Mares nunca dantes tão navegados

Esta é uma temporada de cruzeiros atípica no litoral brasileiro

  
  
Litoral brasileiro deve ter até 19 navios na próxima

Esta é uma temporada de cruzeiros atípica no litoral brasileiro. Primeiro, por causa da crise financeira mundial. A Associação Brasileira de Representantes de Empresas Marítimas (Abremar), que esperava um público recorde de 500 mil passageiros neste verão de 2008/2009, recalculou a expectativa para 450 mil viajantes, diante do impacto da retração econômica. Mas ainda houve crescimento: o total, que será divulgado oficialmente em abril, quando o último navio regressar à Europa, é superior aos 400 mil turistas que navegaram em nossa costa em 2007/2008.

Na alta estação, uma série de fatos agitou o mar de tranquilidade do segmento. Em dezembro, uma jovem que fazia um cruzeiro realizado no MSC Opera morreu. No começo de janeiro, um surto de gastroenterite, causado por norovírus, ocorreu no MSC Sinfonia. E, no fim de fevereiro, o Costa Romantica ficou ancorado por quase 22 horas no litoral uruguaio, depois de um foco de incêndio afetar seu sistema elétrico.

Ouvida pelo Boa Viagem, uma advogada do Instituto Brasileiro de Direito do Consumidor (Idec) avaliou que as empresas agiram corretamente após os incidentes. Apesar disso, a imagem do setor de cruzeiros sai arranhada dos episódios? Algumas das quatro grandes companhias que atuam no mercado no país temem que sim. Mas garantem que a atividade é segura e prometem uma temporada 2009/2010 com movimento recorde (planejam-se 19 navios, ao todo). Veem a vida melhor no futuro, em alto-mar.

A marola da crise fez o mercado de cruzeiros no Brasil balançar um pouco. O baque só não foi tão forte, dizem as companhias, porque a estratégia de reservas e vendas antecipadas já tinha garantido boa parte dos passageiros a bordo. A CVC, que esperava 170 mil passageiros para 2008/2009, crê que encerrará a temporada com 90% desse total. Mas, no geral, avalia a estação como boa.

A oscilação do dólar deixou o cliente inseguro no fim do ano. Mas a situação melhorou com nossa promoção do câmbio congelado para navios, a R$ 1,99 - diz Valter Patriani, presidente da operadora.

Na Costa Cruzeiros, a política tarifária "Pague já", com descontos para reservas antecipadas, também garantiu um bom desempenho. E a MSC Cruzeiros continua prevendo 200 mil hóspedes até o fim de sua temporada, em 21 de abril.

Em outubro, como todo mundo, sentimos a crise. A alta do dólar nos obrigou a ser mais agressivos no mercado, com promoções. Creio que venderemos todos os lugares, mas num período mais longo do que o esperado, com mais esforço - diz Adrian Ursilli, diretor comercial da MSC no Brasil.

Na Royal Caribbean, o impacto também foi sentido.

A tal marolinha aconteceu. Os passageiros, por preocupação, resolveram não gastar tanto. Tivemos 30% menos movimento do que esperávamos - afirma o diretor-geral da companhia para o Brasil, Ricardo Amaral.

Mas o dólar alto não foi o único sobressalto para o mercado este verão. Cinco casos de morte e uma série de incidentes a bordo de cruzeiros de diferentes companhias sacudiram o setor. Temerosa de que o promissor segmento ficasse marcado negativamente, a Abremar divulgou um comunicado esclarecendo que "nenhum caso de óbito (...) teve relação, direta ou indireta, com a qualidade dos produtos e serviços oferecidos nos navios, incluindo atendimento médico" e que "os cruzeiros marítimos que chegam ao Brasil obedecem a rígidas regras, controles e imposições determinados por organismos internacionais como o International Maritime Organization (IMO)".

Houve uma coincidência de fatores num período muito curto. Um pouco de má sorte. Mas nenhum óbito teve causa originada pelos navios - reforça Ursilli, da MSC, empresa que passou por dois episódios complexos este verão.

Em dezembro, a estudante Isabella Negrato, de 20 anos, morreu pouco depois de ser desembarcada de um cruzeiro fretado por uma empresa de eventos e realizado a bordo do MSC Opera, no litoral de São Paulo. Ela havia passado mal a bordo e o laudo indicou asfixia por aspiração de líquido, provavelmente o próprio vômito.

Quando se percebeu que o quadro era grave no posto de pronto-atendimento, solicitamos o desembarque imediato da passageira, para que fosse assistida em terra num centro de saúde com mais estrutura - diz Ursilli. - Foi nesse trâmite que, infelizmente, ela veio a falecer. Mas tomamos todas as medidas necessárias naquele momento.

A assessoria de comunicação da MSC diz que os centros médicos de seus navios dispõem de equipamentos como desfibrilador, aspirador, aparelho de eletrocardiograma, incubadora e aparato de oxigênio para reanimação. A equipe de atendimento é composta de médicos e enfermeiras (brasileiros e estrangeiros). Mas atenção: os serviços médicos a bordo de cruzeiros são cobrados à parte. Uma dica é que os passageiros embarquem munidos do seguro-viagem para cobrir eventuais despesas. O produto pode ser contratado com empresas como Assist Card, GTA, Travel Ace e World Plus - algumas delas têm pacotes específicos para cruzeiros.

No começo de janeiro, outro susto. A caminho de Salvador, o centro de atendimento do MSC Sinfonia recebeu 135 passageiros com sintomas de gastroenterite. No total, cerca de 300 viajantes teriam apresentado náuseas, diarreia e vômitos. Exames do Laboratório Central da Bahia (Lacen) constataram que o surto foi causado por norovírus, que prolifera em ambientes de grande concentração de pessoas. Os laudos descartaram contaminação de comida ou da água servidas a bordo. A MSC afirma que não houve falha de higiene e que, em dezembro, tornou-se a primeira companhia a receber o Six Golden Pearls, título que atesta a qualidade máxima nos âmbitos ambiental (ISO 14001), de saúde e segurança (OHSAS 18001) e de segurança alimentar (ISO 22000) .

Antes de o navio chegar a Salvador, aplicamos nosso plano de contingência para controlar o surto e já tratávamos o caso como suspeita de virose. A infecção foi por um agente externo. Não teve nada a ver com nossa comida ou nossa água - diz Ursilli. - Temos tremendo cuidado na manutenção da higiene. Para citar um exemplo, toda vez que se vê um tripulante limpar corrimãos e maçanetas, não é apenas para deixá-los brilhando. Nos produtos usados há substâncias bactericidas.

Ursilli diz que nos Estados Unidos, onde mais 14 milhões de passageiros são transportados a cada temporada, há uma média de um caso de norovírus por mês. Em janeiro de 2007, por exemplo, 300 pessoas foram infectadas no luxuoso Queen Elizabeth 2, da Cunard, na costa de São Francisco.

No MSC Sinfonia, não houve culpabilidade da empresa. Ainda assim, oferecemos compensações aos passageiros pelo transtorno causado, pelo desconforto a bordo e pela mudança no itinerário - conta Ursilli.

Aos participantes daquela viagem, foi oferecido 25% de desconto para um próximo roteiro, e, aos passageiros do cruzeiro seguinte, que perderam o primeiro dia de navegação porque o navio ficou retido em Salvador, 25% de reembolso no próprio valor pago, ou 50% de desconto em uma futura rota.

Advogada do Instituto Brasileiro de Direito do Consumidor (Idec), Maíra Feltrin considera que a empresa agiu corretamente neste caso.

Se não houve responsabilidade da empresa no contágio, a oferta me parece bastante razoável - diz. - Mas, quando o serviço não é fornecido em sua totalidade, cabe ao consumidor escolher se quer sua re-execução, um novo cruzeiro, por exemplo; a restituição do valor pago, ou o abatimento no valor proporcional à parte que não foi executada, como o caso de um dia de navegação cancelado.

O reembolso foi a saída adotada pela Costa Cruzeiros após o incidente de um minicruzeiro Rio-Buenos Aires a bordo do Costa Romantica no fim de fevereiro. Um foco de incêndio na sala de máquinas atingiu o sistema elétrico e levou a um blecaute. O navio ficou ancorado na costa uruguaia até ter condições de navegar novamente. Cerca de 22 horas depois, os passageiros foram desembarcados em Punta del Este.

Os 338 brasileiros embarcados tinham como destino final Buenos Aires. A companhia mobilizou hospedagem em 25 hotéis no Uruguai e fretou aviões até Buenos Aires - diz Claudia del Valle, gerente de vendas e marketing da empresa no Brasil. - Especialistas consultados pela imprensa afirmaram que a companhia seria obrigada, de acordo com as leis brasileiras, a reembolsar o valor de um dia (o terceiro e último do minicruzeiro). Optou-se por reembolsar dois dias e oferecer um crédito de 20% para futuros cruzeiros.

Fonte: O Globo Online

  
  

Publicado por em