Alerta para riscos sócio-ambientais da superprodução de cana

Etanol: ONU e movimentos sociais alertam para riscos sócio-ambientais da superprodução de cana Mônica Pinto / AmbienteBrasil O presidente Lula almoçou nesta sexta-feira, em São Paulo, com o presidente norte

  
  

Etanol: ONU e movimentos sociais alertam para riscos sócio-ambientais da superprodução de cana

Mônica Pinto / AmbienteBrasil

O presidente Lula almoçou nesta sexta-feira, em São Paulo, com o presidente norte-americano George W. Bush. No cardápio, conforme fartamente noticiado, o início de uma parceria visando a produção de biocombustíveis, com ênfase no etanol da cana-de-açúcar.

Em visita ao terminal da Transpetro, em Guarulhos (Grande São Paulo), Bush disse que planeja aumentar em mais de seis vezes o consumo de álcool combustível de seu país até 2017, passando dos atuais 20 bilhões de litros anuais para 132 bilhões.

Este extraordinário crescimento de mercado para o Brasil, sempre exposto pelo Governo em paralelo a apregoadas vantagens ambientais de um “combustível limpo”, vem suscitando, porém, fartas doses de preocupação.

Também em visita ao país na semana passada, o diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Achim Steiner, alertou, em reportagem da Agência EFE: "é preciso saber se a expansão em massa da produção de etanol levará em conta os temas ambientais e sociais, como parte das pautas de desenvolvimento".

Segundo ele, a produção em grande escala de etanol possui três riscos consideráveis: o custo ecólogico; o risco de degradação ambiental, pelo deslocamento das áreas de produção de biocombustíveis para zonas onde podem afetar a biodiversidade, e a competição com produtos alimentícios.

Em 28 de fevereiro passado, outros questionamentos já tinham sido levantados por movimentos sociais do Brasil, Bolívia, Costa Rica, Colômbia, Guatemala e República Dominicana, reunidos em São Paulo em um seminário sobre a expansão da indústria da cana na América Latina.

“Aproveitando-se da legítima preocupação da opinião pública internacional com o aquecimento global, grandes empresas agrícolas, de biotecnologia, petroleiras e automotivas percebem que os biocombustível representam uma fonte importante de acumulação de capital”, concluíram, registrando que “algumas características inerentes da indústria da cana são a destruição do meio ambiente e a superexploração do trabalho”.

O principal objetivo destes movimentos sociais é garantir a soberania alimentar. “A expansão da produção de biocombustíveis agrava a situação de fome no mundo. Não podemos manter os tanques cheios e as barrigas vazias”, alegam.

Ainda no Brasil, na quarta-feira, várias entidades, capitaneadas pelo MST, deram entrevista coletiva sobre os biocombustíveis. Nela, “movimentos camponeses de todo o mundo” externaram algumas posições que, no mínimo, deveriam merecer alguma reflexão: “Concordamos que o uso de agro-combustível é mais adequado para o meio ambiente do que o petróleo. Mas ele não afeta a essência do problema da humanidade que é a atual matriz energética e de transporte, baseado no uso de veículos individuais. Defendemos a mudança radical da atual forma consumista e poluente de transporte individual, pelo transporte coletivo, através de trens, metrôs, bicicletas, etc.”.

“Não aceitamos que esse plano use produtos agrícolas que hoje são destinados a alimentação humana, como milho, soja, girassol, etc., para transformá-los em energia para automóvel”, colocaram as entidades.

E completaram: “Mesmo no caso da produção do agro-combustível necessário, devemos produzir de uma forma sustentável. Ou seja, combatemos o atual modelo neoliberal da escala de produção em grandes fazendas e na forma de monocultivo desses produtos. O monocultivo em grande escala é prejudicial ao meio ambiente, usa intensivamente agrotóxicos e a mecanização, expulsa mão-de-obra e afeta o aquecimento do planeta, pois destrói a biodiversidade e impede que a água e a umidade das chuvas se mantenham em equilíbrio com a produção agrícola”.

Os movimentos apontaram ainda que o governo Bush propõe que se crie uma nova mercadoria internacional - uma “commoditty energética” do álcool etanol, que não seria considerada agrícola para fugir das atuais normas da Organização Mundial do Comércio (OMC) e propõem que Brasil, Estados Unidos, Índia e África do Sul negociem um novo padrão tecnológico comum para o álcool etanol. Assim, haveria uma fórmula aceita internacionalmente, com a formação de uma “nova Opep de energia agrícola”, visando controlar seu comércio mundial.

Para os camponeses, um possível sucesso desse plano dos EUA seria “uma tragédia para agricultura tropical”, pois transformaria grandes extensões das melhores terras do Brasil em monocultivos, eliminaria ainda mais a biodiversidade e a produção de alimentos, “apenas para abastecer seus carros e manter o padrão de consumo do american way of life”. O resultado disso seria um êxodo rural que incharia ainda mais as favelas das metrópoles.

O temor de muita gente, portanto, é que a cana de açúcar volte a ser uma commodity nos termos do período colonial. Algo que os países ricos explorem aqui, aproveitando-se de terras férteis e mão-de-obra barata, sem que, em contraponto, se verifique qualquer desenvolvimento concreto, do ponto de vista social e ambiental, no Brasil.

Queimadas – O engenheiro agrônomo Manoel Eduardo Tavares Ferreira, presidente da Associação Cultural e Ecológica Pau Brasil, sediada em Ribeirão Preto (SP), mostra como vem funcionando a lógica de mercado no país. “No estado de São Paulo, até a década de 70 as usinas eram proprietárias de aproximadamente 30% da área que utilizavam para o plantio da cana. Com o advento do Proálcool (1975) e por causa do extremamente vantajoso subsídio estatal, com juros negativos e longo prazo de carência, a cultura canavieira avançou com voracidade sobre os campos de outras culturas rurais e, em semelhante intensidade, o domínio das terras destinadas ao plantio da cana passou para as usinas, por força de aquisição ou de arrendamento”.

Com isso, uma das principais vítimas foi – como sempre – o meio ambiente. “Neste quadro, a prática da queimada da cana-de-açúcar foi difundida em larga escala, sendo que, desde então, o controle parcial somente tem ocorrido por força dos movimentos sociais que culminam em legislações específicas, ações do Ministério Público e decisões judiciais”, diz Manoel Eduardo.

Segundo ele, a monocultura canavieira fez com que a região de Ribeirão Preto, até a década de 1970 com 22% de cobertura florestal nativa, visse essa área reduzida a menos de 3% nos dias atuais a partir do estímulo do Proálcool. “Mesmo com essa cobertura florestal irrisória para manter o equilíbrio ecológico da região, o fogo continua invariavelmente atingindo os últimos e pequenos remanescentes de vegetação nativa”, lamenta o engenheiro agrônomo.

fonte: Ambiente Brasil

  
  

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