Bóias-frias largam a enxada para fazer artesanato no interior paulista

Grãos pintados em porcelana, ramos bordados em guardanapos, quadrinhos com cenas de fazendas e desenhos inspirados nas aves dos cafezais são os temas do projeto Café Igaraí

  
  

O Brasil é o maior exportador de café do mundo. Os principais estados brasileiros produtores de café são Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Bahia, Paraná e Rondônia. Em São Paulo, uma das regiões produtoras é Mococa, a cidade do Café com Leite (260 km de São Paulo). Os primeiros pés de café chegaram à região por volta de 1840 e foi nessa época que começaram a se formar as primeiras fazendas de café.

A região enriqueceu em torno do café. Apesar disso, na última década houve uma diminuição da produção e um avanço da cana-de-açúcar. As fazendas passaram da produção artesanal para a mecanização e os empregos escassearam na região.

No distrito de Igaraí, por exemplo, 1.050 dos 3.180 habitantes vivem na zona rural, cujas principais atividades são as lavouras de café e cana-de-açúcar e o leite vendido aos laticínios locais. Mesmo a população que vive na vila de Igaraí depende quase que 100% dos empregos gerados na zona rural.

Os trabalhos em sua maioria são ocupados por homens. Poucas são as mulheres que se aventuram nos cafezais. Mesmo assim o trabalho de bóia-fria dura apenas quatro meses ao ano. Depois, elas ficam sem fonte de renda. Foi a partir desta observação que a administradora da Fazenda Ambiental Fortaleza, Claudia Davis, e a proprietária Maria Silvia Barreto, decidiram ajudar na geração de emprego e renda para as mulheres da fazenda.

Em 2006, foi aprovado pelo Sebrae/SP um projeto de geração de renda valorizando a cultura local e a contratação do designer têxtil Renato Imbroisi. O foco do projeto passou a ser não só as mulheres da Fazenda Ambiental Fortaleza, mas também as de outras fazendas da região, como a Fazenda Santo António e da vila de Igaraí.

“Na primeira chamada, 57 mulheres se interessaram; porém, metade delas acreditava tratar-se de um emprego formal e acabaram desistindo”, disse Márcia. Ficaram 30 artesãs, que tiveram a oportunidade de participar de oficinas de bordado, tingimento natural e porcelana, conheceram a história do café e passaram por oficinas de criatividade.

“Muitas só conheciam dois pontos de bordado. Ensinamos a elas 21 técnicas. A partir daí criaram seus próprios desenhos, padronagens, cores e formatos”, diz Tomás Cunzolo Jr, da ONG Vivarta.

A Prefeitura cedeu uma sala para que elas pudessem se reunir e os trabalhos eram feitos em casa. Das 30 artesãs, 13 continuaram o trabalho e este ano surgiu a Associação de Artesanato Café Igaraí. “Elas terceirizam agora a mão-de-obra e vendem para algumas lojas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Fecharam no início do ano a primeira exportação para Taiwan”, diz Márcia.

O projeto foi eleito pelo Top 100 de Artesanato Brasileiro, prêmio promovido pelo Sebrae, como uma das 100 melhores unidades produtivas de todo o País em 2008. Além disso, recebeu também o primeiro lugar do Museu A Casa.

Identidade

As peças feitas à mão no projeto Café Igaraí têm como tema todos os ícones que envolvem o café. São grãos pintados em porcelana, ramos da planta, com frutos e flores delicadamente bordados em guardanapos e toalhas de mesa, quadrinhos com cenas de fazendas, e desenhos inspirados nas aves que habitam os cafezais.

As cores remetem ao universo da lavoura do café: utiliza-se o branco, o cru, o marrom, o preto e tons terrosos resultantes do tingimento vegetal natural com palha e pó de café reciclado, folhas de árvores dos cafezais, como pata-de-vaca, amoreira, ipê, jacarandá e outras, todas típicas da região de Igaraí.

As artesãs são remuneradas por peça vendida, ou seja, elas investem na confecção da peça. Vendida a peça, a artesã recebe o equivalente à mão-de-obra empregada na sua confecção. O lucro, assim como o equivalente aos custos de matéria prima, vai para um fundo do grupo que é gerenciado por duas artesãs e pela coordenadora. Este fundo é utilizado para a compra coletiva de matéria prima e para investimentos do grupo como compra de máquina de costura, custos de participação em feiras e bazares, construção de website entre outras.

No final de 2007 e em fevereiro de 2008 o grupo participou de duas exposições seguidas de vendas de seus produtos em Chicago, nos Estados Unidos, nos cafés Wild Tree e Metropolis. Alguns quadros bordados pelas artesãs chegaram a ser vendidos por U$ 150 cada.

Em março do ano passado, o grupo recebeu o patrocínio da organização da feira Craft + Design para participar do evento. As mãos calejadas das mulheres do café conquistaram 30 novos clientes na feira.

Serviço
Agência Sebrae de Notícias – (61) 3348-7238 e 2107-9362
www.agenciasebrae.com.br
Café Igaraí - (19) 3656-0586 ou (19) 8116-4115

Fonte: Agência Sebrae de Notícias

  
  

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