Viagem ao mundo desconhecido

Museu do Futebol abre a exposição Vestiário, que une fotos, artes plásticas e vídeo, mostrando um dos ambientes mais preservados do futebol

  
  
Jogos de luz e sombra e uma intervenção eletrônica, conhecida como vídeo mapping

O fotógrafo gaúcho, Gilberto Perin, sempre teve curiosidade em conhecer o mundo do futebol, no caso, o do vestiário. Conhecer para ele significava acompanhar os atletas no seu dia a dia e mais do que isso, clicá-los. “É muito difícil, quase impossível, você conseguir entrar num vestiário, antes ou depois de um jogo. Tentei em vários clubes do interior do Rio Grande do Sul e as portas nunca se abriram”. Todos interrogavam, perplexos: “Onde já se viu entrar com máquina fotográfica em vestiário?”

Um dia, com a ajuda do homem que criou o uniforme da seleção brasileira, em 1953 (Aldir Schilee), Perin chegou lá. O resultado pode ser conferido no Museu do Futebol, na sala Osmar Santos, durante a mostra Vestiário, que reúne 56 fotos de sua autoria, selecionadas de um total de 3 mil clicadas ao longo de quatro meses.

Vestiário não vem só. É acompanhada de 28 obras do artista plástico, também gaúcho, Felipe Barbosa, que faz outra leitura do futebol ao mostrar inusitadas bolas de futebol descosturadas, a bola peteca, fabricada com pelo de boi e de uma infinidade de materiais. Há peças refeitas a partir de materiais recolhidos, transformados e reorganizados geometricamente, enfim, um verdadeiro ateliê de artista em que chuteiras, caneleiras e luvas são expostas repetidamente em armários cenográficos que reproduzem o ambiente de vestiário.

Sobre as camadas da fotografia e da instalação artística entram os jogos de luz e sombra propostos pelo VJ Spetto, por meio de uma intervenção eletrônica, conhecida como vídeo mapping, que é a capacidade de modificar a percepção de objetos por meio da luz. “As obras têm a ver uma com a outra, conversam entre si”, comenta Perin, que teve suas fotos exibidas em pequena mostra em Porto Alegre e em Carneville (França), e que rendeu o livro Camisa Brasileira. Nesse período de hibernação, Perin acompanhou os atletas do Grêmio Esportivo do Brasil, de Pelotas, na disputa pelo título da segunda divisão do Campeonato Gaúcho de 2010.

Cada jogador tem seu ritual e sua crença antes do jogo

As imagens mostram os dramas e as alegrias vividas no interior dos vestiários e dá ao torcedor a sensação de adentrar um dos espaços mais secretos do esporte, segundo ele. “Decidi acompanhar o Grêmio de Pelotas porque, meses antes, um grave acidente no ônibus que transportava a equipe mobilizou emocionalmente os atletas. Assim, pude captar momentos-limites de tensão, alegria, disputa. E também buscar um mundo desconhecido (e proibido) para torcedores e mídia”.

Aliás, o sofrimento e tensão no começo, meio e fim da partida de futebol foi o que mais chamou a atenção do fotógrafo. “Antes da partida, eles rezam, colocam arruda na meia, atrás da orelha, evocam o santo de devoção, a proteção de Iemanjá, além de manter velas acesas até o fim do jogo”.

Para o curador do Museu do Futebol, da Secretaria da Cultura, Leonel Kaz, Vestiário propõe uma fusão entre visão e alucinação, arrancando o visitante da monotonia do cotidiano, ao mesmo tempo que chacoalha e aturde suas percepções.

Fonte: Governo de São Paulo

  
  

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