Índios Deni comemoram na Amazônia a demarcação de suas terras

O grupo indígena Deni celebrou no dia 5 de julho, com cantos e danças tradicionais, a conclusão da demarcação de sua terra , depois de 18 anos de espera. A cerimônia, organizada pelos patarahu (caciques) Deni, foi realizada na aldeia Boiador, às margens d

  
  

O grupo indígena Deni celebrou no dia 5 de julho, com cantos e danças tradicionais, a conclusão da demarcação de sua terra , depois de 18 anos de espera. A cerimônia, organizada pelos patarahu (caciques) Deni, foi realizada na aldeia Boiador, às margens do rio Xeruã, afluente do rio Juruá, no sudoeste do Estado do Amazonas.

Integrantes do Greenpeace, do Cimi e da Opan , que ajudaram os Deni a lutar por seu território, além de autoridades, convidados especiais e jornalistas de vários países, participaram da festa.

Com a demarcação da terra Deni, um corredor `etno- ambiental` de mais de 3,6 milhões de hectares de floresta amazônica será formado, ligando oito terras indígenas. Esse corredor, ainda não cientificamente estudado, vai assegurar o uso exclusivo dos recursos da floresta por uma população estimada em mais de 2,4 mil indivíduos, além de um grupo ainda não contatado, os Hi-marimã.

A demarcação de terras indígenas tem se demonstrado uma forma eficiente de proteção à floresta amazônica, ameaçada por milhares de madeireiros que, em sua maioria, atuam de forma ilegal e predatória; por queimadas; pelo avanço da fronteira agrícola e pecuária; e por grandes obras que abrem o coração da floresta à devastação. Imagens de satélite da Amazônia Legal revelam que o desmatamento crescente não cruza as fronteiras de territórios tradicionalmente usados pelos povos indígenas.

O desmatamento anual estimado para o período agosto/2001- agosto/2002, por exemplo, alcançou o alarmante índice de 25.460 km2, a segunda maior taxa da história, mas poupou as terras indígenas .

`A demarcação da terra Deni é um passo histórico para todos aqueles que lutam para reverter a tendência de destruição das Florestas Antigas do planeta, por meio do trabalho com as comunidades tradicionais, do estabelecimento de áreas protegidas e pelo cumprimento das legislações nacionais`, disse Nilo D`Avila, da campanha Amazônia do Greenpeace.

`Depois de quatro anos de trabalho com os Deni pela conquista de seu direito à terra, estamos convencidos de que a preservação da biodiversidade da Amazônia, tão ameaçada por interesses econômicos e por um padrão de consumo insustentável, só estará garantida se for feita em parceria com os povos que têm na floresta a sua casa`.

Desde 1999, o Greenpeace desenvolve uma campanha pela demarcação da terra Deni, uma área de 1,53 milhão de hectares localizada na planície entre os rios Purus e Juruá. Na época, o Greenpeace investigava a compra de 313 mil hectares de floresta pela gigante madeireira da Malásia, WTK, que pretendia explorar madeira na região para produzir compensados destinados à exportação.

A WTK tem um triste histórico de desrespeito à legislação e aos direitos das populações tradicionais dos países onde atua. Durante a investigação de campo, o Greenpeace descobriu que mais da metade das terras compradas pela WTK - 150 mil hectares - se sobrepunha à terra Deni.

Os Deni aguardavam a demarcação de sua terra desde 1985 e não acreditavam mais em soluções oficiais. Alertados sobre a presença da WTK, eles pediram ajuda ao Greenpeace para proteger seu território tradicional.

A primeira iniciativa foi tentar acelerar os trâmites do processo oficial de identificação da terra para que a demarcação fosse realizada até 2001. O não-cumprimento dos prazos e acordos fez com que os Deni decidissem autodemarcar sua terra. Os líderes Deni novamente pediram ajuda ao Greenpeace.

`Nós nunca deixaremos nossa terra`, disse Kubuvi Deni, um dos líderes. `Nós dependemos da floresta para sobreviver. Precisamos caçar e pescar para nos alimentar e, para isso, nós precisamos de nossa terra`.

A partir da determinação dos Deni, o Greenpeace entrou em contato com o Cimi e a Opan - duas organizações com grande experiência no trabalho com povos indígenas na Amazônia - para, juntos, formular um projeto que capacitasse os próprios índios a delimitar os limites tradicionais de sua terra e, assim, comandar o processo demarcatório. Para Ivar Busatto, da Opan, `o fato de o Greenpeace ter nos chamado para uma luta maior em defesa dos direitos Deni foi extremamente importante`.

Em 2001, uma equipe multidisciplinar trabalhou diretamente com líderes Deni de todas as oito aldeias, e os Deni aprenderam a manusear instrumentos desconhecidos para eles, como teodolitos, bússolas e GPS, adquirindo uma idéia muito clara das fronteiras de seu território.

Ao mesmo tempo, o Greenpeace realizou uma campanha de pressão junto ao mercado internacional da WTK, incluindo a invasão de navios transportando compensados nos portos de chegada.

As ações resultaram no fechamento do mercado inglês - o principal consumidor dos compensados produzidos pela WTK na Amazônia. Acuada, a empresa capitulou e declarou formalmente que não iria explorar a área sobreposta à terra Deni e que não recorreria à Justiça contra o processo de demarcação.

Em setembro de 2001, os Deni iniciaram a autodemarcação de seu território. Eles contaram com a ajuda do Greenpeace, que mandou para a região 13 voluntários e um helicóptero para apoiar o trabalho. Por mais de um mês, o grupo trabalhou duro, enfrentando os rigores da floresta, até que o Ministério da Justiça ordenou que a autodemarcação fosse interrompida e que as ONGs saíssem da área. Os Deni se recusaram a parar.

Depois de muita negociação, os esforços foram recompensados: em outubro de 2001, o então ministro da Justiça, José Gregori, assinou a Portaria Demarcatória, garantindo reconhecimento constitucional dos direitos Deni sobre sua terra. Em maio de 2003, a demarcação oficial finalmente começou, sendo concluída agora.

`A luta dos Deni pela demarcação de seu território é um exemplo da determinação de um povo indígena que resolveu tomar o destino nas próprias mãos`, disse Paulo Adário, coordenador da campanha da Amazônia do Greenpeace.

`É um testemunho vivo da luta em defesa da manutenção dos recursos amazônicos nas mãos de quem melhor os sabe proteger: as populações tradicionais que vivem na floresta. É algo que merece ser celebrado, depois de 18 anos de longa espera e muita batalha`.

Fonte: Greenpeace

  
  

Publicado por em

Josefa

Josefa

24/02/2012 06:53:40
Muito bom!

Renata

Renata

17/02/2012 13:09:01
Achei muito interessante.

Murilo

Murilo

16/02/2012 12:17:48
Qual é o gênero?