Almoço do Círio, a força de uma tradição secular no Pará

Não é à toa que o Círio de Nazaré é considerado o Natal dos paraenses.

  
  
O tucupi, líquido retirado da mandioca, é um importante item da culinária paraense e usado no tradicional almoço do Círio: o pato no tucupi

Não é à toa que o Círio de Nazaré é considerado o "Natal dos paraenses". Além da celebração religiosa, que atrai quase dois milhões de devotos todos os anos, outro aspecto da festa se assemelha ao Natal: a culinária. Em vez da ceia, os paraenses têm o tradicional almoço do Círio. Pato no tucupi e maniçoba são as iguarias mais pedidas e não podem faltar na mesa da família.

É na feira do Ver-o-Peso que a maioria dos belenenses vai buscar os ingredientes. Maniva (folha da mandioca) triturada, tucupi e jambu são alguns dos mais procurados. No local, encontramos dona Raimunda Saldanha escolhendo toucinho, linguiça e costela de porco salgada, entre outros itens, para compor a maniçoba que a dona-de-casa prepara. Ela conta que seus pratos são famosos e, todos os anos, reúnem a família para um belo almoço do Círio. "Filhos, netos, irmãos, sobrinhos. Todo mundo comparece. E se não tiver maniçoba e pato no tucupi lá em casa, não é Círio", conta ela, com humor.

Para os turistas que vêm para o Círio, a cozinha local é um atrativo à parte. O casal Rosana e César Figueiredo veio de Porto Velho, Rondônia, especialmente para acompanhar a festa religiosa. Mas enquanto o segundo domingo de outubro não chega, aproveitam para conhecer as iguarias paraenses. O militar conta que ele e a esposa querem experimentar de tudo um pouco. "Já comemos peixe e açaí e hoje vamos experimentar o caranguejo", revela ele.

Para os feirantes, outubro é uma das épocas mais lucrativas do ano. Que o diga Marcelo Martins, que vende maniva triturada. Ele conta que a partir do dia 1º até as vésperas do Círio, chega a vender mais de 1.000 quilos do produto em um único dia e os ganhos aumentam em cerca de cinco vezes. "A gente trabalha dez vezes mais, de dia e de noite, às vezes até sem dormir, mas vale a pena", conta ele. Um cálculo rápido permite constatar que o sacrifício vale mesmo a pena, já que 1 Kg de maniva triturada custa entre R$ 1,50 e R$ 2,00 e, se for pré-cozida, o valor chega a R$ 2,50 na feira.

O tucupi, líquido retirado da mandioca, é outro item valorizado. Maria de Jesus Siqueira comercializa até 1.500 litros do produto por semana neste período. "Julho, outubro e dezembro são as melhores época do ano para mim", diz a feirante, que aprendeu a fazer tucupi com a mãe.

O jambu, erva usada no preparo do pato no tucupi (bem como no tacacá), é bastante procurado, assim como alfavaca, chicória, cheiro-verde e diversos tipos de pimenta, que dão sabor especial ao prato. Quanto ao ingrediente principal, o pato, este muitas vezes é substituído por outras aves devido ao preço: está custando de R$ 40,00 a R$ 60,00 reais.

Mesmo assim, Lucivaldo Alves garante que as vendas vão bem. Em uma manhã, ele chega a vender mais de dez. O feirante conta que é apreciador do prato, embora não seja católico. "Minha família é evangélica, mas em casa a gente come pato no tucupi em outras épocas do ano". O Círio ainda aquece os vendas de outros produtos, embora em menor escala, tais como camarão, farinha de tapioca, farinha de mandioca e frutas regionais, usadas no preparo de sobremesas.

Aumento - Segundo balanço feito pelo Dieese/PA no início do mês, o almoço do Círio está mais caro este ano. O item mais caro é o pato vivo, que pode ser encontrado por até R$ 12,00/Kg nas feiras de Belém - um aumento de cerca de 9% em relação ao ano passado. Além do pato, o maço de jambu e o tucupi também tiveram reajustes, segundo a pesquisa.

Seja como for, o tradicional almoço do Círio se tornou parte importante da festa religiosa dos paraenses e, mesmo pesando no bolso, milhares de famílias católicas não abrem mão. "Para nós, é tão importante quanto a ceia de Natal", diz a dona-de-casa Lúcia Miranda.

Receita - Uma das curiosidades da culinária do Círio está no preparo da maniçoba. A iguaria, que é uma herança indígena, lembra a tradicional feijoada brasileira, porém, no lugar do feijão, entra a maniva moída. A receita leva até sete dias para ficar pronta, uma vez que a maniva é uma folha venenosa (contém ácido cianídrico) e exige várias horas de fervura. Por essa razão, geralmente é feita em grande quantidade.

Maniçoba
Rendimento: 35 pessoas.

Ingredientes:

• 2 paneiros com maniva (folhas de mandioca)
• 2 Kg de toucinho branco
• 2 Kg de toucinho defumado
• 2 Kg de pé de porco salgado
• 2 Kg de orelha de porco salgada
• 2 Kg de língua de porco salgada
• 2 Kg de rabo de porco salgado
• 2 Kg de lombo de porco salgado
• 2 Kg de costela de porco salgada
• 1,5 Kg de paio
• 1,5 Kg de chouriço
• 1,5 Kg de linguiça de porco
• 4 Kg de bucho de boi
• 4 Kg de charque

Modo de preparo:
Pique as folhas de mandioca (maniva) sem os talos e moa muito bem em uma máquina de moer carne, até dar 6 quilos.
Num panelão com bastante água, leve a maniva moída ao fogo brando e deixe ferver durante 72 horas. Mexa de vez em quando, dando pelo menos três boas mexidas por período: manhã, tarde e noite. Isto é feito para que as folhas não grudem na panela. Coloque sempre água, pois a massa não pode ficar seca. Quando for dormir, complete a água de novo e deixe o fogo mais o baixo possível.
Passadas as 72 horas, acrescente o toucinho branco (sem cortar) e o toucinho defumado (também inteiro). Deixe ferver por mais 24 horas, sempre em fogo brando, completando a água e dando, no mínimo, três boas mexidas por período.
Com a maniva continuando a ferver na tarde do quarto dia, à parte, ponha as carnes salgadas e o charque de molho para tirar o excesso de sal. Ficam de fora apenas o paio, o chouriço, a lingüiça e o bucho de boi.
No quinto dia, corte em pedaços do tamanho de servir o bucho de boi e escalde muito bem para tirar todo o cheiro. Corte também em tamanho de servir as carnes salgadas, lave bem e afervente. Junte tudo e ponha no panelão em que a maniva continua fervendo por mais 48 horas, desligando o fogo quando for dormir.
No sexto dia, corte em rodelas o paio, o chouriço e a lingüiça e ponha para ferver.
No sétimo dia, a maniçoba já esta pronta e fica como se fosse uma feijoada.
A cor da maniva, que no inicio do cozimento é verde bem vivo, vai se transformando até ficar um verde muito escuro, quase preto.
Sirva com arroz branco, farinha d'água de mandioca e uma pimenta de cheiro.

Fonte: Agência Pará de Notícias

  
  

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