Roberto Mourão

Fundador do Instituto EcoBrasil e responsável pelo Programa do FUNBIO de Melhores Práticas em Ecoturismo, Roberto Mourão é um dos principais nomes do Ecoturismo no cenário nacional. Nessa entrevista exclusiva, Mourão fala sobre o Programa Brasileiro de Ce

  
  

Fundador do Instituto EcoBrasil e responsável pelo Programa do FUNBIO de Melhores Práticas em Ecoturismo, Roberto Mourão é um dos principais nomes do Ecoturismo no cenário nacional. Nessa entrevista exclusiva, Mourão fala sobre o Programa Brasileiro de Certificação em Turismo Sustentável, descreve um panorama do Ecoturismo no Brasil, políticas públicas e projeta otimistas perspectivas futuras.

EcoViagem: Conte um pouco da sua trajetória até hoje.
Roberto: Sou mineiro, vim pra São Paulo para estudar, fiz engenharia aqui na Faap, trabalhei 7 anos como engenheiro na Enterpa Ambiental, com aterros sanitários. Um dia cansei, pedi demissão, fui pra Londres estudar inglês, e passei 1985 e 86 viajando. Conheci um pessoal que trabalhava com turismo de aventura, o que eu já fazia antes – eu gostava de velejar, de mergulhar, e isso ainda não era moda no Brasil. Visitei um pub em Londres, onde havia uma loja de turismo de aventura, a Exodus Expeditions, e conheci um grupo de australianos, com os quais acabei montando uma viagem para a África. Nós contratamos uma empresa pra nos ajudar a gerenciar a viagem, um caminhão e dois guias. Fomos de Londres até Daressalem que é a capital da Tanzânia. Foram 6 meses de viagens. Mas antes disso eu já viajava pela Europa, namorei uma jornalista e viajamos juntos, ela escrevendo e eu fotografando, sempre como mochileiro. Fui pro Marrocos, Europa em geral, depois fui para África, Egito, Israel, ficando ao todo 2 anos viajando. Quando voltei a o Brasil, já não queria mais engenharia. Acabei indo para o Rio, onde estou há 15 anos. Comecei a trabalhar numa reforma em Angra dos Reis, com uma empresa que trabalhava com aluguel de veleiros, lanchas e escunas. Os responsáveis acabaram me chamando para trabalhar com eles e passei a morar no Rio, trabalhando durante a semana em Angra. Nós tínhamos um contrato muito bom com o Clube Med. No final de 89, tive acesso a um relatório de grandes empresas brasileiras que discutia o cenário do país para os anos 90, e lá falava da aventura, do turismo ecológico, dos esportes, da natureza, do meio ambiente... Nesse momento falei para meus sócios que queria trabalhar com isso, que era a tendência mundial e brasileira. Eles não quiseram e então saí da sociedade e fui ser consultor, eu tinha recursos, tinha dinheiro, então podia investir numa nova carreira. Em 91 começaram os preparativos para a Rio 92, quando eu acabei me aproximando do André Turoni, um dos pioneiros do turismo de aventura e ecológico, entramos nessa primeira leva de empresas e consultores. Eu fui convidado a fazer, junto com o André, para a Embratur e para a ABAV (Associação Brasileira das Agências de Viagens), o caderno de programas para as pessoas que vinham para a Rio 92. Nós reunimos 25 operadoras do Brasil inteiro e fizemos um caderno de turismo com 65 passeios e programas. Com esse trabalho, nós acabamos implementando um novo conceito de se enxergar o Brasil, não o político, dividido em grandes regiões, mas pela maneira natural, seus biomas, seus ecossistemas, pelos seus ambientes e atrativos. Isso nos deu o Selo Verde durante a Rio 92 como operadora destaque, mostrando um novo ponto de vista sobre o Brasil. Isso vem evoluindo até hoje, em que discutimos turismo esportivo, rural, ecoturismo, e agora o guarda-chuva maior que é o turismo sustentável e responsável.

EcoViagem: De onde vem esse seu “feeling ecológico”?
Roberto: Eu fui escoteiro, já nos anos 60, o que não era bem visto na época. Eu já gostava de natureza, de acampar, de atividades, porque a minha infância foi na fazenda, em Minas Gerais, onde eu andava a cavalo, nadava no rio, pescava lambari... Toda a minha família trabalhava com isso, aprendi a viver junto à natureza e da natureza. Mesmo quando eu era engenheiro minhas férias eram assim, quando eu tive meu primeiro dinheiro pra viajar e sair pelo mundo, eu peguei uma mochila, comprei um bilhete para a Europa e fiquei andando de cidade em cidade, isso no fim dos anos 70.

EcoViagem: E como surgiu a oportunidade de trabalhar para o FUNBIO (Fundo Brasileiro para a Biodiversidade) e desenvolver o Programa de Melhores Práticas para o Ecoturismo?
Roberto: O FUNBIO trabalha com biodiversidade. Sua missão é desenvolver projetos, fomentar a conservação da biodiversidade. Em 1998, eu fui convidado pelo Pedro Leitão, que é o diretor executivo do FUNBIO, pra fazer um trabalho sobre ecoturismo: o que é, o que não é, o se está fazendo e o que poderia se fazer no Brasil. O FUNBIO, naquele momento, estava procurando novas alternativas. Falava-se que ecoturismo era uma alternativa econômica para comunidades tradicionais, para a conservação da biodiversidade. Então o Pedro meio que provocou um documento que provasse isso: “Se isso realmente é verdade, então vamos investir nisso”. Esse documento virou um trabalho que levou de 6 a 7 meses pra ser concluído, em que eu tinha que propor um programa e justificá-lo com as experiências que já existiam no ecoturismo. Um pouco antes disso nós na EcoBrasil – Associação Brasileira de Ecoturismo – da qual eu sou um dos fundadores, já havíamos discutido essa questão de sustentabilidade, de responsabilidade no turismo ecológico. A EcoBrasil, que já fez 10 anos, realizou uma pesquisa em que nós perguntamos para profissionais e pessoas envolvidas na área “O que é mais importante para o desenvolvimento do ecoturismo no Brasil?”. A grande maioria respondeu capacitação e treinamento. Num segundo momento, nós fizemos muitos projetos, sobretudo em áreas remotas no norte do Brasil, no Cerrado, na Mata Atlântica, no Pantanal... porque é muito fácil você ir para o sul e fazer o curso de ecoturismo do Senac, que é excelente, mas o ecoturismo acontece nas áreas remotas, se você está falando em ecoturismo está falando em envolvimento comunitário, pessoas que precisam aprender fazendo, e não têm condições de se locomover para os grandes centros. Então surgiu a proposta de desenvolver um programa, que foi o que apresentei ao FUNBIO, de fazer um treinamento, mas em vez de trazer essas pessoas, levarmos o conhecimento até elas. Então criou-se um programa piloto que é o Melhores Práticas para o Ecoturismo, mas entenda-se que é dentro do guarda-chuva maior do desenvolvimento sustentável (que é também o guarda-chuva do FUNBIO). E quando o FUNBIO aceitou fazer isso, a verba disponível era na ordem de 200 mil reais, sendo que o projeto que apresentei custava 2 milhões de reais. O Pedro aceitou o desafio e nós fomos bater na porta de patrocinadores, criando um fundo de parceria, e acabamos juntando os 2 milhões. Com esse dinheiro, nós criamos um Manual de Melhores Práticas, sobre ecoturismo e também sobre desenvolvimento sustentável, criamos a metodologia, selecionamos e treinamos pessoas no Brasil inteiro para serem monitores, com um treinamento de 360 horas. Pouca gente tem a experiência que temos na parte operacional, análise de mercado... Então o manual foi criado com esses conceitos: uma pequena parte teórica, uma caixa de ferramentas, um estudo de caso, anexos técnicos e bibliografia. Isso tudo levou um ano, e nós levamos esse treinamento para o Brasil inteiro. Então os monitores foram capacitados num primeiro momento e num segundo momento nós negociamos com vários pólos turísticos para fazermos o trabalho de campo, onde eles tinham um plano de trabalho, orientados por um consultor especialista da região. Agora o programa foi passado para a EcoBrasil, que divulgará todas as informações coletadas, tornando-se um centro de nosso conhecimento de 10 anos, tornando-se o Instituto EcoBrasil de Ecoturismo e Turismo Sustentável.

EcoViagem: Esse foi o primeiro Manual de Ecoturismo feito no Brasil?
Roberto: Não, o primeiro manual de ecoturismo brasileiro foi feito com e pelos índios, é o Manual de Ecoturismo Indígena. Foi resultado de um projeto do Ministério do Meio Ambiente com a Embratur na época, em que fizemos um programa piloto pra discutir a questão do ecoturismo e pegar subsídios. Para as comunidades indígenas, nós criamos esse manual, em 1997. Esse trabalho surtiu resultados, como o caso da Associação de Ecoturismo Pataxó, em Porto Seguro. Utilizando esse manual, os pataxós discutiram entre a comunidade o ecoturismo como alternativa de uso sustentável da Reserva da Jaqueira, uma RPPN deles. No começo, os caciques acharam que era coisa só das mulheres e adolescentes, e não se envolveram muito. Hoje, já existe a operação turística por lá, eles compraram um jipe, uma combi, estamos lhes doando um computador, eles recuperaram danças, vestuário, vendem artesanatos, já houve 4 ou 5 casamentos no idioma pataxó, estão voltando a aprender o idioma com os antigos (como eles chamam), isso tudo baseados numa discussão de ecoturismo, de recuperação cultural, o que reflete a importância da cultura na questão do ecoturismo.

EcoViagem: Essa evolução, por um lado, não acaba descaracterizando a cultura local?
Roberto: Pode acontecer o inverso, vai depender de como você faz a gestão desse trabalho, como você lida com as pessoas, como você passa o conhecimento, sobretudo se for um trabalho mão a mão. O adulto demora mais a aprender, então os monitores juntam o que aprenderam com o verniz que tiveram e com o manual, vão nas comunidades, em lugares distantes do Brasil, passar essas informações que receberam durante a capacitação. Eles tiveram tanto aula de condução sustentável de visitantes, ou de desenvolvimento de um produto turístico ou ecoturístico, como também de produção artesanal de alimentos, para naquela hora em que estiverem na comunidade, mostrarem que aquela fruta que do pomar pode virar geléia e ser vendida naquele hotel de selva que está ali perto, ou naquela embarcação que passa ali. E quando montamos essa equipe, procuramos pessoas que tinham um conhecimento prático de educação ambiental para a comunidade.

EcoViagem: E como funciona o trabalho de desenvolvimento de atrativos turísticos de uma forma sustentável?
Roberto: Para montar uma trilha, por exemplo, você precisa de uma equipe. Quem está à frente daquela equipe, num primeiro momento, é quem tem a experiência de reconhecer que aquilo é seguro, é interessante, tem um bom atrativo, qual é o tema daquela trilha, porque a trilha é temática. Pode ser uma trilha contemplativa, sem educação nem informação porque você simplesmente quer ter contato com a natureza. Mas pode ser uma trilha com o tema orquídeas, bromélias, ou a farmácia do seringueiro, a farmácia do caboclo... Então, quando você vai desenvolver uma trilha, primeiro você vai enxergá-la operacionalmente: como é que eu chego lá, quanto tempo eu vou levar, se ela é segura, o que envolve. Num segundo momento, você vai levantar aquela trilha, aí entra uma pessoa que tem mais conhecimentos em Geografia. E num próximo momento, você vai precisar de um intérprete para aquela trilha, que pode ser um biólogo que entenda das espécies vegetais, se for uma trilha de observação de aves você vai ter um ornitólogo, ou se de repente é uma trilha “farmácia do caboclo”, você vai ter um antropólogo, ou uma pessoa que trabalha com comunidades, além da “Dona Maria” que também vai conduzir os visitantes pra dizer “aquela casca faz isso” ou “aquela raiz faz aquilo”..., então acaba sendo uma interpretação mais cultural até que ambiental.

EcoViagem: Qual o atual andamento do Melhores Práticas?
Roberto: Uma vez capacitadas e treinadas, as pessoas selecionadas concluíram o estágio. A obrigação dos monitores era ficar conosco dois meses e meio, depois no mínimo seis meses. Nós queremos é passar os nossos conhecimentos para que o Brasil seja um destino confiável, um destino sustentável de turismo, de ecoturismo. Tudo isso foi passado pra eles e depois dos seis meses foi cada um cuidar da sua vida. Mas criaram uma cooperativa, e nós estamos buscando fazer novos trabalhos com eles. O ano de 2003 foi para a avaliação do que fizemos, elaboração dos relatórios, revisão e preparação do Manual para ir a público corrigido – serão ao todo 7 volumes temáticos como populações tradicionais, ecoturismo, infra-estrutura... – e o FUNBIO nos deu recursos para que a EcoBrasil tivesse um reforço institucional, se preparasse e também fizesse a transição de pegar todo esse material que nós produzimos durante esses anos, ajustando a metodologia. Estamos agora trabalhando para ter recursos e dar continuidade a todo esse trabalho ao longo de 2004.

EcoViagem: Como você enxerga o desenvolvimento do ecoturismo no Brasil? De que forma você acredita que o Melhores Práticas pode ajudar ou já está ajudando nesse processo?
Roberto: O turismo em geral, não só o ecoturismo, o turismo de natureza, o turismo esportivo... começam com a informalidade. O cara tem uma fazenda, recebe os amigos, de repente alguém fala “por que você não traz gente, aqui é tão legal, tão bonito...”. Aí ele se empolga e começa a ir a eventos da área, vai numa palestra, começa a ler sobre o assunto, hoje com a Internet a informação esta aí... E, de repente, ele começa a querer se profissionalizar. Existem vários locais que evoluíram assim, meio que saindo da informalidade. O primeiro alinhamento que houve nesse sentido foi em 1987, quando o IBAMA e a Embratur começaram a criar uma comissão para começar a discutir o tal do turismo ecológico. O segundo movimento que aconteceu, potencializado pela Rio 92, foi em 1994, quando o Brasil criou o Marco Legal Brasileiro para o Ecoturismo, criando as diretrizes para uma Política Nacional do ecoturismo, processo no qual vários de nós participamos. Até aquele momento o governo brasileiro não podia financiar nada, não podia fazer projetos, porque não existia o ecoturismo formalmente. Então criou-se uma série de princípios e um conceito que os reunia: “Ecoturismo é um segmento da atividade turística que respeita e se preocupa coma conservação do patrimônio natural e cultural...”. Esse foi o primeiro momento. O segundo momento está acontecendo agora, uma discussão sobre o turismo sustentável, criou-se o Conselho Brasileiro de Turismo Sustentável (CBTS) que hoje, junto ao Instituto de Hospitalidade (IH), está participando um processo que tem o apoio de várias outras instituições, que é o Programa de Certificação em Turismo Sustentável (PCTS).

EcoViagem: O que é esse Programa?
Roberto: Para você certificar, você tem que criar normas. Então terá de haver uma normatização em nível nacional, o que é difícil, e começando pelos meios de hospedagem, que são as âncoras operacionais do turismo, é onde está a segurança, o conforto, a privacidade, a alimentação, dali que saem os passeios, o turista é transportado até eles. Então nós partimos desse ponto que é uma pousada, que é um hotel de selva, que é onde começaremos a padronizar a certificação. Já existe certificação profissional para o garçom, para a camareira, o manobrista, agora nós estamos partindo para a empresa. Nós vamos ter normas nacionais, que foram primeiramente discutidas com um consultor internacional, e depois a equipe do Instituto de Hospitalidade discutiu e decidiu que queríamos algo mais ajustado à realidade brasileira, que é um misto de Costa Rica pelos aspectos de biodiversidade e socioeconômicos, mas com o tamanho da Austrália. Num outro momento, nós fizemos as oficinas das normas, no sul, na mata atlântica, no cerrado..., discutindo com as pessoas o que elas estavam achando daquelas normas que nós tínhamos pré-formatado. Depois consultamos duzentos consultores, numa etapa que chamamos de consulta restrita, em cima dessa evolução. E, posteriormente, realizamos uma consulta pública em cima do material quase pronto. Agora nós estamos numa fase de criar manuais e ter essas normas editadas, para que as pessoas possam ter acesso a elas, compreendê-las e aplicá-las. Vamos treinar consultores e daí tiraremos alguns auditores para certificar empresas, testando as normas em diferentes regiões. Aí teremos algo suportável para os empresários brasileiros, sem exigências demais nesse primeiro momento, mas sem ser muito afrouxado. Nós não vamos vender certificação, nós não vamos vender selos, nós vamos dar condições às pessoas entrarem no processo para vir a ter o selo. E o mais importante por trás de tudo isso é que estamos criando boas práticas, para que um dia sejam as melhores práticas, mas esse processo já vai melhorar o destino Brasil, vai melhorar a operação, vai criar uma divisão mais eqüitativa dos resultados do ecoturismo, pois procuramos envolver a comunidade, propor que o empresário não se preocupe só com o seu cliente, com o seu produto, mas que ele saiba que existe uma comunidade no entorno, e que saiba que a água e o esgoto que despeja no rio devem ser tratados, porque seu cliente está nadando naquele rio, naquela cachoeira. Estamos caminhando nessa direção, mas isso é um processo, esses processos de mudança são demorados, difíceis, sobretudo com pessoas que acham que já sabem, que vai custar dinheiro. Mas nesse ponto o Programa Brasileiro de Certificação em Turismo Sustentável já procurou os defeitos em outras certificações mundiais, e estamos fazendo uma coisa mais ajustada, e promoveremos isso tudo nacional e internacionalmente.

EcoViagem: As normas de certificação são uma extensão do Melhores Práticas ou é um trabalho independente?
Roberto: São independentes. O Melhores Práticas é um programa até de certa forma marqueteiro, nós queríamos dar um nome, Melhores Práticas para o Ecoturismo (MPE), mas estamos abarcando junto várias coisas, porque na hora que você pega uma fruta do cara no quintal e vira geléia na mesa do visitante, do cliente, aquele processo também é desenvolvimento sustentável. Então usamos alguns artifícios de marketing para atrair um bom nome ao nosso programa, e hoje MPE é uma grife, as pessoas já conhecem, virou um conceito, envolvendo um grupo de pessoas que estavam preocupadas em ter boas práticas, de preferência as melhores naquele momento. As melhores práticas não são sempre as mesmas, elas são para um determinado lugar num determinado momento, e variam conforme o espaço e o tempo.

EcoViagem: Vocês pretendem institucionalizar essas normas?
Roberto: Sem dúvida, o PCTS é formado por diversos setores, o governamental, a educação, a iniciativa privada, as ONGs, representantes dos trabalhadores... Essa miscelânia é o nosso Comitê Diretor. Existe também a Comissão Técnica de normas, formada também por esses diversos representantes mais instituições acadêmicas de educação, em níveis e papéis diferentes. Uma vez tendo esse projeto definido, o IH vai propor que o resultado desse trabalho seja norma brasileira, submetendo-se à ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Para isso existe todo um processo, e já temos representantes da ABNT conosco. Essas normas devem servir para o Brasil inteiro, assim como existem normas técnicas para engenharia, para metrologia...

EcoViagem: Qual o envolvimento da Embratur e do Ministério do Turismo nesse processo?
Roberto: No nosso caso é total. Nós não estamos fazendo nada isolados dessas instituições. Tudo foi criado sempre com eles presentes e de maneira eqüitativa. Nós estamos fazendo uma coisa para o Brasil, com dinheiro do Banco Interamericano, com dinheiro da APEX (Agência Brasileira de Promoção de Exportações), esse dinheiro é brasileiro, de impostos que todos nós pagamos, e é um processo inteiramente participativo. A comunidade como um todo deve participar, senão não tem validação, não é legitimado. E esse envolvimento comunitário não é só criar postos de trabalho para o cara ir lá varrer o seu hotel, queremos também que eles sejam treinados e tenham a oportunidade de pequenos negócios, prestando serviços como com um barco: em vez de a empresa ter uma frota de 50 barcos, o ideal para nós no ecoturismo ou no turismo sustentável, é que aquela empresa tenha associada uma comunidade de barqueiros, que prestam serviços de condução de visitantes naquele igarapé, ou naquele mangue... Isso tudo é um grande guarda-chuva para o desenvolvimento sustentável.

EcoViagem: Então você acha que agora a Embratur abriu os olhos de fato para o verdadeiro ecoturismo?
Roberto: É mais do que a Embratur, é o Ministério do Turismo e vários outros. O foco da Embratur agora é a promoção do Brasil, é a pesquisa e promoção de turismo. Nós estamos falando de Ministério do Meio Ambiente, do Turismo, da Cultura, de Ciência e Tecnologia.

EcoViagem: Como você vê o futuro do Brasil voltado à questão do Ecoturismo?
Roberto: Estamos caminhando num processo que é longo, existe uma ansiedade das pessoas em ter um retorno em 5 anos, isso não é nada, nós estamos há 15 anos falando do tal do turismo ecológico. Eu vejo um cenário excelente, o Brasil é 151 vezes a Costa Rica, temos um monte de problemas, ser um país de dimensão continental nos traz problemas, com a crise da aviação brasileira é mais barato ir para Miami do que ir para Mamirauá na Amazônia. Não só é mais barato como é muito mais fácil. Em São Paulo, na região dos Jardins por exemplo, você encontra dezenas, senão centenas de agências que vendem Disney, e quantas vendem Amazonas? Quantos brasileiros conhecem a Amazônia? E não é conhecer Manaus ou Belém, é você entrar num barco, navegar horas, conhecer o Parque Nacional do Jaú, conhecer Anavilhanas, ou o Pantanal ou a Caatinga... quantos brasileiros conhecem isso? Mas já existe um movimento pra isso. O mercado brasileiro são 41 milhões de brasileiros visitando. Se falarmos que 5 a 7% dessas pessoas estão relacionadas com turismo na natureza, é um monte de gente. Talvez mais importante do que ficar preocupado só com “gringo”, que são entre 3 e 4 milhões. Deveriam ser 18 a 20 milhões de turistas estrangeiros, que é metade do que o brasileiro viaja. O mercado interno é uma loucura, não é no futuro, é agora, já está acontecendo esse processo. Estamos crescendo. Você pega um produto clássico que no início dos anos 90 era só para “gringos”, hoje mais da metade dos clientes são turistas brasileiros. Nós temos é que correr atrás para oferecer bons guias, uma coisa que não tem no Brasil e que é muito importante, são condutores de visitantes, guias naturalistas. Não adianta ter o folheto, ter a infra-estrutura, ter hotel e agência “bonitinhos”... o cliente estará em contato com a natureza, com os animais, com o meio ambiente, com o turismo rural, se estiver com um guia naturalista, de preferência até bilíngüe.... Nós não temos isso, demora a formar, um guia tradicional leva 6 meses para formar, já um guia naturalista levam anos, porque muitas vezes ele precisa se formar primeiro em biologia para depois vir a ser um guia naturalista. Queremos tirar os biólogos dos “laboratórios de xampu” e capacitá-lo para mostrarem aos turistas a ornitologia brasileira, que é a terceira maior do mundo. E não é só o guia, você também precisa ter o mateiro, o condutor de visitantes, aquela pessoa da comunidade que conhece o bicho, sabe onde ele come, onde ele dorme e, dando trabalho pra ele mostrar o bicho, ele pára de caçar o bicho. Então está tudo amarrado, o processo é esse, e o futuro é céu azul, muito trabalho, muita coisa para remar, mas sem esquecer que temos muito potencial para aproveitar e crescer.

  
  

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