considerada fácil, excitados em busca do monumento geológico. Estar lá e ver o que a natureza esculpiu em milhões de anos é indiscutivelmente fascinante, restando a nós o ato de contemplá-lo e respeitá-lo.

Neste circuito podem ser visitados mais de 10 sítios arqueológicos, inclusive a Toca do Boqueirão da Pedra Furada, o sítio que possui os vestígios da presença humana mais antiga das Américas. Prepare-se e agende para visitá-lo à noite, quando a iluminação dá um charme especial às exóticas figuras.

Perplexos e contagiados com a beleza da caatinga, encaramos a próxima tarefa que era encontrar um lugar para dormir. Existe um bom camping próximo à entrada do Parque, mas estava fechado por falta de água, recurso escasso e preocupante nesta região. Por sorte, pudemos contar com a extrema hospitalidade de moradores locais que nos receberam em sua simples casa. Com esta experiência, pudemos sentir como aquele povo realmente vive com “tão pouco” e são imensamente felizes.

Na trilha do balão da Pedra Furada, Joyce admira uma das arvores, que em meio às rochas direcionou suas raízes em busca de água, em um dos locais onde se acumula o precioso líquido das chuvas

Na trilha do balão da Pedra Furada, Joyce admira uma das arvores, que em meio às rochas direcionou suas raízes em busca de água, em um dos locais onde se acumula o precioso líquido das chuvas
Foto: Joyce e Cláudio Guimarães

Divisão - Estonteante visão sobre a Chapada do Caldeirão dos Rodrigues

Divisão - Estonteante visão sobre a Chapada do Caldeirão dos Rodrigues
Foto: Joyce e Cláudio Guimarães

O acolhimento das pessoas se mistura à recepção da natureza que a cada trilha nos brinda com uma maravilhosa descoberta. A estrada carroçável do Caldeirão dos Rodrigues leva até um paredão que fecha o fundo do vale. Depois de subir por escadas de pedra e caminhar pela bela chapada, é só recuperar o ar e admirar as exóticas pinturas. No alto da chapada, você vai encontrar uma imensa escadaria de barras de ferro encravada nas rochas, levando até o fundo de um vale interno, onde se vê mais pinturas rupestres extremamente nítidas e de enorme beleza, a Toca do Caldeirão dos Rodrigues II, com datação de 18 mil anos.

Tudo ali impressiona e emociona. O Museu do Homem Americano, o clima semi-árido, o formato das rochas, o pôr do sol por entre cactos, o céu sempre e intensamente azul, os animais, os homens modelando a famosa e internacional cerâmica da Capivara, a paz do lugar, o colorido da vegetação apesar dos raros dias de chuva, a dedicação ao trabalho e a simplicidade do povo. Um atrativo à parte são o conhecimento que eles têm do local e as lendas que relatam, os hábitos de religiosidade, cultura e modo de vida explícitos nas figuras pintadas na rocha dos nossos ancestrais indígenas. São inúmeras trilhas contando histórias belíssimas e de rico valor cultural mundial, em um dos lugares mais insólitos do nosso Brasil.

Polêmica Arqueológica

História - Nitidas pinturas rupestres de grande valor antropológico; a caminho de grandes descobertas pré-históricas nas trilhas Toca do Caldeirão dos Rodrigues I e II

História - Nitidas pinturas rupestres de grande valor antropológico; a caminho de grandes descobertas pré-históricas nas trilhas Toca do Caldeirão dos Rodrigues I e II
Foto: Joyce e Cláudio Guimarães

História - Nitidas pinturas rupestres de grande valor antropológico; a caminho de grandes descobertas pré-históricas nas trilhas Toca do Caldeirão dos Rodrigues I e II

História - Nitidas pinturas rupestres de grande valor antropológico; a caminho de grandes descobertas pré-históricas nas trilhas Toca do Caldeirão dos Rodrigues I e II
Foto: Joyce e Cláudio Guimarães

Vários vestígios antigos de vida humana foram encontrados na Serra da Capivara. Os principais se localizam no sítio do Boqueirão da Pedra Furada que, após análises de reações de quimiluminescência, chegam a registrar cem mil anos. Alguns cientistas, porém, não consideram essa técnica confiável. Os que foram examinados a partir do Carbono 14, datam de 58 mil anos e são reconhecidos internacionalmente como o mais antigo registro da presença humana no continente. Segundo Niède Guidon, a grande responsável pelo sucesso destas pesquisas, a descoberta brasileira ainda não é bem-vista por alguns arqueólogos dos Estados Unidos porque, além de lhes tirar o reconhecimento por abrigar o mais antigo fóssil humano da América, muda toda a teoria de que o homem havia entrado no continente pelo Estreito de Bering, no Alasca.

“O homem surgiu na África há 130 mil anos. Saiu de lá pelo mar, à procura de comida, e chegou à América, primeiro pelo nordeste brasileiro”, afirma a pesquisadora. Ela sustenta também que o caminho feito por Bering e pelas Ilhas Aleutas era muito mais longo e difícil do que vir pela África. Segundo análises de um dos maiores especialistas do mundo em tecnologia lítica (de pedra) pré-histórica, o francês Eric Boeda – que visitou o Parque Nacional em julho, durante um congresso mundial –, as ferramentas de pedra lascada encontradas por Niède Guidon no Boqueirão da Pedra Furada foram feitas por seres humanos, entre 33 e 58 mil anos atrás, e são, portanto, a mais antiga evidência desta ocupação. “Atualmente, ninguém mais duvida das descobertas e temos de aprender que, em arqueologia, os dados de hoje podem perder validade amanhã”, afirma Niède.

Simpáticos habitantes - Visão bucólica no quintal do Museu do Homem Americano em São Raimundo Nonato; macaco-prego atravessando a rua em busca de seu bando. Uma das poucas espécies que vivem na Serra da Capivara, considerando as características do clima; Caititu, a Tina, como é carinhosamente chamada, vive ao redor de uma das portarias do Parque
Simpáticos habitantes - Visão bucólica no quintal do Museu do Homem Americano em São Raimundo Nonato; macaco-prego atravessando a rua em busca de seu bando. Uma das poucas espécies que vivem na Serra da Capivara, considerando as características do clima; Caititu, a Tina, como é carinhosamente chamada, vive ao redor de uma das portarias do Parque
Simpáticos habitantes - Visão bucólica no quintal do Museu do Homem Americano em São Raimundo Nonato; macaco-prego atravessando a rua em busca de seu bando. Uma das poucas espécies que vivem na Serra da Capivara, considerando as características do clima; Caititu, a Tina, como é carinhosamente chamada, vive ao redor de uma das portarias do Parque

COMO CHEGAR
De Teresina, seguir por asfalto em direção a Floriano, Canto do Buriti e São Raimundo Nonato, de onde o Parque dista 40 quilômetros por estrada de terra. Pode-se também alcançar São Raimundo Nonato por asfalto ou avião a partir de Petrolina, em Pernambuco.

Mapa da região

Mapa da região

ONDE FICAR
São Raimundo Nonato, a 40 quilômetros do Parque, com opção de vários hotéis e campings. Lá está localizado o Museu do Homem Americano. Também pode-se acampar próximo ao Parque, na cidade de Coronel José Dias, nossa opção.

O QUE LEVAR
Muita disposição para caminhar e apreciar paisagens únicas deste planeta. Roupas leves, pois faz muito calor, bonés, tênis, câmera fotográfica e muito protetor solar.

O QUE VER
A visitação só é permitida com guia, facilmente conseguido na cidade de Coronel José Dias, localizada um pouco antes da entrada do Parque. Imperdíveis: O Museu do Homem Americano, a Pedra Furada, o local onde se fabricam lindas peças de cerâmica, todas decoradas com as pinturas encontradas no Parque, e uma bela caminhada no Caldeirão dos Rodrigues. No mais, basta escolher alguns dos mais de 60 sítios arqueológicos permitidos à visitação e se deliciar com muita história, aliás, pré-história, e oxigenar o cérebro com as “infinitas” caminhadas.

QUANDO IR
Cada estação tem a sua beleza! Por isso você pode visitá-lo o ano todo, sendo o período das chuvas entre setembro e outubro.

NA INTERNET
www.terrasemfronteiras.com
www.expedicaoparquesnacionais.com.br
www.fumdham.org.br


Esta matéria faz parte da Edição 160 da Revista Aventura & Ação.

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Comentários

Nara Aires

 postado: 21/5/2011 13:19:03editar

Olá!

Parabéns pela belíssima e cultural publicação sobre o Parque Nacional Serra da Capivara no Piauí! Saudações Turísticas!!! Turismóloga Nara Aires. Acesse nossa Rede Social de Turismo e Informações... @tourbrasil no twitter.

Olá Nara, muito obrigado pelo comentário.
Boa sorte com o @tourbrasil! Sucesso e abraços!


 

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