Carnaval sabático? Tem, sim senhor!

Enquanto uma parte do Brasil ‘pega fogo’ em 144 horas de festa e dezenas de quilômetros de espreme-espreme atrás do trio, a outra metade foge da ‘bagunça’ para investir em uma pausa intimista e transformadora

  
  
Marco da Estrada Real próximo a Carrancas (MG)

Nada de ziriguidum, telecoteco ou balacobaco. Enquanto uma parte do Brasil ‘pega fogo’ em 144 horas de festa e dezenas de quilômetros de espreme-espreme atrás do trio, a outra metade foge da ‘bagunça’ para investir em uma pausa intimista e transformadora. Trocar o carnaval por um curto período sabático para desligar do mundo e ‘arejar’ os planos pessoais e profissionais pode ser a estratégia perfeita para quem não aprecia carnaval, mas é apaixonado por viajar pelo Brasil.

O mundo dos pandeiros fica a léguas da rota Caminhos Rurais, um silencioso e encantador circuito que reúne recantos naturais de rara beleza e atividades agroecológicas em pequenas propriedades rurais. Com o apoio do projeto Turismo de Base Comunitária (TBC), do Ministério do Turismo (MTur), o destino está estruturado para receber turistas e “anti-foliões”. “Durante os seis dias de carnaval no Brasil, cerca de dois milhões de viagens realizadas dentro do País terão como destino cidades afastadas dos grandes centros de badalação”, garante o diretor do Departamento de Estudos e Pesquisas do MTur, José Francisco Salles Lopes.

RUMO AO INTERIOR
Ao desembarcar no aeroporto Salgado Filho, o viajante gasta curtos 30 minutos de deslocamento até Belém Velho, um dos 11 bairros da rota turística, portão de entrada para o circuito que fica na área rural de Porto Alegre (RS). Lá, o ‘carnaval’ está na profusão de cores de 60 mil plantas ornamentais - entre espécies de vistosas palmeiras, bromélias e delicadas orquídeas -, cultivadas em pelo menos três criadouros. Nos pomares, a degustação de frutas nativas como o araçá, o butiá e o exótico araticum dão mais sabor ao roteiro baseado no modo de vida do campo, hábitos simples e hospitaleiros. Passeios a cavalo ou de bicicleta e degustação de vinhos produzidos por duas vinícolas artesanais da região compõem o menu de atividades em um cenário rodeado pela calmaria dos morros verdejantes e marcado pela tradicional culinária campeira.

Entardecer no topo do Pico do Sol

Segundo Mauri Webber, presidente da Associação Porto Alegre Rural, entidade que reúne os 25 empreendimentos participantes da rota, o local é bastante usado para retiros espirituais (possui santuários, grutas e espaços de meditação) e é muito visitado por famílias gaúchas e grupos de turistas de todas as partes do Brasil. O público está interessado em aprender técnicas de cultivo de plantas, conhecer práticas agroecológicas e participar da ‘lida’ do campo, além de provar produtos da terra que são, no mínimo, curiosos: entre eles estão o pão de urtiga, o refrigerante de lírio do brejo e as flores comestíveis.

O circuito congrega 30 pontos de atração turística ‘onde é possível viver e experimentar o conceito de turismo sustentável na prática’, garante o dirigente. A diversificada produção de frutas, hortaliças, além de sucos, mel, cucas (pães recheados), queijos coloniais, compotas de doces e geleias (as ‘chimias’ gaúchas) pode ser degustada ali mesmo, fresquinha, saída dos fornos e hortas das propriedades familiares da região.

A rota possui uma pousada, uma hospedaria ambientada em um antigo haras e, ainda, opção de hospedagem nas casas de famílias que mantêm as propriedades rurais do circuito. Sete agências de receptivo turístico oferecem passeios partindo do Parque da Redenção, em Porto Alegre, nas visitas chamadas “Domingo no Campo”. Cerca de 100 mil pessoas já passaram pelo circuito desde 2005.

Pela trilha que leva ao ponto mais alto, viajante observa a delicadeza da vegetação nativa

MISTICISMO EM MINAS
Quem nasceu brasileiro e não tem confetes e serpentinas correndo pelas veias também pode investir em uma estada de cinco dias pela “ala” mais serena de Minas Gerais. O estado ganhou fama turística pelas agradáveis estâncias termais de Araxá e pelos tratamentos em spas que usam lama medicinal inclusive para finalidades estéticas e terapêuticas, mas há muito mais que essas pequenas maravilhas a desbravar. Na região de Santa Bárbara, por exemplo, a cerca de 100 km da capital Belo Horizonte (MG), um trecho da Estrada Real passa pelo Santuário do Caraça, um lugar místico e inspirador que tem o poder de “desligar” o visitante do mundo.

Sem internet e com uma televisão comunitária, o templo proporciona experiências intimistas e momentos de reflexão. Diversas cachoeiras contornam a paisagem praticamente intocada e espécies de animais em extinção podem ser observadas em raros momentos de contato com o homem – é o caso de um lobo guará que é alimentado por um padre residente, há muitos anos. O preço médio da diária na hospedaria do santuário é de R$ 80 por pessoa.

Segundo o sociólogo mineiro Alfredo Bastos, que já percorreu a região pelo menos cinco vezes, há lugares imperdíveis que reúnem exemplares únicos do patrimônio cultural e natural de Minas Gerais. “No Parque Nacional do Caraça, as caminhadas e as trilhas que levam ao Pico do Sol e ao Pico do Inficionado são magníficas”, conta o experiente viajante, informando que mirantes e pequenas cascatas, até chegar ao topo que fica a 2.072 metros do chão, formam um caminho exuberante e desafiador. “É preciso preparo físico moderado para uma caminhada de cinco horas de subida bastante inclinada”, recomenda Bastos. O esforço é pequeno se comparado à recompensa da chegada: o visual, do alto das nuvens, é transcendental. “Já passei por lá no mínimo cinco vezes, porque este é um dos lugares monumentais de Minas, que sempre tem coisas novas pra oferecer”, garante.

Outra atração mineirinha é a região das fazendas centenárias ao redor de Ipoema, na cidade de Itabira (MG), onde também está localizado o Museu do Tropeiro. Um dos impactos do tropeirismo na história do estado está presente até hoje no feijão tropeiro, uma das especialidades da cozinha mineira. “São lugarejos especiais de contato com a cultura acolhedora e culinária fascinante do interior de Minas”, avalia o sociólogo fã da rota turística.

As testemunhas do passado estão também no Distrito de Cocais, onde três grandes paredões de pedras guardam pinturas rupestres com idade estimada em seis mil anos, e em Catas Altas, pequeno e charmoso povoado onde há que se apreciar demoradamente as incríveis igrejas e casarios de arquitetura barroca muito bem preservados. “Quem passa por Catas Altas também deve visitar o Bicame de Pedra, um sítio arqueológico fenomenal construído no fim do século 18 para ser um aqueduto de abastecimento”, recomenda Alfredo Bastos.

Fogão de lenha em granja dos Caminhos Rurais (RS): uso tipicamente gaúcho

Segundo Rodrigo Azevedo, turismólogo do Instituto Estrada Real, há visitas guiadas disponíveis em todos os trechos da região e demarcações de rota para orientar os viajantes. Além disso, está disponível, no próprio site da Estrada Real, um sistema que auxilia o turista na seleção de atrativos do roteiro de viagem.

NORDESTE SEM FREVO
Uma terceira opção para quem busca descansar a mente e os ouvidos sem axé nem samba é partir para Guaramiranga, município de seis mil habitantes que fica na região cearense de Baturité, onde o clima tem mais a ver com a Europa do que com o Nordeste do Brasil. Um grande festival de música sobe a serra, anualmente, lançando holofotes sobre ritmos que têm pouco ou nenhuma “voz” nos festejos carnavalescos do País. No 13º Festival Jazz & Blues, instrumentistas de seis nacionalidades fazem uma ode ao gênero musical, levando música da melhor qualidade para praças e palcos públicos da pequena cidade nordestina.

Adriano Moneta, 41 anos, faz parte da legião de não apreciadores de ritmos como o frevo, o samba, o pagode e o funk. Adorador de jazz, pretende se programar para festejar o “não-Carnaval” no evento do Ceará no ano que vem. “[Durante o Carnaval] eu me sinto um peixe fora d’água... O festival é uma ideia excelente, pois permite às pessoas se deleitarem com outro tipo de música. Além disso, nunca fui ao Ceará e adoraria conhecer. Aliás, quando puder viajar de verdade, será para lá. Imagino um reduto afastado da folia, só com música que, na minha opinião, vale a pena ouvir”, afirma.

Fonte: MTur

  
  

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