Paraíso do turismo de aventura abriga mais de 8 mil excluídos

PAULINO NEVES Bolsões de miséria se espalham pela imensidão de areia, na rota dos ralis Cidade construída sobre a areia, encravada no meio do caminho entre as regiões do Delta do Parnaíba e dos Lenç&o

  
  

PAULINO NEVES

Bolsões de miséria se espalham pela imensidão de areia, na rota dos ralis

Cidade construída sobre a areia, encravada no meio do caminho entre as regiões do Delta do Parnaíba e dos Lençóis Maranhenses, Paulino Neves (distante 390 km de São Luís) é um pequeno paraíso para os turistas que apreciam trilhas e a natureza exuberante exibida em dunas, lagos, fauna e flora fascinantes. Rota do Rali dos Sertões (prova da qual participam pilotos de várias partes do mundo) e de outros eventos ligados ao turismo de aventura, Paulino Neves – ou Rio Novo, como a maioria dos moradores prefere chamar a cidade – esconde, no entanto, uma realidade que visitantes e aventureiros raramente notam: uma legião de excluídos que sobrevive basicamente do que é oferecido pela natureza ou pelos programas sociais do governo federal.

Esses bolsões de miséria – que abrigam, segundo indicadores sociais confiáveis, mais de 8 mil desassistidos (64% da população de aproximadamente 12.800 pessoas) – podem ser vistos em bairros como Marrocos, Arame e Caixa D’Água e povoados como Angelim, Tingidor e São José. Nesses lugares, os serviços básicos que existem são precários, como abastecimento de água, fornecimento de energia elétrica e assistência médica. Outros nem foram implantados, como esgotamento sanitário e coleta de lixo freqüente. Todas essas carências refletem-se no baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Paulino Neves, que está entre os quinze mais baixos do estado (0,508 em 2000 e 0,572 em 2006).

Mas os problemas mais sérios de Paulino Neves – conforme constatou a reportagem do JP Realidade Maranhense, nos três dias em que esteve no município, são o isolamento da cidade e a ausência de projetos de geração de renda para a população pobre.

As estradas de areia que interligam Paulino Neves a Tutóia e Barreirinhas são, na verdade, trilhas de rali. Só veículos tracionados conseguem vencê-las. No inverno, a interligação por Barreirinhas é praticamente cortada. Apenas uns poucos e heróicos motoristas de Toyotas “paus-de-arara” (de linha) enfrentam as lagoas profundas que se formam próximas às dunas para transportar a população – que necessita viajar a Barreirinhas para receber benefícios ou procurar atendimento em saúde.

Quanto aos projetos de geração de renda (a renda per capita de Paulino Neves é de pífios R$ 38 e não há emprego formal no município), até que houve uma tentativa nesse sentido, levada a cabo pela Associação Comunitária dos Moradores da Praia do Tatu – onde quase todas as famílias vivem da pesca ou da coleta de caranguejo, ostras e sururu. O problema é que a Unidade de Beneficiamento e Geração de Renda – que custou cerca de meio milhão de reais, oriundos de recursos federais – foi instalada num lugar (praia do Tatu) onde a energia elétrica ainda não chegou. O prédio e os equipamentos estão lá – inúteis, no meio da areia e do mato –, há vários meses, esperando pela luz.

Nesta edição, o JP Realidade revela, ainda, que moradores do bairro do Marrocos, um dos mais pobres de Paulino Neves, estão ocupando áreas de preservação ambiental no pé das dunas dos chamados Pequenos Lençóis.

Também atualizamos um caso que repercutiu nacionalmente: o de um ex-prefeito acusado de explorar sexualmente garotos adolescentes de Paulino Neves. O denunciado – Josemar Oliveira Vieira – morreu no último dia 20 de abril sem responder às acusações na Justiça.

Professores denunciados na Câmara de Vereadores por ganhar sem trabalhar e casos pitorescos que agitaram Paulino Neves – como o casamento entre uma nativa e um italiano e o naufrágio de uma jangada que levava dois noruegueses meio malucos – também são relatados neste caderno especial.

João, Rosita e seus 4 filhos vivem numa casa de palha erguida sobre o chão de areia ao pé das dunas

Os casebres dos povoados despertam apenas curiosidade nos pilotos de rali que cruzam Paulino Neves

Raio-x do Município

Paulino Neves virou município em 10 de novembro de 1994. O antigo povoado foi desmembrado dos municípios vizinhos de Tutóia e Barreirinhas.

O prefeito da cidade é Antonio Costa Vale (PT), o Antonio da Mata, ex-professor e ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. A Câmara Municipal tem 9 vereadores.

A população do município está em torno de 12.800 habitantes.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Paulino Neves é 0,508 (12ª cidade mais pobre do estado), segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Em 2006, segundo estudo do professor José Lemos, da Universidade Federal do Ceará (UFC), o IDH de Paulino Neves subiu para 0,572, mas o município continuou figurando entre os quinze mais pobres do estado (15ª posição).

Segundo o estudo “Mapa da exclusão social no Brasil: radiografia de um país assimetricamente pobre”, do professor José Lemos, aproximadamente 64% da população de Paulino Neves (cerca de 8.200 pessoas) são excluídos socialmente.

A renda per capita do município é de R$ 38; a expectativa de vida ao nascer é de 60 anos.

Não há emprego formal na cidade (com registro em carteira, excetuando-se o funcionalismo público).

A Prefeitura de Paulino Neves recebeu do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), em fevereiro deste ano, R$ 328.394,77. Do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), chegaram aos cofres da Prefeitura, no mesmo mês, R$ 297.771,13. Em março, Paulino Neves recebeu R$ 226.497,45 do FPM e 440.185,11 do Fundeb. Total recebido em fevereiro e março (FPM e Fundeb): R$ 1.292.848,46.

Dados de: Pnud; IBGE; Tesouro Nacional

Fonte: Jornal Pequeno/MA

  
  

Publicado por em

Daniele

Daniele

22/03/2009 18:05:29
Eu acho muito triste a histórias dessas familias que foram excluidas por causa do bairro que faliu,as pessoas podiam ter um pouco de compaixão em relação a isso e ajudalas ... Eu pelo menos ajudaria.