Fiéis de Juazeiro mantêm tradição dos cordões dos penitentes e atraem turistas e pesquisadores

Envoltos em lençóis brancos, fiéis percorrem a cidade, rezando pelas almas ou fazendo penitências de autoflagelação para aliviar os pecados

  
  

O período da Quaresma (entre a Quarta-feira de Cinzas e a Quinta-feira Santa), da tradição religiosa católica, leva à cidade de Juazeiro, na Região Norte da Bahia, centenas de turistas, peregrinos e estudiosos para assistir aos espetáculos teatrais da Paixão de Cristo e, principalmente, acompanhar os rituais dos penitentes. Envoltos em lençóis brancos, fiéis percorrem a cidade, rezando pelas almas ou fazendo penitências de autoflagelação para aliviar os pecados.

A peregrinação secular acontece as segundas, quartas e sextas-feiras, culminando na Sexta-feira da Paixão (próximo dia 29 de março). Autoridades do município e coordenadores dos grupos de penitentes lutam, agora, pelo reconhecimento da tradição como patrimônio cultural da Bahia.

Além da religiosidade, o turismo em Juazeiro convida a passeios pelo Rio São Francisco, visitas a vinhedos e adegas, à degustação da culinária típica e de frutas e vinhos nas fazendas produtoras do Vale do São Francisco. Os projetos de Enoturismo na região tiveram o apoio técnico da Bahiatursa na sua implantação.

Penitentes – Existem dois tipos de penitentes em Juazeiro. O primeiro, constituído por homens, mulheres e crianças, é conhecido como os Alimentadores (ou, tradicionalmente, alimentadeiras) de Almas, e têm como objetivo o de rezar por pessoas que morreram de forma violenta.

Enquanto rezam, os fiéis produzem um belo espetáculo de fé e tradição. Eles seguem em fila, entoando cânticos, fazem paradas (estações) para orações em pontos da cidade onde pessoas tiveram mortes violentas ou onde aconteceram acidentes, e terminam a peregrinação no cemitério da cidade. Os cânticos são interrompidos apenas pelo chacoalhar das matracas (instrumento de madeira pesada, com pedacinhos de tábuas ou metal fixados, que, ao balançarem, emitem os sons de chamamento para a oração).

Já os integrantes do segundo grupo – os Disciplinadores – não permitem o acompanhamento dos turistas ou curiosos e são avessos a aparecer de qualquer forma. Eles se autoflagelam com lâminas presas nas pontas de chicotes, com as quais cortam as costas. Reza a tradição que o autoflagelo alivia o peso dos pecados.

Um dos Cordões dos Penitentes Alimentadeiras de Almas, que começou em 1901, é coordenado por dona Nenezinha dos Penitentes (Jesulene Rodrigues Ribeiro), de 73 anos, que herdou a incumbência da mãe. De acordo com dona Nenezinha, o grupo sai por volta das oito da manhã, portando as matracas e seguindo o madeiro (uma cruz levada por um dos integrantes).

Ela nem sabe ao certo como a tradição começou em Juazeiro, mas diz que existe há mais de 150 anos e atrai estudiosos e historiadores do Brasil e do exterior, como a França, por exemplo. Dona Nenezinha afirma, ainda, que as pessoas que acompanham os Cordões dos Penitentes de Juazeiro percorrem, a cada dia, distâncias mais longas que as feitas pelo fiéis da Lavagem do Bonfim, de Salvador, que tem percurso de oito quilômetros.

O assessor legislativo de Juazeiro e estudioso da tradição, Valterlino Pimentel, conhecido na cidade como Pinguim, explica que é mais fácil aos turistas seguirem os cordões das Alimentadeiras de Almas do que os dos Disciplinadores, que preferem o anonimato ao cumprir suas penitências de autoflagelação, cujas cenas são fortes. Atualmente, a luta dos Cordões de Penitentes é o reconhecimento como patrimônio imaterial da Bahia, junto ao Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac).

De acordo com o gerente de Cultura da Secretaria Municipal de Igualdade, Assistência Social e Cultura, Wellington Monteclaro, a prefeitura de Juazeiro pretende “apresentar uma política pública de preservação desse patrimônio cultural da cidade”. Este ano, o município destinou mais de 200 caixas de velas para os cordões e designou a Guarda Municipal para a segurança dos penitentes, além da ajuda de custo para figurinos, cenários, iluminação, sonorização, divulgação e segurança dos espetáculos sacros durante a Semana Santa, informa Monteclaro.

Turismo - Cidade da Região Norte da Bahia, localizada a 515 quilômetros de Salvador, Juazeiro, com 197,9 mil habitantes (IBGE 2010), oferece outros atrativos para o próximo feriadão, além da ampla programação religiosa e cultural do período da Semana Santa. Manifestações históricas, roteiros pelo Rio São Francisco, visita a vinhedos e ao Lago de Sobradinho, em Casa Nova, dentre outros, completam o passeio.

O melhor: a ligação aérea entre Salvador e Petrolina (PE), vizinha à cidade baiana (menos de dois quilômetros de distância), separadas pelo Rio São Francisco, mas ligadas por uma ponte, torna o roteiro turístico ainda mais confortável. Há voos diários, servidos pelas companhias Avianca, Trip, Gol e Azul. Se for de ônibus, as saídas também são diárias, do Terminal Rodoviário de Salvador através das empresas Falcão Real e Gontijo (R$ 77,78 a tarifa e sete horas de viagem).

Como o período é de jejum de carne (pelo menos para os católicos) a culinária regional oferece os pratos à base de surubim (peixe típico do Velho Chico), mas o turista não deve recusar a macaxeira (cozida) frita na manteiga de garrafa ou as comidas baianas (em especial, caruru, vatapá, bobó de camarão e moquecas). Para beber, claro, sucos de frutas da região, especialmente a manga, e o vinho produzido no Vale do São Francisco.

Vapor do Vinho - A empresa gaúcha Miolo (no Brasil desde 1897) implantou a Vinícola Ouro Verde, em Casa Nova, e desde 2008 abriu as portas para o Enoturismo, com visitas guiadas por enólogos, vendas de produtos e degustação. Os barqueiros do Rio São Francisco, com a orientação da Empresa de Turismo da Bahia (Bahiatursa), associaram a visitação aos vinhedos e adegas aos passeios pelo Velho Chico, criando o Vapor do Vinho (R$ 90, roteiro fluvial e rodoviário) que passa pela eclusa de Sobradinho (onde o turista vê o desnível do lago em relação ao rio) e leva às fazendas produtoras de frutas.

A manga da região é uma das delícias do roteiro, ao lado das uvas, espumantes, brandies e vinhos, informa o gerente do Vapor do Vinho, Luiz Rogério Pereira. “Como o Vapor do Vinho não tem paradas para banhos de rio, é possível experimentar, para este caso, outro passeio de barco pelo São Francisco, conhecido como Roteiro das Ilhas (R$ 50)”, sugere Rogério.

Serviço:

Como chegar: Juazeiro fica a 515 km de Salvador (seis horas e meia de carro e sete horas de ônibus). Transporte rodoviário: Falcão Real (71 3646-4343) e Gontijo (71 3450-7448). Transporte aéreo: Salvador-Petrolina (Gol, Azul, Trip e Avianca). Informações: Disque Bahia Turismo (71 3103-3103)

Onde ficar e onde comer: portal www.bahia.com.br

Vinícola Ouro Verde: (74) 3536-1132

Vapor do Vinho: (74) 8805-1809

Cordão dos Penitentes Alimentadeiras de Almas: Rua Princesa Izabel e ruas da sede de Juazeiro

Cordão dos Penitentes Disciplinadores: Distrito do Rodeadouro e cemitério da cidade

Espetáculos da Paixão de Cristo em Juazeiro

Espetáculo “Jesus de Nazaré”. Quando: 28 e 29 de março. Onde: Itamotinga

Espetáculo “A Paixão de Cristo”. Quando: 23, 26, 28, 29 e 30 de março. Onde: sede e distritos Praia do Rodeadouro, Goiabeira-Salitre, Lagoa do Salitre, Alto da Maravilha e Dom José Rodrigues

Espetáculo “A Paixão de Cristo” de Pinhões. Quando: 29 de março. Onde: Povoado Malhada da Areia (distrito de Pinhões)

Espetáculo “A Paixão de Cristo” do Quidé (sede). Quando: 29 e 31 de março. Onde: Quidé e Maniçoba

Fonte: Governo da Bahia

  
  

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